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Relato: “Comer em público é morrer um pouco. E já não tenho quase nada em mim”

Todos os dias, eu me sirvo e penso se em algum momento da minha vida comer será simples. Nunca foi. Provavelmente nunca será.

Hoje, meu dia foi particularmente difícil e eu troquei meu almoço por fast-food. Quando tudo parecia piorar, eu comi dois salgados fritos. Na minha cabeça, antes de terminar a comida, eu já estava pensando quantas calorias eu havia ingerido, se isso tinha estragado meu treino da manhã, se seria conveniente eu aumentar mais um km na corrida de amanhã ou se eu deveria ignorar o que a minha nutricionista diz e simplesmente vomitar. Ela me explicou que mesmo que eu nunca faça isso, eu sou uma pessoa doente.

Eu tenho um distúrbio alimentar e isso não é normal. Mas é comum. A maioria das minhas amigas tem. Pra gente, comida é desespero.

Meu último ataque de pânico foi na festa de aniversário da minha filha. Tinha muita comida. Muita mesmo. Eu não sabia o que fazer. Me tranquei no banheiro e chorei. Eu sabia que se eu comesse um, comeria três e esses virariam nove e eu provavelmente engordaria todos os quase trinta quilos que emagreci.

Eu emagreci trinta quilos e continuo tão infeliz quanto antes. Quem diria, né? Qualquer mulher diria. Mas nunca em voz alta. A gente sabe o peso dessa frase. Dessa vida.

Dia desses, me senti tão sozinha e infeliz, que pedi um x-salada, uma batata pequena, um refrigerante de 200 ml e uma pizza grande. Comi o recheio do lanche, toda batata, duas fatias da pizza e joguei o resto fora. Sempre penso se devo vomitar e, novamente, lembro da nutricionista me dizendo que isso não vai me emagrecer. Que meu corpo vai reconhecer a agressão e reagir estocando gordura.

Eu ri. É como eu me sinto. Um grande container de gordura. Eu sou uma pessoa, mas ter nascido mulher e ter crescido gorda faz com que eu me sinta aquém.

Lembro de um homem que me disse que gorda não é mulher e, numa sociedade em que mulher não é pessoa, o que sobra pra eu ser?

Para mim, a minha gordura é como uma das minhas tatuagens. É parte de mim, existe em mim e ok. Seria super tranquilo se as pessoas não me dessem parabéns pela coragem (eu sou tão desprezível que preciso ter coragem para ser eu?) ou quando elas apontam.

É um processo de punição constante. Quando consigo controlar a comida, compro demais. Se controlo a compra, volto a roer unhas. Estou sempre esperando que alguém ria de mim, me aponte, me julgue.

Emagrecer não é nada além da minha obrigação, eles dizem. Com os olhos ou com a boca. As pessoas são muito expressivas quando querem ser cruéis.

Toda a minha energia vai pra isso. Pra comida. Pra aprender a comer. Pra sentir sabor e não culpa. Pra sentir saciedade e não vontade de vomitar. Pra sentir alguma coisa que me faça pensar que tudo bem comer.

Tem gente que se corta, eu como. Tem gente que toma remédios, eu conto calorias. Tem gente que senta e conversa e come. Não consigo. Conto mentalmente a comida que tem na mesa, quanto posso comer sem que me apontem, vejo como as pessoas estão comendo, eu não sei comer.

É todo um procedimento louco que se aproxima muito do medo da morte. Comer em público é morrer um pouco. E já não tenho quase nada em mim.

Ironicamente, gosto de coisas saudáveis. Gosto de comida boa e simples. Comida natural. Suco de fruta, salada verde, café preto. Detesto fast-food. Detesto frituras e coisas processadas. Meu corpo rejeita. Mas eu como. Quando sinto sono, raiva e dor, eu como. Escolho coisas que eu sei que me farão mal. Não é culpa da comida. Nem minha. Mas sou eu quem tem que lidar com isso. Em silêncio.


Quando comecei a digitar esse texto, era para falar sobre ser gorda e esportista, afinal, na nossa sociedade, uma coisa parece invalidar a outra imediatamente. O que é uma baita mentira.

Eu tinha acabado de ler sobre compulsão alimentar e o relato abaixou saiu. Foi a coisa mais difícil que escrevi na vida. Há muito tempo eu sei que sou uma pessoa doente, mas nunca assumi isso. Mas, desde que escrevi, tenho dito sempre que o assunto cabe.

Ter compulsão alimentar é comum, mas não é normal. Existe um silêncio absurdo sobre isso. E existe um silêncio interno. A compulsão é resultado de uma violência sistêmica contra mulheres. O medo de dizer isso era enorme. Ainda é. Mas escolhi dizer: eu sou compulsiva.


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Fabrina Martinez, 38, jornalista, feminista, mãe e uma das editoras da página Eu, mãe. E uso esse rodapé para entender que a compulsão não me define.

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