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Nobel, ONU e a falta de representatividade

Serei sincera: eu não aguento mais bater na tecla de que é preciso mais representatividade para as mulheres, de que há um descompasso entre quantas somos no mundo e quantas somos nos espaços de poder.

Eu não aguento mais, só que o mundo não para de jogar as desigualdades na minha frente. Por isso, leitoras queridas, vou falar sobre isso mais uma vez.

A indignação da vez vem de duas instituições importantes demais: a ONU e o prêmio Nobel. A ONU por não ter escolhido uma mulher para o cargo de Secretário-Geral e o Nobel por passar mais um ano sem premiar mulheres. Vamos por partes:

O atual Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, está deixando o posto. Ele encabeçou uma campanha importante para que sua sucessora fosse uma mulher. Desde sua fundação, em 1945, a ONU sempre foi comandada por homens, apesar de suas ações para promover a igualdade de gênero. Por isso, tem aumentado a pressão para que o Secretário-Geral seja na verdade uma Secretária. Mulheres com competência para o cargo não faltam. Mas mesmo com o chefe máximo da Instituição aderindo à campanha, as vozes das mulheres não foram ouvidas. As sete mulheres candidatas foram preteridas pelo ex-ministro português Antônio Guterres.

Não é a competência de Guterres que está em jogo aqui, e sim como mesmo a organização fundada com o intuito de promover a paz e o bom convívio entre os povos não consegue reproduzir internamente o discurso que prega mundo afora.

A ONU tem diversas iniciativas para empoderar mulheres na política e ainda assim tapou os olhos e ouvidos para uma campanha global que exige uma mudança interna.

Até o FMI, que é um dos maiores símbolos do capitalismo e do mercado financeiro, uma espécie de anti-ONU, foi comandado por uma mulher antes das Nações Unidas.

No caso do Nobel, o escândalo na verdade nada mais é do que uma repetição de atitude: não premiar mulheres. Em 2016, os vencedores de todas as categorias foram homens, e não é a primeira vez que isso acontece. Pelo contrário.

Em mais de 800 prêmios concedidos, menos de 50 foram dedicados às mulheres.

O Nobel é o prêmio mais renomado do mundo em suas áreas, e por isso excluir mulheres tem um peso negativo gigantesco. É verdade que nós temos mais barreiras institucionais a superar e, por isso, somos minoria entre os cientistas de elite, mas é verdade também que continuar não reconhecendo o trabalho das pesquisadoras de ponta só piora e perpetua essa desigualdade. Se não podemos mudar a exclusão do passado, temos a obrigação de mudar a representatividade do futuro.

Não ser contemplada por instituições de peso como o Nobel e a ONU nada mais faz do que transmitir uma velha mensagem: as mulheres não pertencem à elite. Podemos ocupar espaços, mas nunca comandá-los. E não adianta rebater as acusações: enquanto continuamos subrepresentadas, essas organizações não estão sendo parte da solução, mas sim do problema.


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Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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