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O dia em que eu decidi parar de me culpar

“Você se culpa demais”: o conselho que ouvi mil vezes, mas sempre achei que era uma tentativa de consolo diante do erro execrável que tinha acabado de cometer. Me culpo porque me importo, oras. Porque não me rendi à perversão narcisista dessa sociedade que nos isenta da obrigação pelo bem-estar alheio. Porque o que as pessoas pensam me preocupa na medida em que meus atos infligem qualquer dano ou desconforto.

Na contramão do egoísmo, me parecia lógico adotar a culpa como princípio. Começa devagar, assumindo a culpa por uma briga desnecessária aqui, se remoendo por aquela gafe ali, tomando para si algumas culpas indevidas com a melhor das intenções. Só que a culpa é um bicho que cresce conforme você alimenta, e sem perceber eu me deixei devorar por ela.

Na morfologia e na sociedade, culpa é substantivo feminino. Culpadas pelo pecado original, culpadas por abandonar o lar e o cuidado familiar, culpadas por toda a violência sofrida, culpadas por não corresponder ao ideal sacrificante da feminilidade. Eu não percebi que minha culpa tinha um peso histórico e político, achava que o altruísmo dos meus ideais libertários daria conta de tornar aquele sentimento produtivo e empático. Mas não pude controlar: a culpa benevolente se tornou angústia, auto-punição e fatalismo.

De repente eu era a minha própria carrasca, carregando um fardo nos ombros. Nem era preciso uma crítica externa, eu mesma já me cobrava, mas nunca era o suficiente para limpar a consciência. Junto ao quadro de ansiedade veio a paranoia, transformando aquela mínima culpa nos piores cenários de incriminação e arrependimento. Falei a coisa errada na hora errada, magoei, rejeitei, ignorei, fiz pouco caso, não fui firme o bastante nem tolerante o suficiente, não consigo me redimir, isso é imperdoável, sou um péssimo ser humano por ter perdido o controle.

Afinal, pra que serve essa culpa? Como eu posso falar em ética se eu desrespeito a mim mesma? Por que acreditei que o único caminho da alteridade é o peso na consciência? Porque a culpa é só minha se foi um produto das relações?

Em um lapso de indignação, peguei aquela culpa acumulada e quis jogar fora. Mas para não trocar pela indiferença, preferi distribuir entre todas as pessoas e situações envolvidas. Não pude ajudar naquele momento, mas também não perceberam que eu estava péssima. Fui mal-interpretada, mas não perguntaram o que eu queria dizer. Sumi por um tempo, mas não procuraram saber. Não consegui atender às expectativas, mas não me deram outra chance.

Com a culpa devidamente compartilhada, exonerei a juíza que me policiava. Abandonei as exigências absurdas sobre mim mesma, troquei o pesar dos meus erros pelo reconhecimento das minhas virtudes, abracei minha humanidade contraditória e imperfeita, convicta de que faço o meu melhor buscando coerência e bom senso. Sobrou apenas a parcela de culpa que me cabia, com a qual aprendi a conviver em paz e deixar que o tempo levasse.

Depois de toda essa catarse, a culpa ficou tão leve, mas tão leve que deu espaço para sentimentos bem mais revolucionários e saudáveis. Empatia, responsabilidade, compersão, cooperação, caminhos para enxergar a outra(o) sem descuidar de si e buscar a felicidade coletiva sem sacrificar a autonomia. Mea-culpa? Sempre que necessário, com tranquilidade, respeitando meus limites, sem aquele velho remorso.

Lição aprendida: carregar uma tonelada de culpa não alivia o peso do mundo, nem faz de você a messias do altruísmo.


Texto publicado originalmente no Medium


Cely Couto, 26 anos, comunicóloga, redatora e eterna idealista. Feminista por sobrevivência, libertária por coerência, indignada por essência. Você a encontra no Café Feminista  e no Facebook

Cely Couto

26 anos, comunicóloga, redatora e eterna idealista. Feminista por sobrevivência, libertária por coerência, indignada por essência. Escreve no blog café feminista.
 

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