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"Se morrer é natural, ser morto, assassinado não é": Uma conversa com Iara Amora, integrante da equipe do mandato coletivo de Marielle Franco

Quando uma tragédia rasga a cartilha do cotidiano e comove multidões, de que forma podemos utilizar essa potência que é o enlutamento coletivo para lutar em nome de mudanças estruturais e políticas que beneficiem a sociedade? Qual o caminho, trilhado em conjunto, para lidar de forma mais profunda com os erros e qual a melhor forma de traçar um plano de ação para corrigi-los? E, com a mesma importância: de que forma não abandonamos ou negamos os lutos individuais que envolvem tal perda?

 Foto exclusiva de Beatriz Xavier, para a jornada de Finitude da Comum

Foto exclusiva de Beatriz Xavier, para a jornada de Finitude da Comum

No dia 14 de março de 2018, Marielle Franco, vereadora do PSOL, foi morta a tiros na região central do Rio de Janeiro. Além da vereadora, o motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu. A principal linha de investigação é execução, mas hoje — data de publicação deste texto —, seis meses depois, ainda não há respostas: quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matá-los?

Conversamos com Iara Amora, que integrou a equipe da vereadora como assessora parlamentar nas questões de gênero e atendimento às mulheres e que segue, atualmente, junto aos integrantes da Equipe, na Mandata Coletiva Marielle Franco. Aqui embaixo, você lê o papo na íntegra, sem cortes. São falas sensíveis, de quem ainda carrega uma perda difícil de digerir, mas são, também, trechos cheios de potência, da continuação de um legado que, se depender de quem cercava Marielle, não será esquecido.

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Em uma longa jornada de desenvolvimento pela qual passamos aqui na Comum — na parte fechada da nossa plataforma, exclusiva para assinantes — mergulhamos em nossos mundos internos para entender e nos sensibilizarmos para a finitude, impermanência, para as perdas e os lutos. Há seis meses vivemos um luto coletivo com nome e sobrenome: Marielle Franco. Sua execução gerou uma comoção nacional. Seguimos enlutadxs. Para você, há diferença em um luto coletivo e público, como esse, de um luto restrito, num caráter mais familiar/ particular?

A primeira diferença, para mim, desse luto e de outros que já vivi diz respeito a forma como a Marielle morreu. Aliás, ao fato dela não ter morrido e sim ter sido morta. Primeiro, é difícil acreditar. Depois aceitar que um pessoa que estava com você horas antes, cheia de saúde, disposição para a vida e para um projeto de luta coletiva, estava morta. Que nada do que fizéssemos a traria de volta. Ela e o Anderson, não tiveram chances sequer de tentar sobreviver de serem atendidos. Quando recebemos a notícia horas depois de ter passado um dia de trabalho com eles, já não tinha nada mais que pudéssemos fazer.

Sobre o luto coletivo: são muitos sentimentos e por vezes contraditórios. A repercussão foi muito rápida, ainda estávamos tentando entender e aceitar o que tinha acontecido e milhares de pessoas já se mobilizavam em frente à Câmara, pelo mundo inteiro. Ao mesmo tempo que a gente não conseguia dimensionar, não tínhamos o sentimento de que as mobilizações demonstravam a potência e grandeza de Marielle e do que ela representava e de como era importante dar uma resposta — mesmo sem saber quem tinha feito, até hoje — de que era um crime inadmissível, que não aceitaríamos, que as lutas e pessoas que ela representava não iriam recuar.

A parte difícil e contraditória disso tudo, é que ao se tornar um ícone, um símbolo, ela passa a ser assunto em todos os lugares, as fotos dela estão espalhadas pela cidade que circulamos, nos jornais, nos locais de estudo, nas pichações do ônibus. O nome dela esta por toda parte, como um símbolo, uma mártir. O que é super importante, pois é uma forma de mostrar e denunciar o caráter político desse crime. De mostrar que ela continuará sendo símbolo de resistência.

Mas para nós, embora também tenha essa dimensão, tudo isso nos remete a ausência física dela. "Vê-la" citada por toda parte, nos remete a não mais tê-la para dividir o dia a dia. Assim, somos o tempo todo lembradas e lembrados de nosso luto.

Você acha que a exposição de casos como este tem papel fundamental em tornar público tais mortes — para não só trazer clareza aos enlutados, mas também para mudar os contornos da história?

Embora até hoje, seis meses depois, a gente ainda não tenha uma elucidação do crime, desde as primeiras informações foi evidenciado de que se tratava de uma execução planejada e encomendada, de um crime político para barrar a atuação de uma representante da sociedade, uma parlamentar e defensora de direitos humanos. Assim, a visibilização tem um caráter fundamental primeiro pra sociedade manifestar que não esta de acordo, que não aceita tais condutas. É uma forma de dar respostas a todas e todos que pensam na eliminação física de quem pensa diferente ou que tem posicionamentos políticos diferentes do seu. É preciso que se fale sobre isso e que a sociedade se posicione contra esse tipo de barbárie. É importante frisar que todas as mortes decorrentes da violência, da exclusão, da negligência devem ser visibilizadas e contestadas.

Todas as vidas importam e se morrer é natural, ser morto, assassinado não é.

Essa era uma das denúncias encapadas na luta de Marielle. Assim, como no caso dela apontar as causas  de tais mortes é essencial pra que a gente possa construir uma sociedade que respeite a vida de todo mundo.

No caso da morte de Marielle, tivemos, ainda, a invisibilidade do luto de sua companheira. Como foi abordado isso entre as pessoas mais próximas de Mônica e como isso está sendo abordado publicamente, como uma bandeira a ser levantada pelos direitos LGBT?

Eu não me sinto muito à vontade pra responder essa pergunta. Porque se ainda hoje tem um descompasso entre os sentimentos e posicionamentos de quem estava vivendo o luto pela perda da Marielle — pela pessoa que conhecia, convivia, amava — e a comoção social e dos movimentos sociais. Nos primeiros dias e semanas isso foi gigantesco. A gente estava mergulhada no luto, na perda de nossa companheira, amiga e também de Anderson. Além do fato de, num primeiro momento, termos de pensar em questões de segurança, inimagináveis para nós antes disso tudo. E os movimentos sociais já estavam em outro tempo, mais à frente, que era nesse caso da crítica à cobertura da mídia sobre o caso e a invisibilização da Mônica. Com muita franqueza, a gente não estava dando conta de nada disso naquele momento. Em uma das primeiras entrevistas que eu dei o repórter perguntou como estávamos analisando tudo aquilo. Eu respondi: “A gente não está analisando, só está vivendo mesmo. Quem esta de fora talvez consiga analisar melhor que nós nesse momento”.

Assim, eu não sei dizer se a Mônica teve condições de fazer essa análise num primeiro momento. Porque muito mais que a gente, ela estava mergulhada na dor, em tentar sobreviver a essa dor. Mas não me sinto a vontade de falar por ela ou fazer qualquer análise sobre. O que posso dizer, que também já é notório, é que a partir do momento que ela teve condições visibilizou a relação e o amor das duas, com um compromisso político, compromisso com a luta e a vida LGBT.


Você já vê mudanças estruturais geradas por esse enlutamento coletivo? O que está sendo feito para que a causa não seja esquecida e o caso arquivado? 

É difícil fazermos análises sobre mudanças estruturais em seis meses. A primeira e importante resposta foi a ocupação das ruas. Milhares de pessoas — não só no Rio, não só no Brasil — se sentiram de alguma forma atingidas pelo assassinato de Marielle e a resposta foi “não nos calarão, não nos intimidarão”. As mais diversas mobilizações responderam de forma imediata que a sociedade não aceitaria que tentassem calar Marielle. Assim, como forma de continuar ecoando a sua voz, a resposta foi de que as lutas e pautas defendidas por ela — em especial LGBTs, de negras/os e de feminista — ganharam ainda mais visibilidade e centralidade na luta política de muitas pessoas.

Uma outra importante resposta é a que acho que vem sendo dada agora na campanha eleitoral, com a força de candidaturas de mulheres negras e feministas pelo País.

Mais uma vez a resposta é na ofensiva, não vão nos intimidar,  não recuaremos. Se pretendia ser um crime de intimidação, esse objetivo não foi alcançado. Porque despertou ainda mais as mulheres, em especial as mulheres negras, para a urgência da ocupação dos espaços de poder, pelas nossas vidas.

Embora com o tempo a visibilidade do caso vá diminuindo, nós — a família de Marielle, as/os amigas/os, nós integrantes da Mandata Coletiva Marielle Franco — temos aproveitado todos os meios para denunciar a falta de respostas para esse crime, assim como para registrar seu legado. Estão acontecendo atos mensais em sua memória e de Anderson, com cobrança sobre as investigações; denúncias a órgãos internacionais também estão sendo realizadas; fizemos um relatório sobre o trabalho realizado durante 1 ano e 3 meses de mandato; conseguimos realizar uma mobilização para a votação e aprovação de uma grande parte de seus projetos de lei; temos buscado estar em atividades, dar entrevistas, escrever sobre sua história e pautas. Essa é nossa forma de mantê-la viva!



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Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. 

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