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#1 [texto] Estamos esgotadas. E agora?

Olhe para os lados. Quantas mulheres ao seu redor adoeceram nos últimos meses? Quantas estão exaustas fisicamente? E cansadas emocionalmente?

Há de se combinar que 2018 não foi um ano fácil. Especialmente para nós, mulheres. Em março, recém-saídas dos festejos alegres de carnaval, fomos impactadas pela notícia da execução de Marielle Franco. Foram quatro tiros na cabeça. O assassinato da vereadora, eleita com 46 mil votos no Rio de Janeiro e a quinta mais votada em 2016, segue até hoje sem respostas. Enquanto escrevo este texto (12 de novembro), somam-se 243 dias sem que saibamos quem matou Marielle, quem mandou matá-la. O crime causou comoção nacional, levando centenas de milhares de pessoas às ruas para que as causas de Marielle não fossem esquecidas e silenciadas. Viramos milhares de Marielles. A morosidade das investigações, no entanto, fez com que amargássemos mais uma vez a impunidade tão presente na história da justiça brasileira.

Em julho, acompanhamos o fim da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres e durante todo o ano observamos atônitas as tentativas de retrocessos no Congresso com relação a pautas de gênero. Globalmente, acompanhamos o avanço conservador — desde relatos misóginos de Donald Trump, presidente da maior potência econômica do mundo, até a indicação de Brett Kavanaugh para a Suprema Corte norte-americana, mesmo após denúncias gravíssimas de abusar sexualmente de ao menos três mulheres.

Já exaustas, no segundo semestre, mergulhamos num processo eleitoral truncado, marcado por escândalos, manipulações e pelo ressurgimento do fascismo como movimento e do ódio como mecanismo central de atuação política. Fruto da legitimação da violência, validada pelo discurso de Jair Bolsonaro, vimos uma crescente a galope de casos de mortes, lesões e ameaças pelo país. Sites como Vítimas da Intolerância e Violência Política no Brasil foram criados para contabilizar os inúmeros casos que iam aparecendo.

Em contrapartida, levamos às ruas o movimento #EleNão. Fomos a linha de frente da oposição a tudo que o candidato fascista representava. Não exagero em dizer que nós, mulheres, carregamos a resistência nas costas. Se dependesse, aliás, das jovens entre 16 e 24 anos, Fernando Haddad teria sido escolhido com 59% dos votos. Não é questão de partidarismos, mas de identificarmos, em Bolsonaro, um inimigo comum as nossas liberdades e direitos — nossas e das outras minorias que o então presidente eleito tenta desqualificar e invisibilizar. E vale, aqui, o lembrete de Simone de Beauvoir: basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.

E se no contexto público a situação estava tensa, no contexto privado também não fomos poupadas: términos, doenças, mudanças, perdas. A impermanência seguiu seu curso e não deu trégua para ninguém.

A verdade é que estamos esgotadas — e o ano ainda nem acabou.

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Desse lugar,  meio suspensas, como fazemos para colocar, de novos, os pés no chão?

Na Comum, tudo que criamos para o mundo tem como pano de fundo o autocuidado. A palavra, que certamente você já ouviu por aí, ganhou roupagem pop depois que marcas viram nela uma grande brecha de consumo. Basta um Google rápido para entender: a indústria do bem-estar se apropriou do conceito para fazê-lo, exclusivamente, sinônimo de indulgência. Máscaras faciais, banhos de espuma, velas aromatizadas: prazeres momentâneos e que oferecem, na maioria das vezes, uma pausa — ou fuga — na rotina.

O problema, na verdade, é menos as sugestões de autocuidado e mais a simplificação do termo. Do jeito que está posto, o conceito está cada vez mais afunilado e raso. Na outra ponta, no meio acadêmico, temos análises mais profundas, mas também mais duras: estudos e pesquisas tratam do assunto pelo viés da saúde mental — numa linguagem difícil e, muitas vezes, inacessível.

Mas qual, afinal, é o conceito que abraçamos na Comum?

Autocuidado não é, necessariamente, sobre pequenos agrados eventuais, sobre se satisfazer pontualmente ou se dar o que se quer. Não é auto-indulgência. Também, não é só sobre a própria felicidade.

Por uma perspectiva mais ampla e profunda de desenvolvimento humano, numa dimensão individual, autocuidado é sobre aprendermos a nos cuidar de verdade, identificando nossas necessidades reais e limites individuais enquanto mulheres. Por uma dimensão coletiva, autocuidado reflete diretamente no modo como nos relacionamos com outras mulheres. Cuidar-se tem a ver não só com se prover do que se realmente precisa, ou usar de estruturas disponíveis para isso, como dispor de relações de afeto e apoio. Por fim, autocuidado também tem uma dimensão política: é uma estratégia para encontrarmos caminhos de subverter lógicas de gênero predominantes. Ao nos cuidar, estamos cuidando de corpos que não são vistos, historicamente, como dignos de cuidado. É subversivo, para as mulheres, serem cuidadas ao invés de cuidar.
— Anna Haddad, fundadora da Comum

Por que, agora, um especial com a temática de autocuidado como protagonista?

Estamos vivenciando um momento tenso e intenso. Há uma ruptura clara na forma social e política como as coisas estão estruturadas. Quem está na linha de frente sente na pele a exaustão, mas quem não está ativa também percebe e sofre com o que está sendo posto. Além disso, acreditamos que o cuidado conosco mesmas deve ser algo rotineiro — e não uma fuga de uma rotina que não gostamos. Por que afinal, se precisamos de escapes da nossa própria vida, do que estamos, então, fugindo?

Este especial é para todo mundo porque o autocuidado não faz seleção, não exclui ninguém, não é uma ferramenta exclusiva para gerenciamento de crise. Pelo contrário, direcionar o cuidado para nós mesmas é uma forma potente de evitar que as crises cheguem — ou, no mínimo, para evitar que sejamos arrastadas por elas.

A nossa jornada

Teremos cinco semanas de percurso online. Nelas, iremos passar por quatro dimensões básicas de autocuidado: corpo, mente, trabalho, relações. Para cada um dos enfoques, traremos uma história potente e inspiradora. Por ora, já apresento os nomes para que você se familiarize: Priscila Barbosa, Giovana Camargo, Aline Ramos e eu, também como personagem de uma dessas narrativas afiadas e delicadas. Além das histórias, também teremos textos e materiais de apoio para que investigue a fundo o que é autocuidado para você, neste momento, em cada uma das dimensões apresentadas. E como processos de transformação não são feitos somente de solitude, mas também de trocas genuínas, teremos encontros online e práticas semanais.

A ideia é que você percorra este especial no seu tempo, da forma que fizer sentido para você. Se puder acompanhar semana a semana com a gente e participar dos encontros, bom para sentir ao vivo o aquecer da comunidade. Mas, se não puder, tudo bem. Os encontros são gravados e o fórum estará sempre lá para receber nossas dúvidas, angústias, experiências, histórias e descobertas.

Começamos hoje. Fica aqui o nosso convite para seguirmos juntas. Ninguém solta a mão de ninguém.


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. 


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