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6 dicas para aproveitar o verão sem deixar os padrões te engolirem

Quando eu era mais nova, eu odiava o calor, o verão, a praia e as roupas que não cobriam meu corpo. Eu demorei para entender que minha aversão ao calor estava estritamente ligada à ideia de que meu corpo não era do tipo 'certo', não era 'aceitável' para o verão, assim, eu deveria escondê-lo. E olha que quando adolescente eu nem era gorda, mas me via assim e também me achava torta e feia, achava meus peitos grandes demais e caídos, minha barriga estranha, porque nunca foi lisinha como a das minhas amigas magrinhas. E os braços? Ah, os pobres dos braços roliços que só foram libertos recentemente. Passei tempo demais da minha vida me escondendo e, hoje, sinto um pouco meu peito apertar em lembrar de como me machuquei - e ainda me machuco algumas vezes, porque não sou um poço de segurança e confiança, infelizmente eu caio nas mentiras que me contaram, e ainda contam - nestes meus 35 anos.

O processo de aceitação do próprio corpo é um trabalho contínuo, e é difícil porque todo dia, de qualquer lugar, vem um olhar julgador, um comentário preconceituoso, vem a conversa que a fulana está horrível, um relaxo só, que engordou demais e que a ciclana está linda porque emagreceu; afinal de contas, nos fazem acreditar que o pior que pode acontecer a uma mulher é ser gorda e o melhor é emagrecer.

E assim a gente convive com esses discursos limitadores e, naquele dia meio bosta, que você dormiu mal, achou que a roupa não caiu bem e está estranha, finalmente você acredita que está relaxada mesmo, que onde já se viu estar pesando isso tudo? Como pôde ficar assim? Nunca será bem vista, nunca será feliz, você é fraca por ter engordado, por não pintar o cabelo, por não ser o que esperam de você e daí segue uma lista de coisas horríveis que estamos cansadas de ouvir.

Para muitas mulheres o verão ainda é um empecilho, porque é aquele momento que precisam usar de artifícios para não mostrarem o corpo, é um tal de usar um casaquinho por cima do vestido de alcinha, porque não quer mostrar os braços grossos, é usar um maiô, porque não quer mostrar a barriga, é vestir short e camiseta na praia, porque não quer se queimar do sol e por aí vai, é uma coleção de argumentos sistematicamente lapidados ao longo dos anos, até que você acredita que o verão é uma merda mesmo e o melhor que você pode fazer é esperar ele acabar. 

Não estou aqui para convencer ninguém de que o verão é lindo, eu amo calor hoje, mas entendo que tenham os adoradores do frio, cada um com seu gosto, né? Mas daria algumas sugestões para você que só odeia o calor porque tem vergonha de si mesma.

Você pode 

Ser gorda, magra, ter estria, celulite, peito caído, pode ter cabelo liso, crespo, enrolado, careca. Pode depilar as axilas, pernas, virilhas ou não. Pode usar biquíni, maiô e até ir à praia de nudismo. Pode tudo, tudo mesmo. Ninguém precisa se encaixar num padrão que não serve e só machuca, nem eu e nem você precisamos. Eu repito isso com frequência, porque nem sempre eu consigo acreditar, mas é preciso repetir, é preciso espalhar, é preciso fortalecer.

Rompa com as suas verdades

Um exercício imenso de ruptura e crescimento é fazer aquilo que nos causa receio, é ir de encontro ao que costumamos evitar por motivos que nem sempre concordamos, mas nos foi ensinado desde tanto tempo que tomamos como verdade, rompa com isso. Ouse deixar seu corpo um pouco mais livre, se dê uma chance, seja carinhosa consigo mesma, se trate bem. Se olhe, vá no espelho, observe com carinho aquilo que te ensinaram que é feio e procure a beleza ali.

Uma das coisas que mais me incomoda hoje é minha barriga, e todo dia eu olho pra ela, aperto, passo a mão e tento entender melhor o papel da bichinha ali, tento aceitar o formato dela porque, como falei, o processo de aceitação é contínuo, mas eu acredito muito nele e inclusive acredito na ironia clichê de que mudanças só são possíveis quando finalmente nos aceitamos, a gente só muda de verdade aquilo que tem plena consciência.

Tenha consciência de si mesma, do seu tamanho, mas não apenas físico, mas o tamanho que você como pessoa abarca e tudo de bom que tem nisso. O seu corpo não te define, mas ele também é você, não se odeie.

Encontre seus caminhos

Eu nunca em minha vida que imaginei que poderia usar regata, porque além dos braços gordos que sempre me deram vergonha, tenho peitos grandes e cresci com a ideia de que regata/alcinha, não eram pra mim. Há quase dois anos viajei para um lugar que faz muito calor, mas muito mesmo! Me vi tendo que sair com os braços de fora e adivinha só? Adorei, mas reconheço que tinha o agravante de que estando em outro país, o peso de se mostrar para completos estranhos é menor.

Daí que voltando o Brasil a coisa foi um pouco diferente, fiquei com receio, mas fui usando regatas e a forma que achei de mostrar de vez os braços foi tatuando. Eu amo a tatuagem que fiz e adoro mostrá-la, foi a forma que encontrei para romper com minha vergonha. Não estou falando para se tatuarem, hein? Mas que cada uma tem seus meios e, da mesma forma que somos capazes de criar inúmeras desculpas para nos esconder, podemos usar essa criatividade aí para fazer o inverso e nos mostrar.

Vira o jogo

Você não tem que estar 'gostosa' dentro do que se espera de um padrão para poder curtir o verão, como já me falaram, o verão é que tem que estar gostoso para você! Para subverter as regras precisamos antes conhecê-las. Pois bem, já sabemos todas elas, vamos inverter isso, o jogo também é nosso e as regras que nos foram dadas não servem mais, bora mudar?

Não precisa ir sozinha

Você não precisa ser forte o tempo todo, nem ser um exemplo de empoderamento e confiança. Se em alguns momentos sentir que precisa de alguém contigo, não vá sozinha. Já percebi que muitas vezes que vou fazer algo que me assusta, eu busco alguém que confio para ficar do meu lado. Ano passado, pela primeira vez em mais de dez anos, eu fui para praia e vesti um maiô, porque usar biquíni na época era um passo muito grande pra mim. A pessoa que estava ao meu lado foi meu namorado e me senti mais confiante por estar acompanhada dele.

Por isso, se quer usar biquíni cortininha e top cropped, por exemplo, mas não se sente muito segura, use e saia com alguém que você confia, chama uma amiga, namorado, amigo, irmã, o que for, se fortaleça com o amor dos que estão contigo, isso ajuda muito num primeiro momento, até que você entenda que pode sair como quiser.

Ouse ser plural

Muitas vezes romper com algo que acreditamos tão fortemente por muito tempo é doloroso e assusta, eu achava que fazendo o inverso do que sempre fui ensinada a fazer, me descaracterizaria como a Milla, como a pessoa que sou e que me apresentava aos outros. Eu só usava preto, não mostrava meu corpo por nada e morria de vergonha de mim mesma, e acreditei que eu era assim e tinha muito medo de mudar, perder a minha identidade e as pessoas me julgarem pelas minhas mudanças.

Acontece que eu descobri que posso ser quem eu quiser, na situação que eu quiser e, ainda assim, continuarei sendo eu mesma. Posso usar regata, biquíni e roupas coloridas, posso deixar de apreciar o frio e amar o calor. Nós podemos tudo, porque parte da nossa riqueza está justamente no nosso poder de mudança, por isso, mude, prove, teste. Abrace as tantas versões de si mesma e, nelas, reconheça sua pluralidade singular, que te torna exatamente a mulher maravilhosa que você é.


Milla Pupo

Gosto de Harry Potter e Gilmore Girls, aprendi a andar de bicicleta e a usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Tenho um biquíni da mulher maravilha e já fiquei internada num hospital de guerra no Vietnã, pode não parecer, mas eu sou coerente, aliás o suficiente para dizer que não, aqui não tem mil e uma noites de amor com você.
 

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