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Relações livres independem de formatos

Estamos em um tempo em que temos uma gama enorme de ferramentas que colaboram para que conheçamos pessoas e, quem sabe, experienciemos relações afetivas. A conectividade aumenta cada vez mais ao passo que a conexão entre nós não parece acompanhar na mesma medida na maioria dos casos.

Sou de uma época em que para haver um encontro afetivo era só estar no lugar físico ou ter aquela forcinha dos amigos para apresentar alguém interessante. Os matches eram ao vivo e para seguir a relação seja de “ficar” ou namorar precisava de um pouco mais de persistência e nada contribuía para aliviar a ansiedade: os tempos e espaços eram, por si só, outros, pois as possibilidades de comunicação à distância eram carta, bilhetinho, bip (sim eu tive!) e telefone fixo. Se você seguia estava realmente interessado, porque demandava uma certa energia só para manter o contato.

Hoje manter contato é a coisa mais fácil do mundo pra quem tem acesso às tecnologias. Encontrar pessoas idem. O difícil é saber como seguir, se seguir, se manter presente e lidar com a ansiedade sobre se relacionar.

Sinto que cultivamos muito mais conceitos mentais do que que entramos em contato com sensações e sentimentos. Um olhar contemplativo em relação ao nosso mundo interno e ao que nos rodeia.

O que nos falta é nos expormos à vida que está na nossa frente e assumir essa vulnerabilidade inerente aos deslocamentos de estar vivo. Fugir disso é apenas mais do mesmo com outra máscara que são as formas, jogos e estratégias que acabamos por nos engajar para nos relacionarmos.

Tenho observado algumas angústias e dilemas ao meu redor: pessoas querendo ser livres e associando aprisionamento a coisas que são apenas meios e não o fim, como abstrações em torno do que pode ou não pode acontecer se eu me comportar assim ou assado ou se seguir em determinado formato.

Pessoas querendo leveza e associando peso ao envolvimento e relações mais constantes e duradouras, quando a maior parte do tempo o peso está justamente na nossa forma individual, utilitária e controladora de estar junto.

Pessoas querendo amar e, muito mais, serem amadas - mas na real vamos pras relações para atender nossas expectativas.

Pessoas se dizendo abertas e livres, mas cada vez mais controladoras, seja de como seguir as relações ou como seguir sem se “machucar” (muitas vezes oculta sob aquela falácia clássica de não querer “machucar” o outro) ou se envolver de fato.

De que temos tanto medo?

Nosso medo de envolvimento/aprisionamento é mais forte quando nossa motivação para estar numa relação é de "tirar proveito", é ir em direção ao outro por carência. Então queremos que "dê certo" e dar certo demanda um controle pra atingir a “meta”.

Pra uns dar certo/controlar/meta é querer a qualquer custo ficar junto. Pra outros é se manter num descompromisso protetor numa falsa sensação de liberdade.

E se a gente fosse pras relações com a motivação de oferecer? E se a gente já partisse do ponto de que vai dar errado? Conseguisse lidar com o que se apresenta e é vivo e não tentar plastificar com o nosso controle?

Somos livres de cara para nos comprometermos e aprofundarmos sem nos aprisionarmos. Somos livres para não nos comprometermos se assim não quisermos sem que precisemos controlar e nos afastar do afeto e conexão com as pessoas.

A verdadeira prisão é nossa falta de entrega e abertura pra vida como se apresenta. A verdadeira prisão são nossas falsas ideias: sobre nós mesmos, as relações (seja casamento, namoro, caso, poliamor etc), sobre solteirice e liberdade.

Estou livre de fato se consigo caminhar aberto ao outro e aos contextos atenta aos meus limites sem perder de vista as minhas necessidades e as dos outros. Liberdade ao contrário do que propagamos em teoria e meia prática (digo meia porque de fato é bem mais complexo ser livre de fato) é muito mais cada um ir se liberando daquilo que faria por hábito e não faz sentido, e ir caminhando pra valer quando os fatos da vida acontecem em direção ao que faz sentido. Sempre levando em consideração algo maior que si próprio e ao mesmo tempo sem se perder ou sem barganhar de si para algum tipo de resultado.

E o amor que a gente quer tanto viver? Alguns até querendo viver com mais de uma pessoa? Sinto impossível amar sem uma base de conexão com a outra(s) pessoa(s). Sem real interesse pelo(s) outro(s). Sem cultivarmos intimidade, parceria. E isso é possível em casos, uma noite, namoro, casamento.

Então é melhor que sejamos honestos conosco em primeiro lugar e com as pessoas com quem nos relacionarmos. Se somos livres é muito tranquilo pois não há nada a sustentar: nem um jogo, uma identidade, uma pose.

Pode ser que não queiramos amor, apenas doses de afeto. Pode ser que não queiramos relações, apenas diversão e passar o tempo. Não há problema nenhum em ficar na superfície ou não querer vínculo de nenhuma forma. O problema é a gente seguir querendo tudo com conceitos que em prática não se sustentam apenas para satisfazer nossos pequenos desejos como se eles fossem soberanos, a maior das imaturidades.

Se somos honestos com as pessoas, temos todos escolhas pelo caminho.

Difícil nesses tempos meio plásticos (que são chamados de líquidos) é a gente conseguir realmente estar no sentido muito mais do que embarcamos em formatos. Não tem jeito, galera. Se relacionar com um pouco mais de leveza de verdade requer lucidez e muita maturidade. E isso a gente não consegue sem cultivar um percurso pessoal profundo. Seja para sabermos de fato que queremos uma relação significativa com cada ser que cruze nosso caminho ou não.


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Alessandra Marcuzzi é florista de coração, DJ de vez em quando,  aprendiz praticante de Budismo e fascinada por abrir espaços de escuta e conversas significativas inspirada principalmente por seu percurso em Comunicação Não-Violenta. Adora compartilhar escritos que surgem de experiência direta na vida cotidiana. Atualmente cursa Mediação de Conflitos pela Palas Athena.

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