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Sempre cabe mais retrocesso na política

2016 está difícil. Teve golpe de Estado que tirou uma mulher do Poder e colocou um homem conservador, teve extinção de Secretaria de Políticas para as Mulheres, teve exclusão de mulheres nos cargos do primeiro escalão do governo. 

Teve Ministro da Saúde falando de trazer Igreja para o debate sobre aborto e depois falando que o homem vai menos ao médico porque trabalha mais que a mulher - o que contradiz toda e qualquer pesquisa sobre o assunto. 

2016 também teve eleições municipais num clima de descrédito com a democracia misturado com muita garra pra não perder as conquistas no âmbito municipal. Sofremos um baque dos duros, mas ainda reunimos forças para brigar nas urnas. Afinal, nós precisamos dessa ferramenta mais do que nunca. 

Só que os resultados não foram muito animadores. A política continua sendo masculina (e branca, rica hétero e cis). Para começo de conversa, 68% dos municípios não tinham candidatas mulheres concorrendo à prefeitura. E das 26 capitais, só uma (Boa Vista) elegeu uma mulher no primeiro turno e só em outras duas (Campo Grande e Florianópolis) teremos representantes no segundo. Seremos, no máximo 3 de 26.

Nas Câmaras Municipais, a situação é a mesma. Embora São Paulo tenha mais que dobrado o seu número de vereadoras, ainda somos apenas 20% das cadeiras (11 de 55). No Rio de Janeiro, só 7 das 51 representantes são mulheres (16,7% do total). Os números já são péssimos, mas ficam ainda piores quando lembramos que nem todas as mulheres são progressistas e vão lutar por avanços sociais.

É muito importante simbolicamente ter mulheres nos espaços de poder, mas nem sempre o símbolo se converte em mudanças práticas. 

E mudanças, na verdade, teremos poucas, já que a imensa maioria dos projetos de esquerda foi derrotada. Em 2016, vimos a ascensão do PSDB e a derrota de Erundina, Haddad, Luciana Genro e de quase todos os candidatos progressistas. Vimos sair do armário o conservadorismo, o preconceito, a misoginia. Vimos Flávio Bolsonaro e Pedro Paulo terem, juntos, cerca de 30% dos votos do Rio de Janeiro. 

O mais triste é que tudo isso faz sentido. 2016 está difícil, mas os retrocessos não começaram aqui. Em 2013 os protestos populares viraram protestos 'contra tudo que está aí', o que na prática significou um avanço do antipetismo cego e cedeu espaço para o conservadorismo avançar de maneira assustadora. E em 2014 elegemos o Congresso mais conservador desde a ditadura. Desde lá, passamos dois anos lutando para manter um governo legítimo e não conseguimos.

2016 está difícil, 2015 também foi. 2014, 2013...O horizonte está escuro, mas não ficou assim de repente. O avanço conservador foi se dando cuidadosamente para a gente só perceber quando não tiver mais volta. Estamos sendo massacradas paulatinamente até não restar esperança nenhuma. O golpe de misericórdia deve vir com as candidaturas de Bolsonaro e Alckmin em 2018.

Está difícil, minhas amigas, não dá para negar. Está quase impossível não perder as esperanças. Mas não podemos nos dar a esse luxo, até porque se querem tanto nos silenciar é porque sabem o estrago que somos capazes de fazer. Infelizmente para eles, a esperança nunca morre. E a luz sempre aparece. Que eles estejam prontos quando chegar o dia. 


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Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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