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#5 Saúde autônoma: uma nova perspectiva de protagonismo e cuidado

 Ilustração: Laura Berger

Ilustração: Laura Berger

Crescemos assim.

Alguns direitos básicos negados, obstruídos. Sem o total controle do nosso próprio corpo, em maiores e menores escalas. Em uma sociedade que, a partir do século XIX, passou a medicalizar radicalmente o corpo da mulher a partir de uma visão que privilegiava meramente a reprodução — peça fundamental do patriarcado para que as mulheres sejam vistas como "úteis":

"Muitas vezes, as teses sobre menstruação ou mesmo sobre puberdade feminina caracterizam a vida da mulher a partir das passagens que sofre em função da preparação, exercício e perda da capacidade reprodutiva. Não há nada equivalente para o homem, ou seja, a vida masculina não é problematizada pela medicina a partir da capacidade ou não de reprodução como acontece com as mulheres."
- Fabiola Rohden em Ginecologia, Gênero e Sexualidade na ciência do Século XIX.    
   

Seguimos, desde então, e sem perceber, na mesma toada.

Em grande parte das vezes, nos foi ensinado pelas nossas mães: não há ninguém mais sábio que o doutor. A eles, se deve respeito e gratidão. Eles sabem mais do nosso próprio corpo e funcionamento do que nós mesmas. Se, da pré-história, passando pela antiguidade, e até o século XIX, foram elas que lideraram o cuidado com os partos, com o desenvolvimento das técnicas cirúrgicas e da anestesia no século XX, eles passaram a assumir o comando — e as parteiras, as mulheres, foram sistematicamente excluídas dessas conquistas.

Sabemos que o modelo biomédico hegemônico — a "medicina tradicional" — é pautado na racionalidade das sociedades modernas e olha, com prioridade, para as doenças, e não para um todo integrado e sutil que vem muito antes da patologia.

Mas, para nós, aqui na Comum, construir um outro caminho de saúde não é sobre ignorar todos os avanços importantes da ciência.

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É sobre não nublar completamente a visão, não negar o passado e ignorar saberes que vieram de mulheres muito antes de nós e que estão, agora, dentro da gente.

É sobre protagonismo: quem lidera o meu corpo e o que acontece com ele sou eu. Ainda que para decidir colocá-lo nas mãos de qualquer outra pessoa que seja. A partir dessa perspectiva, somos sempre soberanas.

É sobre equilíbrio, também: ganhar conhecimento, poder interno e ferramentas para assumir a história dos nossos corpos e nossas saúdes de uma vez por todas, sem atropelar tudo o que conquistaram em séculos de história — seja saberes tradicionais, seja o que hoje se entende por medicina convencional.

 

O verdadeiro poder está em uma visão ampla, sábia e cuidadosa, de conhecer a história do passado, o contexto do presente e as possibilidades a nossa frente.

Essa foi a proposta da primeira parte da nossa jornada até aqui: mirar para trás, e em volta. Porque precisamos sim superar o modelo atual que mercantiliza doença e saúde para então abrir caminho para o novo, a nossa própria visão de saúde autônoma.

Mas não é só isso. 

A parte mais difícil e bonita vem agora: mergulhar dentro e entender as nossas bioindividualidades — o que é que faz sentido para o nosso próprio corpo, que é único e tem demandas igualmente únicas e genuínas.

Esse texto abre essa nova fase da jornada, a do olhar interno e profundo. Um olhar amoroso, gentil, compassivo, de autocuidado, mas que guarda em si a força de quem está prestes a começar uma revolução.

Vamos, nas próximas semanas, abordar diversos assuntos, sugerir reflexões pessoais, lançar mão de práticas e de ferramentas, para que, coletivamente e individualmente, possamos desenvolver a potencialidade da construção de uma outra saúde ao tomarmos nas mãos aspectos primordiais das nossas próprias vidas.

O nosso papel, aqui na Comum, é o de guiar, o de oferecer a mão, dar insumos, conectar os pontos. Mas quem trilha a caminhada é cada uma atrás da tela.

O protagonismo começa aqui.

Vamos juntas, nessa nova fase da jornada.

* * * 

Para se aprofundar:

A medicalização do corpo feminino, Elisabeth Meloni Vieira


Anna Haddad é fundadora da Comum. Trabalha com projetos que envolvem gênero e educação, principalmente no campo social, e escreve sobre o assunto por aí.


 

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