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#2 [vídeo] O que é autocuidado para a Comum?

Na Comum, tudo o que colocamos no mundo tem como pano de fundo o autocuidado — seja conosco mesmas, seja com mulheres ao nosso redor. Mais que isso: praticamos, desde o começo, no dia a dia, o autocuidado e o cuidado com outras de nós que trabalham lado a lado. Porque não faz sentido que lancemos para o mundo algo que verdadeiramente não praticamos aqui, porta a dentro.

Mas depois de um 2018 difícil, individual e sistemicamente, paramos para tocar o tema de um jeito mais palpável e direto. Foi assim que a reflexão surgiu: o que é autocuidado para nós? Como vemos o assunto aqui, aplicado as nossas práticas de desenvolvimento humano com as mulheres? Quais os contornos teóricos a partir dos quais vemos sentido desenvolver o tema?

Veio então uma necessidade de mergulhar mais fundo e desenhar um conceito próprio. Depois de algum tempo de pesquisa e conversas importantes, brotou: nem uma abordagem pop e indulgente — como muitas vezes vemos nos feeds de instagram que conectam, automaticamente, autocuidado a um banho demorado de espuma ou um chá quente — nem uma linguagem acadêmica e inacessível, ligada à saúde mental pura e simples. Mas um meio do caminho.

Um conceito real, amplo, inclusivo, que compreenda diferentes possibilidades e olhe para camadas, dimensões existentes. Um conceito profundo e mais complexo do que gostaríamos: antes tivéssemos uma receita de bolo, mas não é como funciona.

O autocuidado no qual acreditamos traz base de entendimento para que cada uma de nós construa — com o apoio de outras mulheres da rede e com o repertório de mulheres ilustres que estudaram o assunto antes de nós — os nossos próprios caminhos, genuínos e potentes, de autocuidado.

Dá o play:

1. Autocuidado por uma perspectiva de desenvolvimento humano.

“Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é auto-preservação, e isso é um ato de bem-estar político.”

- Audre Lorde

Para nós, autocuidado não é, necessariamente, sobre agrados eventuais, sobre se satisfazer pontualmente ou se dar o que se quer. Não tem a ver com auto-indulgência, como muitas vezes pode, por uma abordagem mais simplista, parecer. Muito pelo contrário.

Autocuidado é sim sobre a nossa própria felicidade, mas vai além dela.

Por uma perspectiva mais ampla de desenvolvimento humano, autocuidado, para as mulheres, tem um sentido profundo, que envolve a nossa própria existência, mas a de outras mulheres também — e a das mulheres enquanto seres políticos.

É uma estratégia para sermos felizes e inteiras, mas, ao mesmo tempo, é um meio de subvertermos lógicas de gênero predominantes, como sempre cuidar ao invés de sermos cuidadas, ou de frequentemente ultrapassar limites internos rumo à exaustão.

Autocuidado é, para nós, uma potência social, de resistência, afeto e auto-preservação.

2. As 3 dimensões do autocuidado para as mulheres.

Contemplamos o conceito de autocuidado por meio de três dimesões principais — pessoal, coletiva e política, inclusive dentro do ativismo.

Essa categorização nos permite ampliar a visão quase como num funil invertido, partindo de dentro e expandido para a comunidade, e depois para as mulheres enquanto grupo político diverso. Esse olhar, em camadas que coexistem, nos ajuda tanto a encontrar um espaço genuíno de cuidado conosco mesmas, quanto a entender o conceito como algo extremamente potente, capaz de gerar transformação social.

Pela dimensão individual, autocuidado é sobre aprendermos a nos cuidar de forma profunda, identificando necessidades reais e limites individuais. Traçar contornos em busca de um eixo interno firme, se mover no mundo a partir de direcionamentos claros e estáveis, que nos guiem em todos os recortes da vida e nos ajudem a tomar decisões benéficas — a longo e médio prazo.

Não há lista que possa dar conta de indicar que ato é ou não um ato real de autocuidado: no campo individual, principalmente, é um ato de cuidado consigo tudo o que, efetivamente, apoie nessa jornada em busca de uma vida coerente, ativa, potente e genuinamente feliz.

Por essa perspectiva, independente do ato em si, importa o que está por detrás. E é preciso coragem para olhar com honestidade. Uma taça de vinho à noite, depois do trabalho, por exemplo, pode ser uma indulgência, uma compensação por um dia estressante e difícil, ou pode vir junto de um processo de amor e acolhimento, ou ainda de quebra de paradigmas e prisões estéticas. Quem truca (com carinho, sempre) somos nós, ninguém mais. Não há juiz, vigia ou polícia, só nós mesmas, atentas e disponíveis.

Por isso, na dimensão individual, não deve haver ranking objetivo, pelo contrário: o que importa é a capacidade de reflexão e elaboração interna de cada uma, em seu próprio contexto de vida.

Mas autocuidado não para nos entendimentos pessoais, internos.

Pela dimensão coletiva, cuidar-se tem a ver com tecer, sustentar e dispor de relações de afeto e apoio entre mulheres. São redes amplas, firmes e bem costuradas, que extrapolam núcleos individuais e familiares, que nos seguram nos momentos difíceis e catapultam nosso desenvolvimento. É através dessas teias que aprofundamos a noção de autocuidado individual, e que somos capazes de, ao mesmo tempo, gerar um ciclo positivo de acolhimento e compaixão com as mulheres ao redor.

Por esse viés de rede, encontrar autocuidado não é algo solitário, mas algo que se faz e se decanta em comunidade.

Por fim, existe uma dimensão política importante quando falamos de autocuidado para as mulheres. Por essa dimensão, autocuidado é um modo de subvertermos lógicas de gênero predominantes. Ao nos cuidar, estamos cuidando de corpos que não são vistos, historicamente, como dignos de cuidado. É subversivo, para as mulheres, serem cuidadas ao invés de cuidar. É uma estratégia para conseguirmos existir em um mundo depreciativo conosco — com algumas mulheres ainda mais do que com outras.

Quando você não deveria viver, como você é, onde você está, com quem você está, então, sobreviver é uma ação radical; uma negativa à não-existência até o fim; uma negativa à não-existência até que você já não exista. Nós temos que descobrir como sobreviver em um sistema que decide que a vida de alguns exige a morte ou a remoção de outros. Às vezes: sobreviver em um sistema é sobreviver ao sistema. Podemos ser criativos, temos que ser criativos, Audre Lorde sugere, para sobreviver. Algumas de nós. Outras: nem tanto.

— Sara Ahmed

***


”Normalmente, particularmente no caso das mulheres negras, nós não temos tempo de cuidar de nós mesmas. Muitas de nós são pobres, e muitas de nós colocamos todos antes de nós. Então, se levantar e dizer que eu importo, que eu sou importante e que cuidar de mim mesma é importante é um ato radical porque normalmente espera-se que a gente tome conta dos outros, que venhamos em último lugar.”

— Evette Dionne

Por um olhar político do feminismo interseccional, autocuidado é tanto mais subversivo a medida que a mulher objeto dele é, numa rede entremeada de diferenças sociais, menos vista, menos considerada ou cuidada pelo sistema que está posto. Não podemos perder isso de vista, sob pena de navegar numa ideia de autocuidado elitista e excludente.

Essas 3 dimensões compõe um conceito robusto e profundo, que para de pé, e que, ao mesmo tempo, dá espaço para criarmos o nosso próprio jeito de nos cuidar, dentro das nossas histórias de vida e práticas pessoais.

3. O conceito, na prática: 4 histórias.

Aqui, colocamos as cartas do autocuidado na mesa: é a partir desse conceito que vamos conduzir esse especial e é a partir dele que queremos lançar o convite para você.

Pelas próximas semanas, navegaremos em histórias de 4 mulheres diferentes, que atravessaram dilemas próprios e conseguiram encontrar autocuidado real em cada um de seus contextos, mirando um bem-estar amplo, duradouro e genuíno da mente, do corpo, no trabalho e nas relações.

A partir dessas jornadas, de outras mulheres, e usando a Comum como espaço de apoio e reflexão, embarcamos agora na busca pelo nosso próprio modo de nos dedicar cuidado verdadeiro.

Vamos juntas?


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. Anna Haddad é advogada e co-fundadora da Comum.


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