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Sobre culinária, autoconhecimento e masturbação

Imagine que você foi convidada para participar de uma competição de culinária, na qual o desafio principal seja preparar um prato capaz de refletir alguns pontos da sua personalidade. Antes de separar os ingredientes sua mente começará a buscar no fundo da memória os sabores, cheiros e aromas que foram marcantes na sua vida. Prontamente selecionará aqueles que lhe foram prazerosos e descartará outros que não satisfizeram o seu paladar.

Nós podemos não perceber, mas a maioria das nossas escolhas são tomadas diante daquilo que sabemos sobre nós mesmos. Eu, por exemplo, sei que odeio o gosto do açafrão, detesto bife de fígado, cheiro de erva doce e azul turquesa. Sou alérgica a camarões sete barbas, não gosto de cenas sangrentas de filmes de ação e tenho medo do escuro. Todas essas premissas que sei sobre “eu mesma” podem ser chamadas de autoconhecimento. E, apesar de parecer perigoso e arriscado, só houve um jeito de chegar a essas afirmações: eu tive que experimenta-las.

Claro que nem sempre precisamos vivenciar certas coisas para saber que não podemos lidar ou suporta-las. Já pensou que mundo louco onde pessoas teriam que se atirar de prédios para reconhecer que não são capazes de resistir à queda? Ou todos termos que experimentar heroína para entendermos que a substância é capaz de viciar? Claro que não! Isso seria insano. Há alguns conhecimentos prévios e socialmente disseminados que nós protegem de cometer certos atos, mas para outros só a experimentação poderá dizer se aquilo é bom ou não para nós.

E a sexualidade é uma dessas coisas.

Durante séculos o discurso moralizante da igreja e da sociedade tentou convencer mulheres que o prazer era impossível, embora algumas poucas que se permitiram experimentar, gritassem não. Durante séculos o sexo ficou restrito ao matrimônio e a procriação, mulheres foram subjugadas a realizarem os desejos dos maridos e “vivenciarem” uma vida sexual da qual eram praticamente ausentes, como um ato de emprestar o seu corpo ao prazer do outro.

Felizmente, após algumas fogueiras e muitos sutiãs queimados, as coisas não são mais assim e se reconhece a potencialidade e, acima de tudo, o direito da mulher sentir prazer. Porém, muitas ainda estão ali, apenas de “corpo presente” durante suas relações, desconhecendo totalmente o quão prazeroso pode ser estar em contato com o corpo de outra pessoa e ainda pior, o quanto de prazer o seu próprio corpo pode lhe proporcionar. Entender essa dinâmica, de toque, desejo e satisfação, é algo que apenas o autoconhecimento pode oferecer.

Se tocar é preciso.

Em uma roda de homens não é incomum o assunto masturbação surgir. Desde pequenos eles são livres para “descabelar o palhaço, acariciar o golfinho, bater uma punheta, descascar a banana, tocar um cinco contra um” e tantos outros apelidinhos carinhosos que a criatividade permitir dar para essa prática. Já não podemos dizer que o mesmo acontece com as meninas.

Não me recordo de um só dia da minha adolescência em que “tocar uma siririca, dedilhar, bocejar com a mão, tocar uma castanhola, afinar o violão” fosse algo presente em nossas conversas.

Ok, falar sobre masturbação pode não ser preciso, mas se tocar é! A palavra masturbação provém do “manu+ strupare” que significa “sujar com as mãos”. Podemos notar desde seu nome a conotação negativa destinada ao ato, que não tem outra função a não ser mostrar qual caminho devemos seguir para um orgasmo. (Sim, um orgasmo também é preciso e devemos busca-lo).

A única vez que conversei sobre masturbação na adolescência a conversa foi em tom de reprovação.

Lembro-me de uma amiga categoricamente afirmando que era “coisa de mulher desesperada”. E não podemos condena-la, se anos após anos mulheres de várias gerações foram repreendidas se caso apenas pensassem em tocar a própria vagina, como não entender o fato de muitas não se tocarem?

Masturbação é autoconhecimento.

Realizei uma pesquisa online no segundo semestre do ano passado, destinada a entender o comportamento feminino em relação ao sexo. De acordo com a questão “masturbação”, podemos visualizar o seguinte quadro:

De acordo com as 2.168 respostas sobre a questão, podemos constatar que 27% das mulheres raramente se masturbam e 6,5% nunca se masturbaram, o que equivale a mais de 140 mulheres. Vale ressaltar que a pesquisa foi realizada apenas com mulheres sexualmente ativas entre 16 e 60 anos. Isso equivale a dizer que há grandes chances dessas mulheres desconhecerem o próprio corpo e podem estar se privando de um orgasmo.

Observem, na mesma pesquisa foram realizadas as seguintes perguntas: “Você chega ao orgasmo com masturbação?” “Você chega ao orgasmo nas suas relações sexuais como o seu parceiro ou parceira?”. Na primeira, 50% das mulheres disseram que sempre alcançam o orgasmo. Enquanto na segunda esse número cai para 22%; o que pode nos indicar que a masturbação é uma maneira eficaz para chegar ao clímax.

Práticas para autoconhecimento são muitas. Alguns usam a Yoga e a meditação, outros viajam pela África, criam um diário ou fazem terapia. Mas eu garanto que se permitir colocar o dedo “lá” (isso “lá” mesmo, na vulva, no clitóris) é uma experiência tão importante quanto as citadas. Conhecer o próprio corpo e reconhecer a sua anatomia são passos importantes para descobrir quais dos seus pontos são fontes de prazer. Se você se toca e sabe do que gosta e como gosta já é meio caminho andado. O próximo passo é deixar bem claro para seu parceiro ou parceira aquilo que te faz feliz na cama.

A masturbação é um momento de intimidade, de encontro, de satisfação individual. É se dar ao direito de preparar um menu completo, com os ingredientes que você mais gosta e servir só para você.


Nina Franco é jornalista e acredita que falar sobre mulheres vai muito além dos manuais de tendências e maquiagens. Em 2015 escreveu o Ebook "Sexualidade Feminina, uma história em construção". Hoje se dedica a pesquisa na área de antropologia, sexualidade e gênero.

 

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