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Mulheres que fazem pornô: elas são boas para o (nosso) moral

Ilustração: Flavia Totoli

Ilustração: Flavia Totoli

Quem lhes fala aqui é alguém que já foi lançada em um turbilhão problematizador da pornografia. De forma um tanto inocente, confesso, me propus a trazer a pornografia para o centro de uma discussão sobre corpo e prazer feminino no começo deste ano. Se pra muita gente o pornô é, desde muito cedo, a única referência visual de como fazer sexo, termos mais roteiro e direção assinados por mulheres poderia influenciar relações sexuais de forma a colocar o prazer feminino no centro do jogo? Ao procurar uma resposta, me deparei com um lado muito cruel da indústria pornográfica, aquele que reproduz padrões misóginos e violentos. O corpo feminino pagando uma conta muito alta para dar prazer aos homens.

Entrei em crise. Mas, por outro lado, não conseguia ignorar o que motivou minha indagação inicial. O pornô me ajudou a descobrir muito do que me excita. E ajudou mais gente. Foi um DVD pornô de banca de jornal o aliado fundamental para que uma amiga de longa data começasse a se masturbar quando já tinha mais de vinte anos.

É verdade que minha curadoria masturbatória tem ficado cada vez mais exigente. Assim como meus hábitos de consumo em geral. Hoje me custa muito tempo achar um pornô bom para gozar. Marretadas penianas, francesinhas postiças enormes, vaginas excessivamente peladas e corpos escandinavamente magros me brocham. O que eu gosto é de me reconhecer na tela, em corpos mais cheinhos e reais: com pelos, celulites, estrias e muito tesão genuíno.

Tenho procurado formas alternativas de consumir pornô. E é notável que quando mulheres trabalham atrás das câmeras, o resultado final nos favorece muito mais. Alguns elementos em filmes produzidos por mulheres ainda podem ser questionados, afinal todas temos resquícios de valores patriarcais circulando em nossas veias, mas sem dúvida há muita evolução no conteúdo disponibilizado.

Aqui vão alguns exemplos de diretoras que colocam nosso prazer em primeiro lugar e que, convenhamos, entendem muito mais dessa potência orgástica maravilhosa que guardamos em nossos corpos. A maioria dos sites é gringa, com acesso ao conteúdo em dólar. Um incentivo a mais para o envolvimento de mais manas em produções nacionais.

May Medeiros, da X Plastic

Começo por um produto nacional. A X Plastic é uma produtora brasileira de Alt Porn, que favorece uma estética alternativa de corpos femininos. Já conheci algumas atrizes da X Plastic e o que mais chamou minha atenção foi a relação mais livre que elas mantêm com seu corpo. A May começou trabalhando lá como produtora, e hoje tem dirigido tem dirigido algumas coisas bem interessantes. Um dos primeiros trabalhos dela - White as Milk - mostra uma transa lésbica com elementos BDSM e burlescos que compõem uma cena deliciosa. O filme é o primeiro brasileiro a elencar o catálogo da Lust Films, da Erika Lust.

Erika Lust

Sim, todo mundo já falou dela. Mas foi a primeira diretora que eu conheci e ela foi mesmo uma das primeiras a valorizar uma estética mais moderna e de muito bom gosto para acolher performances que priorizam o prazer feminino. A série X Confessions, de curtas que encenam fantasias de mulheres reais, é a minha preferida. Em My Roomies Toy, do Volume 5 da série, a fantasia entre duas colegas de quarto já me serviu muito bem por várias noites. Em Try my Boyfriend, uma menina decide compartilhar seu namorado - e suas excepcionais habilidades orais - com as amigas. Sororidade: a gente vê por aqui.

Vex e Stoya, em A Four Chambered Heart

Vex e Stoya são duas das atrizes pornô mais famosas da atualidade. As duas integram o coletivo A Four Chambered Heart, onde dirigem produções deslumbrantes, de extrema sensibilidade artística.  Em Red Shift, a Vex e o Mickey, um dos meus atores FA-VO-RI-TOS, trepam deliciosamente em um táxi. A fotografia urbana-onírica é linda e causa aquela deliciosa sensação dúbia: sonhei acordada ou gozei dormindo?  

Lucie Blush

Eu adoro a atmosfera intercâmbio na Europa dos filmes dessa francesa berlinense. O que eu mais gosto do seu portal, além da trilha sonora finíssima, é a maior oferta de combinações: homens, mulheres, tudo junto misturado no melhor sentido da manjada expressão.

Petra Joy

"Sexo bem feito não dói. Vou te comer como num filme da Petra Joy". Para a banda gaúcha formada pelo casal Bardo e Fada, Petra Joy já virou adjetivo. Os filmes dessa britânica são tesão garantido. Em Sexual Sushi, filmado com um casal de amigas da Petra, as expressões de prazer são tão genuínas e o sexo tão fluído, que parece filmado por câmeras escondidas.

Jennifer Lyon Bell

Cinéfilas, este é o pornô para vocês. Essa mina é formada em Harvard e tem uma exímia técnica cinematográfica: luzes, cores, tudo muito bem empregado para nos fazer gozar. Private bankers e advogados glamurosos que me desculpem, mas esse sim é um trabalho cuja a hora deveria custar uma facada. Assistir uma das atrizes gozar em Silver Shoes é hipnotizante. Ela é dona da Blue Artichoke Films, sediadas em Amsterdã, e seus filmes podem ser encontrados na plataforma Pink Label TV, que tem outras produções femininas que vão te garantir muita serenidade para encarar dias difíceis. Só gozar salva.

Ms. Naughty (Louise Lush)

A Ms. Naughty é bem hétero normativa, mas suas produções trazem coisas aqui bem inusitadas e excitantes que só havia encontrado em filmes gay ou BDSM. As mulheres aqui tem uma postura bem proativa, sem assumirem o papel de dominatrix, e o corpo do homem fica muito mais exposto que em cenas hétero convencionais. Você vai vê-las fazendo estimulação e penetração anal, com os caras bem à vontade e seguros de sua sexualidade. Pra lá de tesudos.

Pandora Blake

Em contextos de consenso e igualdade de gênero, umas boas palmadas na bunda dá muito tesão. Palmadas, pauladas, amarração, entre várias outras práticas de BDSM são abordadas nos filmes da Pandora. Em seu site Dreams of Spanking, homens e mulheres, gays e lésbicas exercem tanto papéis de dominação, quanto de submissão. Vale a pena expandir o olhar para o universo do fetiche.

OMGYES

Oh my god, YES! Para muitas mulheres que ainda não se sentem à vontade com seu corpo e têm muita dificuldade para sentir prazer, esse site é uma benção. Na verdade, o site se propõe a ser a primeira pesquisa científica de larga escala para desmistificar aspectos do prazer feminino e criar uma linguagem não falocêntrica para técnicas de estimulação sexual.  Ritmo, consistência, movimentos circulares, insinuação. Mulheres reais nos contam - e nos mostram - como aumentar o prazer.

Pena: o site ainda só está disponível em Inglês e a assinatura custa uma pequena fortuna.


Sexualidade: a trilha do mês

A trilha da Comum desse mês é sobre sexualidade feminina. Vamos explorar o tema juntas, através de textos, vídeos, conversas no fórum e práticas. O percurso começou em setembro e está disponível integralmente só pras assinantes. Se quiser saber como se tornar uma pra ter acesso às trilhas, ao fórum e os encontros fechados, clica aqui e vem com a gente. 

O encontro é aberto a todas as mulheres. Saiba mais aqui.


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Aline Fantinatti: formada em relações internacionais pela PUC-SP, mas o que eu curto mais do que joguinhos de WAR para gente grande é o que, no fim das contas, iguala gregos e troianos: sexo. Nada mais humano que o desejo sexual. Entreguei-me a essa curiosidade há um ano e, desde então, me enfiei em algumas confusões deliciosas para estudar e falar de sexo, pornografia e, sobre tudo, formas de libertar o corpo e o prazer feminino. Eventos, textos, plataforma de Facebook. Cada dia uma nova forma de discutir e refletir sobre a sacanagem nossa de cada dia. 

Flavia Totoli é nascida e criada em sampa. Sempre com um caderno de rascunhos na bolsa. Apaixonada por imagens e contar histórias (de preferência tudo junto).

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