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Como aprendi a ter multiorgasmos de até 50 minutos com o tantra

Imagem: Museum of Sex

A cena: uma casa toda de madeira e vidro construída numa pedra — num lugar paradisíaco entre as montanhas — música animada, lareira, boa comida e 30 casais. Eu estava com a mão suada, só pensando na hora em que teria de tirar a roupa: “óóóó, todos verão esse pelo encravado aqui na minha virilha”, “e esse meu peito pequeno, que vergonha”, “será que todos ficarão olhando para as minhas tatuagens?” Me perco nesses pensamentos.

“Amor? Amor? Ale? Onde você quer ficar?

Afff, chegou a hora! Escolho o canto, perto de uma das paredes de vidro, do lado da caixa de som. Colocamos o colchonete azul no lugar, cubro-o com um lençol comprado minutos antes. Logo chega uma cestinha branca com luvas, álcool, óleo de massagem e um bullet (diria que é um vibrador de clitóris).

{Nota Mental: e se as garotas ganhassem um bullet nos seus 15 anos?}

A partir daí, meus amigos, meu jeito de sentir a vida mudou totalmente. O sexo tântrico entrou e colocou ordem na casa. Muitas vergonhas, medos, angústias, simplesmente deram o fora, e para o lugar delas: o prazer.

O que me pegou de surpresa foi quando me dei conta de que qualquer mulher pode gozar 30, 40, 50 minutos. Ou ir além. Foi como um soco na cara, seguido de um murro no estômago, perceber que por 34 anos me auto sabotei encerrando SEMPRE o sexo após uma gozadinha — que eu entendia como uma ida ao céu. E é, mas é uma ida rápida ao céu. Nesse lugar eu entendi que posso passear no céu, conhecer suas ruas, quem sabe dormir uma noite ali.

Ter um multiorgasmo é transformador para uma mulher — pelo menos foi para mim. É força, é poder, é autoestima, é cura, é libertação, é o que você quiser. É o que o tantra é: não-repressor.

Recentemente eu tive um orgasmo na perna. Como? Com a dedicação do meu marido e o uso de um vibrador. A tal experiência oceânica que tanto falam, sim, ela é oceânica, profunda, e libera tantas drogas no nosso corpo que se você ficar uma semana inteira de riso frouxo, com uma sensação de bem-estar absurda, fique tranquilo, é assim mesmo.

Como é?

Meu marido e eu sempre tivemos curiosidade sobre a prática do tantra — ele muito mais do que eu -, até que encontramos o Centro Metamorfose, com método próprio e sede num lugar fantástico, cravado na serra entre São Paulo e Minas. No site, link de algumas matérias em portais e revistas importantes. Me interessei pela matéria da Sexy, edição de maio/15, do jornalista Fel Antunes.

Enquanto eu lia os primeiros 140 caracteres do relato, meu marido já tinha comprado o curso — Delerium para casais, treinamento multiorgástico -, as passagens de ida e volta Poa/SP — SP/Poa e já estávamos num grupo de whastapp acertando carona numa van que nos levaria de Guarulhos até Itapeva, para um fim de semana com os outros 29 casais. :o

Gelei quando li que todo mundo ficaria pelado aprendendo as tais massagens do tantra. Pensei que não conseguiria ficar sem roupa, deitada num colchonete enquanto meu marido me toca, ao lado de outras 60 pessoas, um casal ao microfone orientando o que o parceiro tinha de fazer e os facilitadores.

Não vou! — decretei.

Meia hora depois:

Tá, ok, vamos, mas fico de roupa se não me sentir à vontade!

No aeroporto encontramos outros quatro casais: dois de Porto Alegre, um do Rio e um de Montevideo. Entramos na van e subimos a serra. Depois de 200km de pura tensão, chegamos ao Centro Metamorfose.

O lugar já se mostra lindo. Na recepção, quem mora na Comuna nos recebe com um abraço longo, um sorriso leve e muita tranquilidade. Pagamentos feitos, descobrimos que homens de um lado, mulheres de outro e banheiros coletivos.

{Nota Mental: Ok. Eu e minha mania de nunca colocar pijama na mala!}

Pego a chave e vou para o quarto. Duas fileiras de camas de solteiro, lençóis, cobertores, sabonetes. No fundo do grande quarto retangular, duas rochas, escolho a cama onde o colchão fica direto na pedra, já que estou aqui quero sentir a natureza. De teto baixo, o quarto tinha tudo para ter aquele cheiro de mofo, mas nada, era limpo e cheiroso, assim como tudo lá.

Subimos para o salão principal. Já tinha visto nas fotos que era uma construção respeitando a natureza, toda de madeira, pedra e vidro. Dentro, uma lareira gigante e acima dela uma foto animada do Osho. Fazia frio naquele fim de semana de dia dos namorados de 2015.

Sentamos num grande círculo, em cadeiras vermelhas de chão, e o casal de facilitadores se apresentou e explicou a metodologia da Delerium. Meu nervosismo estava bem alto; meu companheiro, tranquilíssimo.

Fomos para o jantar, comida lacto-vegetariana, orgânica, dois tipo de sucos, sobremesas, mesas comunitárias. Olhar aqueles casais todos — variando de 20 a 68 anos — e pensar que em minutos estaríamos todos deitados em colchonetes, pelados, aprendendo a manipular a genitália do companheiro era, definitivamente, inebriante para mim.

Chegada a hora, partimos para o salão, lareira acesa. Papo curto e início da prática. Algo aconteceu comigo, talvez tenha a sido a comida ou o suco, pois assim que sentamos em forma de borboleta, olho no olho, eu comecei a tirar a roupa naturalmente.

Em 15 minutos eu estava chorando — e pelada. Todos estavam naturalmente. Ninguém olhava para o lado, havia uma concentração no seu companheiro. Desde então, ficar com ou sem roupa é a mesma coisa para mim. Se fossemos deuses teríamos vergonha de nossas vestes, teria dito Nietzsche.

Depois do olho no olho, fomos para a primeira massagem, chamada sensitive. Muito simples: mão em forma de garra e, o mais sutilmente possível, passe os dedos, sempre em duas polaridades distintas, por todo o corpo do companheiro. Risos nervosos, arrepios, vontade de arrancar a mão, gastura, irritação… e a voz saia do microfone insistindo que era momento de resignificar. Mas que difícil é resignificar, só penso nas cócegas que ele está fazendo.

Meia hora de sensitive em todo o corpo e eu começo a sentir algo bom, leve. Ao nosso lado, uma mulher já goza. Acima da minha cabeça uma outra bufa de prazer. Fico confusa. Como isso é possível? Sempre me senti mega livre no sexo, então o que elas têm que eu não tenho?

E assim vai. Trocamos e mais uns 40 minutos de sensitive no companheiro. Vamos para o giro tântrico. O homem senta no chão, a mulher monta nele e solta o corpo. O homem passa a conduzir o giro. Não senti nada — nesta vez, pois em casa tive uma espécie de orgasmo misturado com liberdade que ainda não sei explicar o que foi exatamente.

Seguimos neste ritmo até por volta da meia-noite. Não passem desodorante, nem perfume, nem creme, nem maquiagem, nem nada. Este é o recado. Ok. Chá, fruta e cama.

Sábado, 7h da manhã, uma aula de yoga tântrico. Opto por dormir, óbvio. Meu corpo dói pra valer. Tomo banho, café, enlouqueço com a vista, absorvo o sol, recebo abraços apertados com mais de 20 segundos, e a ocitocina começa a sair. Choro bastante, me reconecto com meu pai e com a terra.

Estou numa felicidade estranha. E sem sinal de celular! 9h30 todos de volta ao grande salão com o olhar divertido do Osho — e no quentinho da lareira.

O rito segue: tira a roupa, olho no olho, sensitive, giro tântrico e muita música com batidas fortes. Depois de quase uma hora, recebo meus primeiros toques vaginais: intumescimento do clitóris.

{Nota Mental: Os homens, todos, deveriam ter essa aula}

O dia estava apenas começando, mas seria o dia da minha primeira experiência oceânica. A parte da manhã foi dedicada ao clitóris e grandes e pequenos lábios. À tarde, cordão do clitóris, anéis da vagina, contrações, ponto g.

No fim do dia, depois ter mergulhado em águas profundas, de ter tido o meu primeiro grande orgasmo, eu apaguei ali no salão, feliz, com meu companheiro velando meu sono. Quando acordo, as cortinas roxas tinham sido abertas e o sol estava se pondo atrás de uma montanha. Alaranjado, vermelho, roxo, não sei. Eu estava nua, sentada, encantada, sorrindo, amando.

À noite, chegou a vez dos homens. Ainda na sensitive, muitos davam pulos do chão, espasmos, urros, gemidos, risadas. Ao microfone, os facilitadores davam as coordenadas dos movimentos, que já tinham sido demonstrados anteriormente. Fomos nesse êxtase até meia-noite. (Aqui a nossa primeira experiência pelos olhos de Sergio Kroeff Canarim).

Domingo, o corpo cheio de ocitocina e suas primas, experimentamos a penetração passiva com a ajuda do bullet. Sentir os anéis da vagina se contraindo ordenadamente, enquanto uso o bullet no clitóris, é tão novo que tenho dúvidas se o que estou sentindo é prazer ou irritação.

O dia se encerra com um novo círculo, depoimentos emocionantes, amigos e uma frase que segue firme após 1 ano do início do tantra: ‘esta foi a segunda melhor coisa que aconteceu em minha vida; a primeira foi ter nascido’.

O que mudou depois de um ano de treinamento?

Muita coisa mudou desde a Delerium. Nosso sexo mudou radicalmente. Encontramos o nosso sexo, uma mistura do tantra com o ocidente. Eu me sinto invadida por uma felicidade extrema pós-tantra, com energia, durmo menos, me irrito menos, quero abraçar mais, ouvir mais. Deixei pra trás a vergonha do corpo, a culpa e o medo por sentir muito prazer.

Entender que eu sou um indivíduo completo e que mesmo sozinha posso dar o prazer que meu corpo merece — e que por uma vida eu neguei, deixando a consciência me podar por medo do desconhecido — foi como chutar a porta com os dois pés.

Isso me levou a descobrir, no canto mais escuro do meu ser, uma mulher afogada em sexo ruim de uma vida toda. Não por culpa minha ou dos homens com quem me relacionei, e sim por sermos podados o tempo todo, especialmente quando o assunto é sexo.

Quando juntei que bastava eu me permitir, o amor explodiu em mim, as ‘inas’ começaram a passear pelo meu corpo como loucas, levando prazer, tesão, alegria, energia, potência de viver para cada célula. Meu relacionamento mudou de platô, amadureceu, ganhou cor, sensibilidade e uma beleza que eu não conhecia. Experimentei de uma alegria inédita.

Chorei de tanto gozar. Chorei vendo meu marido gozar. Lágrimas-e-sorrisos-e-arrepios-e-amor-e-respeito. Meu corpo é quem manda, enquanto isso, minha mente fica vazia, meditando.

Eu continuo não usando a palavra gratidão, e continuo não tendo religião, muito menos seguindo ídolos. Eu só me descobri, entendi que eu quero me dar prazer, que eu mereço, não tem nada de feio, nem de escandaloso, nem de sujo, nem de secreto, nem de nada além de amor e respeito.

Vivemos o tantra todos os dias, na consciência do olho no olho, na consciência das mãos dadas e do passo ordenado, na consciência do silêncio.


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Texto publicado originalmente no Medium da autora.


Alexandra Zanela é jornalista, empresária, feminista, militante, apaixonada por café, tecnologia e conversas acaloradas. Depois de 14 anos em redações, resolveu ser CEO da sua vida e abriu a Padrinho Agência de Conteúdo.

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