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Escrever como um homem? Não, obrigada.

No começo da minha carreira de escritora, há uns bons 15 anos, me sentia lisonjeadíssima quando diziam que eu “escrevia como um homem”.

Isso pra mim era sinônimo de superioridade, de que eu estava seguindo a linhagem de minhas influências, de que eu estava no caminho certo e não fazendo subliteratura para mulheres.

Qual o erro?
Vários. Vamos começar pela percepção de que literatura feita por mulheres é uma subliteratura, um sub-rótulo. Quer dizer então que tem a literatura normal, “de homem”, e literatura de mulher, uma coisa menor? Pera um pouco, isso aí está bem errado. O que existe é boa literatura e má literatura.  E, por motivos históricos diversos, as mulheres, até pouco tempo – estou pensando ao longo da história, não semana passada – só eram alfabetizadas para fins de etiqueta e para enviar convites de casamento. Alguns livros sequer eram permitidos a elas, que, não sei se vocês sabem, dependiam de algum homem (pai ou marido) e eram encorajadas (pra não dizer obrigadas) a acatar suas decisões.  Claro que tivemos algumas que conseguiram escrever mesmo assim, como Mary Shelley e Jane Austen, mas elas são exceções.

A maior parte das mulheres tinha sua vida restrita à vida familiar e privada. Se a mulher sequer tinha autonomia sobre sua vida, como é que ia escolher ser escritora? Sem nem mencionar a quantidade de mulheres que escreveu e teve sua obra assinada por um homem – e isso não aconteceu só na literatura: era terrivelmente comum no campo da ciência também.

À medida que foram conquistando mais liberdade, as mulheres começaram a escrever sobre a vida que lhes era conhecida e permitida: dentro da esfera familiar, do amor, do drama, do romance. Muitas mulheres que vieram a se tornar escritoras começaram pelos diários e usam a experiência como matéria prima. E daí veio outra percepção errada: de que essa literatura feita por mulheres é “confessional”. Não vejo ninguém chamando o “Livro do Desasossego” do Pessoa ou “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, assumidamente um diário do Bukowski, de confessional. Só mulheres pecam, só mulheres confessam, é isso? Não, não é isso. Então vamos parar com essa palhaçada. Ninguém está confessando nada; usar a vida como matéria prima não é um pecado.

Vejo várias escritoras, ainda hoje, incorrendo naquele meu mesmo erro e buscando se afastar das outras mulheres pra “mostrar que é diferente”, mostrar que não escreve nem como mulher e nem para mulheres. Oh, minha juventude. Já fiz tanto isso e agora, olhando pra trás, me acho uma babaca. O que eu buscava era uma cadeirinha na mesa dos homens, um cantinho nessa área tão dominada por eles. Eu queria ser aceita, eu queria pertencer àquele grupo, o grupo dos homens que tinham os mesmos ídolos que eu. É perfeitamente normal, afinal, o meio literário é o nosso mercado de trabalho e queremos nos inserir nele, não é mesmo? Pois então, depois de devidamente inserida, eu vi que as diferenças não se restringiam à percepção dos leitores e colegas. O meio editorial também trata as mulheres de maneira diferente. Tive uma baita briga com uma editora porque eles queriam fazer uma capa horrorosa para o meu livro “Vida de Gato“.

O que eles entenderam e queriam vender era: literatura feita por uma mulher, exclusivamente para mulheres. Chick lit.  Não se julga um livro pela capa, mas eu escolho as minhas pra evitar confusão e determinadas restrições. Porque perceberam que a história era garota-conhece-garoto-se-envolve-e-se-fode, quiseram rotular o livro assim, e isso restringiria o público. De novo: se fosse a mesmíssima história escrita por um homem, com certeza seria percebida de forma diferente e o autor seria aclamado por conseguir escrever sobre amor e fracasso com tanta destreza e sensibilidade. Que linda ilusão a minha de que não havia distinção entre os gêneros! Outro dia mesmo veio um senhor dizer que eu não conseguia superar a visão feminina e errava o tom ao retratar o homem, e que eu deveria ler um livro sobre mulheres, que havia sido escrito por um homem, para entender. Só rindo.

O que eu estou tentando dizer é: minas que escrevem, nós já vivemos em um mundo dominado pelos homens. Vocês não precisam tentar ser um deles para serem aceitas, e não precisam desdenhar as outras mulheres e propagar machismo numa busca (provavelmente inconsciente) de aprovação no meio. Eu sei que é difícil e que é todo um processo, mas se quisermos ter voz, se quisermos realmente ter voz, não é misturando a nossa ao coro masculino que a vão nos escutar.


Texto publicado originalmente no site Lugar de Mulher.


Clara Averbuck é escritora e uma das criadoras do site Lugar de Mulher. Em 2015 lançou o livro Toureando o Diabo, em parceira com a ilustradora Eva Uviedo.

Clara Averbuck

Gatos, esmaltes vermelhos, livros velhos, sapatos lindos e partículas subatômicas.

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