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Mulheres e a vida doméstica: o dobro do trabalho, nenhum reconhecimento

Chegar em casa depois de um dia de trabalho e seguir com uma jornada exaustiva para deixar tudo em ordem e cuidar dos filhos é a realidade de muita gente, mas principalmente das mulheres. Enquanto elas dedicam, em média, 20 a 25 horas semanais ao trabalho doméstico, eles investem apenas 8 a 9 horas por semana nestas atividades. A diferença gritante mostra que a rotina puxada em casa segue como forte instrumento de inferiorização das mulheres, que se dedicam sem remuneração ou reconhecimento social. É trabalhar de graça só pelo ideal que nos foi imposto de ser boa mãe, esposa ou filha.

Os dados são do levantamento Trabalho Feminino e Vida Familiar realizada por núcleo de estudos da Unicamp com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), feita pelo IBGE de 2001 a 2012. A carga de tarefas domésticas aumenta quando a mulher está desempregada, aponta o levantamento, chegando a 26 horas semanais. E adivinhem? Mais uma vez os homens levam vantagem. Empregados ou não, o volume de trabalho doméstico que eles realizam segue inalterado. Parece que a pesquisa comprova o que muitas de nós já sabíamos de ver em casa ou sentir na pele.

Historicamente, entregar às mulheres as tarefas do lar foi um mecanismo capaz de colocar as minas na posição de cidadãs de classe inferior. Hoje cresceu a presença das mulheres no mercado de trabalho. Aumentou ainda o peso delas na hora de pagar as contas em casa, muitas vezes bancando a maior parte das despesas. Por outro lado, permanece a amarra da divisão desigual das tarefas em casa.

Quem paga o trabalho invisível?

A disparidade pode não soar tão cruel, mas é essencial levar em conta que as tarefas do lar, em geral, não rendem qualquer crédito ao autor. Apesar de seu papel essencial na sociedade, já que cuidar da casa e dos filhos tem impacto sobre a educação, no processo reprodutivo e no desenvolvimento da população, estas tarefas sequer são consideradas economicamente. No fim das contas, o que entra no cálculo do PIB, o Produto Interno Bruto, índice determinante para apontar se a economia de um país vai bem ou mal, são as trocas comerciais. O tempo dedicado ao lar é invisível nesse cálculo.

O esforço de qualquer dona de casa vale pouco em uma economia de consumo. Ninguém recebe remuneração ou o troféu de cidadã do ano por ter mantido tudo limpo, pensado nas refeições da família e cuidado dos filhos. Soa ridículo pensar em um reconhecimento nestes moldes, mas afinal, por que não? Temos empresários do ano, franquias do ano, ricos do ano, entre tantos prêmios (bem mais ridículos, convenhamos). Apesar disso, as pesadas e intermináveis tarefas do lar não despertam qualquer interesse da sociedade.

Hildete Pereira de Melo estudou o tema na Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) em trabalho que questiona a invisibilidade das funções femininas em casa. “Trabalho doméstico para uso da própria família, invariavelmente feito por mulheres, não é pago nem socialmente reconhecido”, denuncia. A autora complementa com uma citação de Ester Boserup, de 1970: “as mulheres e suas contribuições ao bem-estar socieconômico são subestimadas nos cálculos do produto nacional”.

Ann Oakley, em 1974, concluiu que o termo dona de casa não pode ser sinônimo de esposa e mãe, mas de trabalho doméstico não remunerado. Desde então, apesar da evidente evolução econômica das mulheres, com crescente participação no mercado de trabalho, as atividades domésticas segue como peso maior para elas do que para eles. Esta agenda ocupa parte importante do tempo que poderia ser dedicado a uma atividade produtiva do ponto de vista de mercado.

Como querer mais mulheres que se destaquem economicamente se elas estão abarrotadas de tarefas para executar em casa?

Mulher moderna e a cultura machista

O desequilíbrio entre o quanto homens e mulheres pegam no batente só vai ser resolvido com muito esforço para mudar o senso comum que confere às mulheres o talento de cuidar do lar. Dentro deste ponto de vista deturpado, zelar pelo bem-estar de todos, ser mãe e garantir que a casa esteja sempre em ordem são características natas do sexo feminino.

É mais uma vez a mulher colocada em caixinhas que estabelecem a posição delas no mundo.

Na tradução para o mundo real, essa herança cultural aparece quando o marido fica sem cuecas limpas e avisa a mulher que é preciso lavar roupa. Ou quando duas esposas conversam sobre como seus parceiros são incapazes de ter uma visão mais organizada do lar e colocar no lugar tudo o que eles bagunçaram. Quem nunca ouviu algo do tipo: “só as mulheres conseguem pensar nessas coisas. Os homens são desorganizados e desatentos”. Pois é. Tudo indica que é exatamente isso que a cultura machista quer que as mulheres pensem.

“Enquanto a família, o mito da família, o mito da maternidade e o instinto maternal não forem destruídos, as mulheres continuarão a viver sob opressão”, disse Simone de Beavoir em Sexo, Sociedade e o Dilema Feminino, de 1975. A frase segue atual. Dados do levantamento da Unicamp mostram que a esmagadora maioria das mulheres entre 16 e 60 anos faz trabalhos domésticos. No caso dos homens, apenas quatro em cada dez desempenham funções em casa.

Vergonhoso, não?

A psicóloga Ana Luiza Ferraz não dá colher de chá e reforça o que todos deveriam saber: dividir é essencial. A meta é impedir que a mulher assuma mais funções simplesmente porque o feminino carrega a imagem cultural de estar ligada ao trabalho doméstico. “É preciso ver o que cada um faz melhor no casal e, se há uma tarefa que nenhum dos dois gosta de desempenhar, ela tem de ser dividida. A responsabilidade não pode ficar só de um lado”, defende, contra a divisão sexual do trabalho.

Mudança lenta

Apesar de ainda desigual, há indícios de que o abismo que diferencia homens e mulheres nas tarefas domésticas vem diminuindo. A pesquisa da Unicamp destaca que caiu o número de horas semanais dedicadas ao trabalho doméstico entre 2001, quando elas dedicavam 34 horas semanais para cuidar da casa, e 2012. A parte triste é que a melhora, na verdade, não foi causada por mudança de comportamento dos homens, mas pelo maior acesso a eletrodomésticos, como máquina de lavar roupas e micro-ondas.

A psicóloga Ceneide Cerveny lembra que no passado a Segunda Guerra Mundial deu impulso à uma revolução que trouxe a emancipação feminina, mas sem direitos iguais. Hoje outro fenômeno está em curso, o das mulheres emergentes, que buscam ascensão social por meio de um nível educacional melhor. Elas sim acabam arcando com uma pesada carga doméstica e profissional, aponta Ceneide.

Tudo indica que tem uma bela pia de louça para lavar no caminho das minas para o sucesso profissional.

“Minhas pesquisas são na maioria na classe média e nela as coisas já estão mudando. Os jovens casais já participam os dois das tarefas domésticas e cuidados com os filhos porque têm dupla carreira”, destaca. Ceneide aponta que, neste grupo, os homens diminuem seu papel nas tarefas ao longo do ciclo de vida da família, mas retornam na última fase quando, já aposentados, voltam a desempenhar mais funções em casa.

Os estudos de Ceneide deixam de fora, no entanto, classes sociais com rendas menores, onde é comum os dois trabalharem fora, mas a mulher se manter como única responsável por cuidar da casa, muitas vezes até mesmo quando o marido está desempregado.

Ana Luiza lembra que, além do impacto na sociedade com a restrição do papel da mulher, o trabalho doméstico pode fazer mal para a saúde. “Ter uma grande carga de tarefas dentro e fora de casa, na vida profissional gera estresse e problemas de foco”, diz. Ela, no entanto, tem uma visão otimista de que a tendência é por mais igualdade. “Acho que essa herança machista já é um pouco menor na minha geração e vai diminuir cada vez mais nas próximas, com as mulheres reivindicando posição de igualdade”.

Falta ainda uma transformação importante para melhorar o status da mulher na sociedade e tornar o trabalho em casa ainda mais justo: alterar as estatísticas para levar em conta o trabalho total da sociedade, sem excluir os esforços dentro de cada.

Essa missão de olhar não apenas para o trabalho tido hoje como produtivo pela economia de mercado, no entanto, vai muito além do feminismo.


Giovanna Riato é jornalista apaixonada por economia colaborativa, inovação, negócios, corrida de rua, alimentação, relacionamentos.  

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