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#1 Ganhar, gastar, investir: um papo para mulheres, sobre dinheiro

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“Nós ensinamos meninas a se encolher, a se diminuir. Nós dizemos a elas: você pode ter ambição, mas não demais. Você pode desejar ter sucesso, mas não em demasia, senão ameaçará o homem”

O trecho afiado e certeiro é de Flawless, música de Beyoncé, que traz um sample de uma palestra de Adichie Chimamanda, escritora nigeriana e ativista pela igualdade de gênero.

De fato, somos educadas para que fiquemos no lugar que até então ocupamos: o segundo. Crescemos ouvindo frases como “mulher não tem cabeça para essas coisas”, “mulher gasta muito dinheiro”, “homem não gosta de mulher independente”. São etiquetas que grudam e que demoram para que consigamos descolá-las. Vamos agarrando-as e as transformando em crenças que arrastaremos, às vezes, por uma vida inteira.

Desde muito pequenas nos programam para pensar em coisas supérfluas enquanto meninos são estimulados a focarem na poupança que, aos 18 anos, garantirá que comprem seu primeiro carro. Somos pouquíssimo instigadas a nos imaginar em cargos importantes, ganhando prêmios, realizando grandes feitos. Termos como finanças, planejamento e investimento passam reto de nós, depois que começamos a assinalar gênero feminino nos formulários da vida.

Assim crescemos, querendo, na maioria das vezes, fugir quando o assunto é dinheiro. Durante 28 anos, vivi no vermelho. Não pensava no quanto recebia e no quanto merecia, na quantidade de dinheiro que gastava, pra onde minha grana escoava. Não via seu fluxo e não entendia seus rastros. O dinheiro fala com a gente, fala sobre a gente. Quando ouvimos esse diálogo, passamos a nos conhecer melhor. Mas entendo, é realmente difícil sentar frente a frente e ter uma conversa franca com o monstro das finanças pessoais.

E, amedrontadas, todo final do ano a história se repete: somos arrastadas por uma leva de matérias sobre os novos aplicativos que prometem nos salvar da falta de planejamento, planilhas que irão organizar nossa vida inteira, lembretes e métodos que ajudarão a garantir aquele pé de meia. A verdade é que nada disso adianta se, antes, não olharmos para dentro.

Pode parecer clichê, mas tomemos como exemplo as pesquisas que mostram as mulheres como principal agente de poder e influência nos gastos de consumo ou como estamos nos tornando, em alguns lugares, as principais provedoras dos lares. Os números mostram, cada vez mais, nossa relevância no cenário econômico, mas, mesmo assim, ainda nos sentimos inseguras quando é pra falar de cifras. Temos pânico.

Inserir na educação de meninas noções básicas de finanças e falar sem medo sobre dinheiro é um caminho possível para que, lá na frente, tenhamos mulheres empoderadas e encorajadas a lidar melhor com suas finanças. Mas e nós, já adultas, como podemos gastar com segurança, poupar com perspicácia?

Denise Damiani, escritora e autora do livro “Ganhar, gastar e investir” — título que tomamos emprestado para esse artigo —, acredita que finanças são um assunto crucial para o empoderamento feminino. Como se preparar para os desafios financeiros de cada dia, transições de carreira e até desafios da vida diária: de nada adianta mirar nisso e naquilo se não escarafuncharmos, antes, com calma e carinho, as camadas superficiais que escondem o porquê de termos tanta dificuldade com esse assunto — seja o traço comum que nos une como gênero, seja alguma crença individual que carregamos e que nos limita.

Nossa relação com grana é complexa e nem sempre racional. Comparadas aos homens, mulheres ganham menos, são menos informadas sobre investimentos e mais bombardeadas pela publicidade para que continuem consumindo de forma emocional.

Mas, afinal, sabemos quais tipos de comportamentos ditados socioculturalmente atrapalham nossa fluência quando o idioma é o dinheiro?

Precisamos, antes de tudo, tirar da frente essa ideia de que falar de grana é algo assustador. Dinheiro deve ser sinônimo de liberdade e possibilidade de manejá-lo para uma vida mais livre e confortável. Não podemos duvidar da nossa própria capacidade de tomar as rédeas da nossa vida financeira e guiá-la para onde queremos.

Por mais que não tenhamos sido ferramentadas para lidar com esse tema desde o começo, podemos soltar dos mitos que nos amedrontam e que nos fazem entregar nas mãos de outras pessoas nosso planejamento ou fazer vista grossa para o assunto ao ponto de sermos arrastadas pela correnteza do imprevisível. Num segundo momento, menos amedrontadas e mais confiantes, podemos começar a olhar para nossos gastos de forma consciente — pra onde escoa nosso dinheiro? Quais são nossos maiores gastos?  — para, por fim, buscar a melhor forma de multiplicar nossas finanças. Olhando assim, parece uma equação simples, mas sabemos que há nuances infinitas nas entrelinhas.

Por isso, antes dessa dinâmica entrar nos trilhos e correr fluida, a gente propõe uma parada rápida para uma investigação pessoal que nos ajudará profundamente no processo. É menos sobre metas rígidas que nos oprimem e mais sobre acordos benéficos que faremos conosco mesmas. Vamos?

* * * 

Nossa sugestão de prática 

Para esse exercício, a gente recomenda que você tire 30 minutos do seu dia. A ideia é que, papel e caneta a mãos, sentada num lugar tranquilo, você consiga criar uma pausa para olhar para dentro de forma cuidadosa e investigue possíveis crenças que travem sua relação com dinheiro. Esse caminho feito, o ano que se aproxima com certeza parecerá menos assustador, menos imprevisível — pelo menos no que tange a vida financeira.

Para começar, pergunte-se: Como me relaciono com a grana?

Parece um questionamento simples, mas se a gente para para analisar, não sabemos muito bem como nos relacionamos com dinheiro, sabemos? A maioria de nós acaba interagindo com grana da forma que dá: às vezes mais impulsiva; às vezes, quando a coisa aperta, mais planejada. Não é uma relação escrita em pedra — e nem tem de ser! —, mas entender o momento em que estamos e que tipo de relacionamento estamos travando pode nos ajudar a nos preparar para o que virá. Respire e tente voltar para momentos importantes da sua vida. Estou sempre no vermelho? Tenho fases mais controladas e fases mais turbulentas? No geral, lido bem com dinheiro ou estou sempre em apuros? Vá anotando o que vier à mente.

Com esse diagnóstico feito, tire uns minutos para tentar, sem pressa, entender o que fez com que a sua relação com dinheiro se construísse dessa forma. Foque no ponto de atrito que você deseja mudar.

Depois, dê um mergulho mais profundo: Quais são as crenças que me levam a travar esse tipo de relação com dinheiro?

Tenho medo de não dar conta de cuidar do meu próprio dinheiro? Acho que não sou merecedora do que ganho? Creio que não serei capaz de planejar minha vida financeira? Não me considero inteligente o suficiente para lidar com investimentos?

Carregamos rótulos que nos limitam. Quando entendemos que não passam de concepções deturpadas a respeito de nós mesmas, soltamos as amarras e paramos de agir e pensar a partir desse lugar de aflição. Tente mapear quais é o rótulo que você contou para você mesma — e acreditou — que define sua relação com o dinheiro. Escreva. Quando a gente bota no papel, fica mais fácil de jogar fora. :)

Por último, proponha-se um acordo benéfico: Como posso mudar essa relação?

Deixe as metas inatingíveis de lado. Em vez de correr atrás de algo durante o ano que virá, prefira estabelecer acordos amigáveis e possíveis com você mesma. Olhando para sua crença e para a forma como ela faz com que você se relacione com dinheiro, pense de que modo pode transformá-la. Por exemplo: vou conversar com quem entende sobre investimentos para me sentir mais segura sobre o assunto; Uma vez por mês, vou tirar um tempo para analisar minha vida financeira sem medos e receios; Vou conversar com minha/ meu chefe e pedir um aumento; Procurarei entender quanto vale minha hora de trabalho e assim cobrar o que acho que é o que mereço.

Escreva o acordo em um lugar visível: agenda, bloco de notas do celular, um papel na geladeira. A ideia é que, vez ou outra, você releia e se lembre do acordo proposto.

É um caminho que requer trabalho, mas que promete uma relação muito mais sustentável — e estável — com grana daqui pra frente.

Vamos tentar, juntas?


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Na Comum, é editora-chefe, participante e caseira. 

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