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Existe amor depois do abuso?

De acordo com estatísticas registradas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) a cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil. Como apenas 30% dos casos são denunciados é possível que esse espaço de tempo seja ainda menor, o que tornaria os números de estupros ainda maiores e mais assustadores.

Na prática isso significa que muitas (a maioria, provavelmente) de nós já sofremos um abuso em algum momento da vida e é muito difícil que um evento como esse não nos deixe marcas. Nas mulheres que eu conheci que já haviam sido abusadas elas estavam lá, algumas vezes mais visíveis, outras mais bem escondidas, mas raramente elas deixavam de existir.

Uma marca que costuma persistir é o medo nem sempre verbalizado de não conseguir se relacionar amorosamente depois de ter sido vítima de um abuso. Era um temor que eu alimentava nas minhas entranhas, em silêncio, às vezes angustiada e tantas outras resignada.

Não era raro me pegar felicitando as amigas que começavam novos relacionamentos muito mais promissores do que os meus, enquanto internamente eu ouvia uma voz que me dizia que jamais algum homem ia me querer de verdade se soubesse o que meu irmão tinha feito comigo.

Era como se os anos de abuso me tornassem uma mulher impura e problemática demais para viver um relacionamento pleno e feliz. Não era algo que eu acreditava merecer realmente, sabe? A princípio eu fiz o que muitas de nós fazemos: escondi dos caras e de mim mesma o que era um fato mais do que consumado na minha história. Os sintomas da violência sexual vez ou outra se manifestavam no meu corpo e no comportamento, tudo isso acabava atrapalhando o que estava sendo vivido, mas meus primeiros namorados jamais souberam de onde aquilo tudo vinha.

Eu não tinha coragem de contar porque no fundo tinha certeza que acabaria sendo vista como “a violentada”, ou seja, tudo de bom e de ruim ao meu respeito se reduziria a esse rótulo. Eu não queria ter que ouvir o que já soube que muita mina teve que escutar por aí: “Você é assim porque foi estuprada”. A ideia disso acontecendo me matava por dentro e eu era incapaz de lidar sequer com a hipótese.

Claro que também sentia muita vergonha do que pensariam de mim e tinha muito medo dos julgamentos que certamente viriam (e vieram). Crente de que a clandestinidade era o que cabia para gente do meu tipo eu fui me calando e encolhendo cada vez mais, a ponto de não ocupar espaço nenhum, nem mesmo o da minha própria vida. A minha existência era uma grande colcha de retalhos, feita de mentiras bem pensadas e de contos improvisados, que eu desejava que tivessem sido reais. Nas profundezas do meu ser eu sentia que era totalmente impossível alguém me conhecer verdadeiramente e não me desprezar, especialmente se estivéssemos falando de um homem, mas felizmente eu estava enganada!

Eu já conhecia o Jon há alguns meses quando ele me perguntou na chincha se eu já tinha sido abusada. Era setembro de 2011 e lembro de sentir todo o meu corpo tremer quando li aquele questionamento no finado MSN. Recentemente conversamos a respeito e ele confessou que desconfiava que algo assim teria acontecido comigo porque eu era muito subserviente aos caras, tanto os que eu tinha amizade quanto os que faziam parte da minha família. “Era como se você tivesse medo ou devesse algo a eles”, comentou.

Tomada pelo espanto eu acabei confessando que era isso mesmo, sem pensar muito no que estava fazendo naquele momento. Depois fugi meio sem rumo, profundamente amedrontada e envergonhada, me sentindo terrivelmente invadida e exposta. Ele não desistiu e correu atrás, acho que porque àquela altura já me amava, mas muito por se dar conta de que eu precisava desesperadamente de ajuda. Ele me deu essa ajuda, como eu o ajudei em muitos momentos da nossa história e assim fomos indo e estamos até hoje. Juntos crescemos e lidamos com os nossos traumas, com os nossos dissabores e com os nossos desacertos com esse mundo tão louco e complicado.

Não têm heróis nessa história, mas sim dois indivíduos que se amam e que se esforçam para estar bem consigo mesmo e com o outro.

Quando eu conto tudo isso para outras pessoas muitas dizem que eu tenho muita sorte. Concordo que sou privilegiada de ter ao meu lado um companheiro como o Jon e agradeço todos os dias pelo que vivemos, mas não quero pensar que sou um caso de sucesso em um oceano de relações fracassadas, em que uma das partes é uma mulher que sofreu um abuso. Seria até gostoso pensar no quanto somos únicos e especiais, mas no fim do dia a gente briga, a gente vacila e ainda tem que fazer terapia para controlar os monstros internos e conviver com os alheios. É assim que funciona pra gente e acho sinceramente que pode funcionar para todo mundo, contanto que os envolvidos estejam dispostos a se aceitar e aceitar o outro, o que é muito cansativo, mas não é impossível e também é extremamente recompensador.

Não alimentemos mais essa ideia de que uma mulher abusada está arruinada, principalmente no campo afetivo. Isso é muito injusto conosco e impede que muitas de nós tratem as dores que sentem e sigam em frente. É claro que no mundo perfeito não teríamos sofrido abusos e não teríamos medo de sofrê-los algum dia, mas a realidade não é essa, então precisamos lidar com ela com um pouco mais de otimismo, esperança e amor, ao próximo e a nós mesmas.

Que a gente siga lutando contra a cultura do estupro e o machismo estrutural que vitima cada vez mais mulheres na nossa sociedade, mas que não desistamos de buscar àqueles que queiram nos abraçar e acolher em tudo o que somos, desde as partes que escolhemos ser até as que não decidimos viver.


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Andressa Faria de Almeida é escritora feminista, tricolor carioca e sua própria melhor amiga. Em última instância é tudo aquilo que se lê!

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