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O Mito do Empoderamento da Mulher na Música Pop

Dentre tantas demonstrações de empoderamento da mulher que presenciamos desde a ebulição do movimento feminista no país e no mundo nos últimos dois anos, certamente as que têm mais visibilidade são as de artistas mulheres, especialmente na música. Seja pelo tamanho da fama e alcance mundial, seja pelo apelo e transgressão de ver artistas pop assumindo uma postura política, ou mesmo pelo fato de saber que essas mulheres são tão afetadas quanto nós com o machismo nosso de todo dia. Nossa atenção sempre é fisgada ao ver que mais e mais artistas estão falando sobre feminismo como parte fundamental de quem elas são e do trabalho que fazem.

Quando ouvimos artistas pop como Madonna, Rihanna, Lady Gaga e Beyoncé (e muitas, muitas outras) falando sobre sexo, seus corpos, seus relacionamentos ou qualquer outra coisa relacionada diretamente ao seus gêneros e suas experiências enquanto mulheres nessa realidade um tanto cruel que é o mundo da cultura pop, isso pode sempre ser visto de duas formas, a depender das ferramentas e perspectivas utilizadas:

empoderamento ou apropriação da figura feminina dentro de padrões e papéis que esperamos que essas mulheres representem para a imaginação de todos nós

Para falar sobre empoderamento da mulher na indústria da música, é interessante trazer dois acontecimentos recentes, extremamente relevantes e diretamente associados ao ponto principal dessa discussão: o processo de julgamento da quebra de contrato da Kesha com a Sony, diante da denúncia de abusos sexuais e psicológicos do seu produtor, Dr. Luke; e o lançamento da música da Jennifer Lopez, sobre independência e empoderamento da mulher, escrita pela Meghan Trainor e produzida pelo mesmo Dr. Luke. Contraditório, né?

De um lado temos uma mulher proeminente na indústria fonográfica, que até o momento está impedida de lançar qualquer novo trabalho, uma vez que seu contrato com a gravadora que trabalha, a Sony, está diretamente vinculado ao Dr. Luke, produtor que ela acusa de tê-la assediado durante anos da sua carreira, e que afirma não ser mais capaz de seguir trabalhando com ele (porque será, né?). Derrotada nas duas audiências sobre o caso, e com Dr. Luke inocentado de todas as acusações da cantora, Kesha segue em um processo de deterioração da sua carreira e figura pública, demonstrando não apenas o tipo de poder que grandes conglomerados de mídia exercem sobre seus artistas, mas também o tipo de relevância e empatia que o discurso de uma mulher, vítima de violência de gênero possui: próximo a zero.

A favor da Kesha, diversas artistas levantaram sua voz e vieram para linha de frente defender a cantora, a necessidade de quebra do contrato com a Sony e o Dr. Luke, e o repúdio das decisões tomadas pela justiça. E é agora onde a coisa começa a complicar: praticamente todas as cantoras que vieram em defesa da Kesha já trabalharam com o Dr. Luke, porém nenhuma delas criticou as ações do produtor ou se manifestou quando questionadas se deixariam de trabalhar com ele.

Questionar as atitudes das cantoras e bandas que, apesar de posicionarem ao lado de Kesha, seguem contribuindo para que o Dr. Luke continue com sua carreira é extremamente necessário, porém também é importante dar um passo adiante e pensar em como a máquina funciona na indústria fonográfica, especialmente da música pop. Grandes artistas com certeza teriam o poder de contestar as decisões da Sony, se negar a trabalhar com o Dr. Luke novamente e pressionar a indústria a mudar de dentro para fora, mas a verdade é que boa parte dessas artistas também estão presas a gravadoras e produtores por conta de contratos milionários e praticamente eternos, assinados no início de suas carreiras até o auge delas (caso alcancem).

São inúmeros os casos de cantoras que se declaram feministas e são ativistas de causas do movimento, mas ao mesmo tempo seguem trabalhando com produtores, diretores e cantores acusados de violência contra a mulher.

A Lady Gaga já lançou hit e clipe com o R. Kelly e o Terry Richardson, a Beyoncé gravou todos os clipes do álbum homônimo dela com o mesmo Terry Richardson, e a Taylor Swift, Miley Cyrus, Demi Lovato e Katy Perry ainda trabalham com o próprio Dr. Luke. Nenhuma das acusações feitas contra esses homens são desconhecidas ou recentes, e mesmo assim não vemos essas mulheres ou mesmo outros homens da indústria se posicionando em relação aos trabalhos realizados ou encerrando negócios com os acusados.

Essa dinâmica proporciona não apenas a manutenção dessas figuras na indústria, mas também a prerrogativa para que o comportamento seja perpetuado e as artistas mulheres, por mais ricas, poderosas e influentes que sejam, ainda estejam na base da cadeia alimentar do mundo do entretenimento, cumprindo papéis específicos em momentos ainda mais propícios para que a árvore continue dando dinheiro, e isso tem muito a ver com o jeito que esse universo é estruturado.

Homens estão no topo das grandes produtoras fonográficas e audiovisuais no mundo todo, portanto, toda decisão econômica ou criativa é tomada a partir do ponto de vista e experiências de pessoas que sempre tiveram vantagens políticas, sociais e econômicas. E apesar de termos artistas extremamente bem sucedidas na linha de frente dessa indústria, a verdade é que na produção e elaboração do produto final, as mulheres raramente são protagonistas. De acordo com a análise feita pela Fusion em 2015, de todas as músicas no Top 40 da Billboard, apenas 26% dos artistas são mulheres, 13,5% são compositoras, e irrisórios 3% são produtoras.

Isso nos leva ao lançamento da nova música da Jennifer Lopez, com música escrita pela (não tanto, porém bastante) problemática Meghan Trainor (“Dear Future Husband”) é uma chuva de sexismo), e produzida pelo Dr. Luke, “Ain’t Your Mama” conta uma história de empoderamento da mulher dentro de um relacionamento, onde a mesma percebe que o seu companheiro não é bom o suficiente para ela e decide deixá-lo. Exatamente o que a Kesha poderia ter feito com o Dr. Luke, mas ao contrário, né?

Na grande ironia que é o lançamento dessa música, percebemos que em um possível esforço para fazer com que Dr. Luke traga para a Sony tanto dinheiro e fama quanto a marca desperdiçou ao tentar defendê-lo durante todo o processo da Kesha, a gravadora não demonstra apenas insensibilidade com seus artistas e público, mas também nos diz com todas as palavras que quando você faz parte de um certo status quo, seu discurso provavelmente vai ter muito mais peso e validade que as vivências das minorias ao seu redor.

Como mudar isso? Bom, muito parecido com praticamente todas as reivindicações de movimentos feministas, esses cenários não se dissipam da noite para o dia, mas alternativas existem e devem ser, além de contempladas, incentivadas.

A alternativa mais viável para diminuir essas disparidades na indústria e construir espaços mais seguros para artistas mulheres é bem objetiva: está na hora de dar mais poder para as artistas. Diversos dados apontam que, ao terem controle total de suas criações e orçamentos, mulheres contratam mais mulheres, e ambientes criativos se tornam mais diversificados e inclusivos por conta dessa simples decisão. Incentivar a produção artística de mulheres a partir das suas próprias experiências, motivações e decisões é uma forma de empoderamento muito mais concreta do que a que vivenciamos atualmente. Uma música pode ser uma forte expressão de liberdade, mas no cenário que vivemos, muitas vezes pode ser apenas mais um produto da apropriação de discursos de movimentos sociais que estão tomando espaço e relevância junto ao público que essas gravadoras buscam atingir.

Os dois últimos anos foram essenciais para que essas alternativas se tornassem viáveis, não por terem sido maravilhosos para mulheres que produzem música (ou qualquer outro tipo de mídia/arte), mas por talvez marcarem os últimos anos em que as coisas fossem feitas de maneiras tão exploratórias e opressoras sem o risco de se tornarem públicas, pavimentando um caminho inicial para que - mantido o engajamento na causa - mulheres comecem não apenas a protagonizar na vitrine das narrativas vendidas ao público, mas também como autoras suas próprias histórias.


Ana Paula Vargas Maia é carioca, mora em Salvador, faz parte da ONG Sororitas, com foco em inovação social e inclusão digital para mulheres em estado de fragilidade social e do Pata a Pata, que apóia ONGs de proteção aos animais e abrigos em Sergipe. Também é professora universitária, criadora do grupo Piquenique e editora do Feminismos, um canal no Medium para publicação de textos sobre feminismo

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