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Muito além do 8 de março: o que podemos fazer para beneficiar as mulheres ao nosso redor?

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No mês de março, é aquela loucura: todo mundo fala sobre o dia internacional da mulher, de um jeito ou de outro.

De um lado, o esperado: descontos no salão de beleza, promoção de floriculturas, propagandas horríveis de eletrodomésticos. De outro, espaços importantes para abordar o tema da igualdade de gênero se abrem, em eventos e fóruns de discussão sobre as questões que nos tocam, social e culturalmente.

Esse texto não é um guia sobre o que fazer ou não fazer no dia das mulheres. Não é sobre certo e errado. Comprar ou não uma flor, aproveitar ou não uma promoção de máquina de lavar do extra. É sobre uma visão mais perene de como podemos beneficiar mulheres ao nosso redor para muito além do 8 de março.

Março ou o ano inteiro?

Se a equidade de gênero é uma corrida de longa distância — mantido o ritmo atual, será preciso um século para acabar com a distância global entre homens e mulheres em escala mundial, segundo o relatório Global Gender Gap Report 2017 — é preciso que sejamos persistentes e consistentes nas nossas estratégias, o ano todo, a vida toda.

É preciso que, conscientemente, a gente reflita sobre o assunto e entenda o que é que podemos, individualmente, fazer no nosso dia a dia, incluir nos nossos hábitos, que guarde um viés cuidadoso de gênero. Sem sair da rotina, nas coisas mais simples da nossa vida: há muito o que fazer para impulsionar mulheres e contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.

1. Ao invés de julgar outras mulheres, acolha e apoie

Em vez de operar de forma a julgar e criticar outras mulheres, podemos simplesmente escolher outro caminho. Ao ver uma mulher com dificuldades, tentar se relacionar com essas dificuldades de forma empática, acolhedora e generosa é uma grande virada de chave. Principalmente nas relações entre mulheres. Então, da próxima vez que você vir uma amiga ou conhecida passando por uma situação difícil — seja pessoal, nas relações amorosas, com a família, no processo de maternidade ou profissionalmente, se faça a seguinte pergunta: eu já estive aí? Isso poderia estar acontecendo comigo?

E então, em vez de trazer palavras duras e apontar dedos, tente oferecer apoio. Agora é com ela, mas poderia ser com você.

2. Apoie outras mulheres em jornadas mais profundas de autoconhecimento, empoderamento e protagonismo

Cada mulher tem a sua jornada, no seu tempo, por gatilhos diferentes, e tudo bem. Uma se empodera através do crescimento profissional em uma grande empresa, a outra quando consegue sair de uma relação abusiva. A outra ao aceitar sua orientação sexual, ou então expressar melhor sua sexualidade. Outra, ainda, depois de passar por uma experiência de maternidade que tenha lhe trazido descobertas e autonomia.

Não importa qual o caminho, é importante que nos apoiemos mutuamente nesses processos. 

Então, além de cuidar do seu percurso, traga sempre uma outra mulher com você. Compartilhe textos relevantes, proponha conversas mais profundas durante um café, convide para um encontro sobre um tema de protagonismo. Estenda a mão, para que ela também tenha a oportunidade de se desenvolver, se libertar de padrões, cultivar autonomia.

3. Contrate ou promova uma mulher

Qualquer pessoa em cargo de direção ou gerencial pode tomar atitudes dentro do local de trabalho que favoreça uma mudança de cultura. Incentivar a contratação de mulheres, a promoção delas pra cargos mais altos, abrir diálogo sobre as diferenças com outros colegas e chefes, instituir comissões ou grupos de mulheres para que assuntos ligados a gênero no trabalho (direitos e necessidades profissionais delas) possam ser tratados com abertura, entre várias outras coisas.

Não precisa trabalhar em uma empresa pra isso. Podemos fazer o mesmo nos nossos próprios negócios, por menores que sejam.

4. Compre de outras mulheres

Estamos o tempo todo tomando decisões de compra e contratação de serviços, em maior ou menor escala. Desde serviços de fotografia, design, programação, até serviços de manutenção elétrica e hidráulica. 

Na hora de contratar um serviço, podemos preferir uma mulher. O mesmo vale para produtos de qualquer tipo — melhor ainda se forem artesanais ou fizerem parte de uma lógica consciente de produção. Com isso estamos incentivando o espaço delas no mercado de trabalho, inclusive em profissões muitas vezes dominadas por homens e/ou impulsionando o trabalho/negócio delas.

5. Entenda como o machismo ainda está presente na sua própria vida, e das pessoas ao seu redor

É mais fácil apontar dedos do que olhar para si e para a comunidade próxima. Isso vale para homens e mulheres. O machismo é estrutural e permeia nossa cultura inteira: hábitos, linguagem, educação, política, expressão. Então, o ano todo, é importante que nos façamos constantemente perguntas acerca do nosso próprio comportamento sutil: onde é que o machismo ainda se expressa na minha vida, nos meus hábitos diários? Ainda uso piadas e expressões machistas? Ainda cultivo hábitos, atitudes e pensamentos que, de alguma forma, diminuem e subestimam as mulheres?

Junto desse exercício constante, é possível também batermos um papo reto com aqueles amigos que se comportam de maneira machista: de uma conversa cuidadosa até um puxão de orelha, é importante que, quem já tem mais clareza sobre o tema, lance a luz sobre as trevas.

Para os caras, isso vale com ainda mais força: um homem esclarecido pode transformar hábitos de outros ao redor a partir de um simples posicionamento no momento em que uma postura machista se der em uma roda de amigos ou naquele grupo do futebol no whatsapp, por exemplo.

6. Dê bons exemplos para as crianças com quem você convive

Estereótipos de gênero que dizem que menina tem que ser assim e menino assado. Divisão de cores, tarefas, brinquedos, brincadeiras e esportes. Algumas atitudes consideradas comuns ao lidar com bebês e crianças são, na verdade, péssimos exemplos, que contribuem diretamente para que uma nova geração perpetue o status quo de desigualdade ao invés de transformá-lo

Quando estivermos lidando com crianças, o cuidado e a atenção devem ser redobrados. Como podemos dar bons exemplos? Como libertar meninos e meninas de regras e padrões? Como potencializar as meninas, especialmente, incentivando-as a testarem novos esportes e se aventurarem nas ciências e matemática?

Aqui, na Comum, já publicamos vários textos sobre educação e gênero que valem seu tempo:

+ 4 coisas que precisamos saber para educar crianças menos machistas e LGBTfóbicas

+ 8 coisas que as crianças e os adultos precisam saber sobre igualdade de gênero

+ os brinquedos que você dá para uma criança contam pra ela sobre o mundo

+ 5 dicas para os educadores levarem igualdade de gênero para a escola

+ como educar crianças para além dos padrões estéticos: com Lua Fonseca

Essas são atitudes simples e muito significativas que estão para além da rosa que a gente compra ou deixa de comprar para nossa mãe, companheira ou amiga no dia 8 de março.

Porque, com rosa ou sem, o que vale é o que a gente exercita o ano inteiro.


A Comum é um espaço de florescimento humano para mulheres. Uma comunidade de desenvolvimento. Funcionamos através de uma assinatura mensal. Para saber mais e participar, dá uma espiada aqui.


Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

* A arte é da ilustradora Laura Berger.

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