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#5 [vídeo] Mente sã, vida que pulsa

Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta ao trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)
— Sylvia Plath

Num sonho distante, quase um arroubo juvenil, sempre imaginei reunir, num só espaço, as mulheres que fizeram parte da minha vida através da leitura transformadora. Sylvia e a poetisa Ana Cristina Cesar estariam lá. Fariam parte desse meu petit comité de escritoras preferidas, se ainda vivas. Seus textos, viscerais, tiveram em mim — e ainda tem por aí em muita gente — a capacidade de tocar profundamente em nossa humanidade comum. Nos vemos refletidas ali, entre prosas, poesias e verdades nuas e cruas.

Em comum entre as duas, um fim interrompido, longe da naturalidade da morte. Sylvia Plath se suicidou em Londres, em 1963, aos 31 anos; Ana Cristina, no Rio, também aos 31, mas no ano de 1983. Sempre me perguntei: por que mulheres com tanta força, potência criativa e tanto talento buscariam para si esses fins?

Em 2016 a resposta me veio na pele: diagnosticada com uma depressão profunda, não foram poucas às vezes em que senti vontade de dar cabo daquilo, de fazer parar aquela dor, de preencher aquele buraco negro que fez morada bem no meio do meu peito.

Dali para a frente, foi uma guerra. Eu e minha mente precisávamos dar um jeito de, juntas, sair daquele lugar. Não foram dias fáceis, mas foram dias importantes. Foi um despertar e um renascimento. Fiz da depressão um trampolim para a vida que eu sempre quis viver, mas pela qual, tantas vezes, passei adormecida.

Não foi de um dia para o outro. Como presa toda batalha, precisei estar munida. O primeiro passo para começar a trilhar um caminho de autocuidado foi procurar ajuda médica, um psiquiatra que compartilhasse das minhas visões de mundo, mas que estivesse atento para o meu caso — e que me dissesse o que precisava ser feito, clinicamente, sem medo. Foi o que aconteceu: depois de boas indicações, encontrei Pedro, um profissional competente não só pelos cursos acumulados, mas também por não ter engessado sua parte humana. Nas consultas, de fato, ele estava ali, com uma escuta genuína e uma presença de qualidade. Decidimos, juntos, que o melhor caminho seria uma intervenção química. Apesar de sermos ambos contra a medicalização da vida, naquele momento era crucial que eu fizesse uso de remédios. Comecei, então, o tratamento. Não viciei, tive alguns efeitos colaterais que logo foram ajustados e, no período certo e com acompanhamento fiz o desmame para abandonar a medicação. Fui privilegiada por, à época, ter um bom plano de saúde, mas isso não é impeditivo para quem procura ajuda: o SUS tem uma Coordenação Geral de Saúde Mental e inúmeras universidades e coletivos oferecem consultas gratuitas e de baixo custo com psiquiatras e psicólogos — aqui, a exemplo, uma lista do RJ e outra de SP.

Nem sempre o autocuidado da mente vem travestido com uma roupagem zen, bonita e, tantas vezes, inalcançável. No meu caso, não teve tapetinho de yoga, meditação em meio à natureza ou detox ayurveda. Foram três semanas intensas em que tive de contar com uma rede de apoio que esteve ao meu lado integralmente — mãe, irmão, amigas e amigos — se revezando numa vigília que só de lembrar ainda me emociona. Eles eram meus post-its humanos de que, sim, estava doendo, mas que ia passar. De que aquilo era uma bolha de sofrimento, mas que eu era perfeitamente capaz de estourá-la. Quando consegui, aí sim veio o tapetinho de yoga, a meditação em meio à natureza — e quem sabe um dia o detox ayurveda.

Mais no eixo, mais firme, embora ainda flexível, comecei a me permitir outros cuidados com, muito mais voltados para a manutenção de um equilíbrio do que para um gerenciamento de crise. Por isso, digo: autocuidado tem de ser rotina, tem de ser diário — sob a penalidade de que, se não olharmos para isso com frequência, uma pane no sistema num dia qualquer será quase inevitável.

Hoje, por aqui, sigo com as sessões de psicanálise e trouxe para a rotina alguns cuidados diários dos quais não abro mão. Um deles é a pausa para que eu possa fazer exercícios de respiração e me centrar, em meio às demandas urgentes e ao fluxo intenso da semana. Se não paro, piro: ao fim do dia estou exausta, com pensamentos acumulados, com a sensação de não ter dado conta do que deveria. Nessas horas, também lanço mão de uma ferramenta poderosa que foi minha boia de braço durante a depressão: um olhar compassivo para mim mesma. Mesmo quando tudo desmorona, quando não dá pé, quando o mundo parece cair sobre a minha cabeça, tento pegar firme na minha mão. Estou junta com esse corpo que me permite viver e me locomover. Sou parceira dessa mente sagaz, cheia de potencialidades e que, vez que outra, implora por descanso. Me acolho, escuto e ofereço o que há de demanda mais essencial. É um compromisso comigo mesma que vem desde aqueles dias em que não tinha forças para levantar da cama.

Mas e para você, o que é autocuidado da mente?

Somos muitas e tão diferentes. Algumas têm crises de ansiedade, outras depressão, algumas não têm nenhuma doença psíquica, mas também sentem o peso de uma mente cansada no dia a dia. Também tem quem esteja bem. Tem aquelas que só percebem quando a bomba estoura e aquelas que conseguem notar nas coisas mais sutis que algo não está legal. Mas a verdade é que, apesar das diferenças, cuidar da mente é para todas nós — nem que seja por prevenção.

Isso porque há também nesse cuidado uma dimensão política importante. Segundo a ONU, para cada homem depressivo, há duas mulheres com a doença. Somos, hoje, o país com mais casos de depressão e transtorno de ansiedade da América Latina — as mulheres são a maioria diagnosticada.

Para além do que nos vendem como autocuidado para a mente — relaxar numa banheira de espuma, meditar nos Alpes Andinos, fazer uma excursão esotérica para a Amazônia —, é essencial que a gente investigue mais a fundo o que de fato precisamos acolher. Não há receita de bolo pronta. Às vezes, essa investigação precisa ser feita com ajuda profissional — com psiquiatras ou psicólogas e psicólogos —, às vezes damos conta de fazer sozinha. A partir desse diagnóstico, fica mais fácil saber o que precisamos de fato para manter um equilíbrio interno saudável. Da meditação ao remédio, da atividade física a viagens de autoconhecimento: tudo é válido, desde que saibamos verdadeiramente por que estamos fazendo.


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. 


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