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Prisões estéticas: se eu tivesse uma filha

Revirando umas fotos minhas antigas, encontrei uma com 19 anos e lembrei de como me achava feia, gorda, horrível e, como podem ver, eu era magra. Já na segunda foto, a mais atual, estou gorda, de fato, e de biquíni, veja só, meu primeiro que tive desde os 18 anos e que ainda não botei em uso por falta de praia perto e amigos com piscina.

O fato é que hoje, mais velha e mais gorda, eu me sinto infinitamente mais feliz comigo do que jamais estive, não é curioso?

Eu acho que muito disso vem do fortalecimento que o feminismo tem me dado e também em conversar com tantas mulheres incríveis e me forçar para romper com a ideia de que somos competidoras, em ter amigas, em me respeitar mais. Vendo as minhas fotos, apesar de antes mais nova e magra, consigo me amar mais hoje por ter marcas, por ter optado em ser como sou, hoje eu sou assim por escolha minha.

Eu nunca quis ter filhos, nem pensava sobre isso, a ideia me assustava muito, mas hoje, às vezes penso que até gostaria de ter e penso se fosse uma menina, gostaria de ensinar algumas coisas pra ela, coisas que eu gostaria que tivessem me falado quando era mais nova.

Queria explicar pra ela que mulher nenhuma tem a obrigação de ser linda, porque mulher não veio ao mundo para ser adorno, mas que ela deveria se sentir assim se quisesse, com todas as particularidades que ela pode ter, além do próprio corpo.

Queria que ela soubesse que pode ser gorda, magra, ter estria, ter peitão, ter peitinho, quadril largo, bunda pequena, que pode ter celulite, que pode não gostar de maquiagem ou gostar. Que ela pode ter cabelo liso, enrolado, curto, longo ou ser careca. Que ela pode ser o que quiser, inclusive ser linda.

Queria contar pra ela que mulheres não são competidoras natas, que não precisamos guerrear uma com as outras, queria que ela entendesse que uma das coisas mais bonitas que existe é a amizade entre mulheres, aquela que te acolhe, que te conforta e que te entende pela igualdade.

Queria que ela entendesse que o sexo é bonito e que é algo livre, para se fazer quando tem vontade e não ser usado como moeda de troca. E que acima de tudo, que sexo só é bom quando é bom para todos que estão fazendo.

Queria que ela entendesse que o corpo evolui, que envelhecer é uma sorte e não azar, que o tempo traz muitos benefícios, como o reconhecimento de si mesma na própria pele.

Queria que ela soubesse dessas coisas, mas, se fraquejasse e não conseguisse acreditar nisso sempre, que tentasse se lembrar de apenas uma verdade fundamental, a de que toda pessoa pode ser o quiser e que esta é única obrigação de qualquer um no mundo.


Texto originalmente publicado no Blog Abobrinhas Consistentes.


Milla Puppo gosta de Harry Potter e Gilmore Girls e aprendeu a andar de bicicleta e usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Escreve no seu blog sobre vários assuntos.

Milla Pupo

Gosto de Harry Potter e Gilmore Girls, aprendi a andar de bicicleta e a usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Tenho um biquíni da mulher maravilha e já fiquei internada num hospital de guerra no Vietnã, pode não parecer, mas eu sou coerente, aliás o suficiente para dizer que não, aqui não tem mil e uma noites de amor com você.
 

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