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Pare de agir aleatoriamente

Em São Paulo / via internê / comprei um livro de francês / de uma livraria carioca / editado na Polônia / fabricado em Barcelona / e que o correio acabou que mandou para a Bahia. / Quando ele chegar, / se ele chegar, / vou escrever na contra-capa, / de caneta colorida: livro-sem-fronteiras.

1. As cadeias longas de produção

Há três anos, quando escrevi esse poeminho espirituoso que chamei de Poemeu da Globalização, não sabia bem o que significava uma cadeia longa.

Em resumo, nada mais é do que o próprio poema descreve: uma cadeia de produção e distribuição com inúmeras etapas, ramificações e intermediários. Tantos, que fica difícil saber quem foi que produziu cada parte do produto final e quais os impactos gerados por aquele produto no mundo.

Paulo Brabo, num texto detalhado publicado no Blog Forja Universal, fala sobre as cadeias longas em oposição às produções locais. Traduz bem objetivamente meu poeminho ingênuo:

Um dis­po­si­tivo que teve o seu design esta­be­le­cido nos Estados Unidos têm os seus com­po­nen­tes pro­du­zi­dos em vinte países e três con­ti­nen­tes. Essa multidão de com­po­nen­tes mul­ti­na­ci­o­nais descobre modo de se reunir magi­ca­mente numa única fábrica da China, nas mãos de um único e anônimo ex-camponês, antes de atra­ves­sar montanhas e mares e encontrar o caminho de uma loja de shopping em São Paulo ou de um super­mer­cado de bairro em Campina Grande — tudo para que você tenha como jogar Candy Crush na sua próxima ida ao banheiro.

E aí, qual o problema de ter um produto rodado?

Todos.

Num sistema capitalista onde o que mais vale é a produtividade e maximação dos lucros, há incentivo total ao alongamento bestial das cadeias para que o melhor seja extraído de cada parte, mantendo o custo final do produto lá embaixo. Isso é feito em detrimento de muita coisa no caminho.

Em resumo, as cadeias longas inibem a cultura local (modo de fazer, sistema de tradições), esmagam a economia local (deixo de fazer e vender localmente para fazer parte de um sistema grande de produção, ou seja, passo de produtor local a empregado), além de trazerem impactos ambientais e humanos impressionantes.

Quando compra um artigo de 1,99 você via de regra não o faz por um ódio deli­be­rado à economia local. Na verdade, deter­mi­na­dos preços são tão excep­ci­o­nais que geram a impressão de que ninguém está sendo pre­ju­di­cado por eles; parecem existir lite­ral­mente fora da competição. O fato é que nada no planeta custa 1,99, a não ser que alguém fora do seu campo de visão esteja pagando a diferença. Essa trans­fe­rên­cia de custos é o mecanismo mais essencial do sucesso das longas cadeias, mas não é o único.

A mágica é que esses custos locais, globais e humanos permanecem espalhados por aí, quase invisíveis, e bem distantes do consumidor final: você.

2. E aí, o que eu tenho a ver com isso?

Tudo.

Parte por conta dessa estrutura capitalista de produção, que estimula cadeias longas globalizadas sem grandes consequências visíveis, parte por conta do nosso mundo interno (falta conexão, empatia, compaixão), andamos bastante desconectados do que consumimos, usamos e fazemos. Um bocado (bastante) zumbis.

Não sabemos do que é feito, pra que realmente serve, de onde veio, quem foi que fez, quanto custou pra ser produzido. Nos ligamos às coisas de um modo muito superficial e utilitário: eu quero, vou (ou não vou) comprar.

Agimos pelo mundo aleatoriamente, sem de fato ponderar consequências ou pensar na ética dos nossos atos.

Daí que acabamos cometendo várias atrocidades. Não só com nós mesmos (comemos coisas que nos corroem por dentro, usamos produtos de “higiene e cuidado” que levam componentes prejudiciais à saúde, e assim por diante) como com os outros.

Financiamos, sem prestar muita atenção ou sermos afetados diretamente pelos resultados, milhares de tecelagens que funcionam à base de trabalho escravo e criações desumanas de frangos que crescem confinados, sob luz branca 24 horas, de bicos cortados pra não se auto-flagelarem.

Vivemos tranquilamente, achando que não temos nada a ver com o que acontece com os bolivianos na Barra Funda ou com os frangos em Santa Catarina, mesmo quando compramos roupas de marcas explicitamente condenadas em segunda instância judicial e comemos asinhas da Sadia todos os domingos.

Seguimos sustentando situações bizarras com as quais nem sequer concordamos, independentemente de quais sejam.

3. Como sair disso?

No texto A prática do boicote num mundo interligado, publicado originalmente no Papo de Homem, Eduardo Pinheiro fala do assunto de um jeito bastante direto e traz uma solução prática pra que possamos, ainda nesse mundo de cadeias longas e desconexão humana, gerar um ciclo virtuoso, de acordo com nossa ética e dentro do nosso alcance: estabelecer hábitos ligados ao que queremos fomentar ou ao que queremos mudar.

Uma vez que o hábito da virtude é gerado, se torna mais fácil ser virtuoso e lembrar-se de ser virtuoso. Portanto, é importante treinar em raciocinar, lembrar-se das conclusões, e agir repetidas vezes de acordo o maior apuro, de forma a gerar esse hábito de virtude.

Eu já fazia isso, e conversei com amigas que faziam o mesmo. Mas pegamos o bonde do texto do Pinheiro e resolvemos parar um pouco, pensar de novo em questões latentes pra cada uma de nós e listar bons hábitos.

As listas trazem ações que: 1. estimulem as coisas nas quais acreditamos, ou 2. inibam (boicotem) aquelas com as quais não concordamos.

Embora não se deva abandonar as pressões sobre os governos, o boicote hoje tem muito mais valor até mesmo do que o voto.
E o boicote não significa apenas deixar de comprar, mas fazer bom uso das redes sociais. Se uma empresa pisou na bola — não só em termos de direitos do consumidor, mas em termos éticos mesmo — é preciso tentar criar uma reação em cadeia contra ela. Essa prática de guerrilha da era da informação já se mostrou efetiva em alguns casos — mas ainda se está por ver os verdadeiros gigantes tremerem.

Dividimos aqui nossas listas de ações e boicotes:

- Eu, entre outras coisas, pego pesado quando a questão é trabalho escravo. Fiz uma lista de marcas que boicoto por conta do envolvimento com o assunto (pra fazer isso com maior detalhamento, recomendo o app Moda Livre, do Repórter Brasil). Aí vai a minha lista.

- A Giovana Camargo tem aversão a sofrimento animal. É vegetariana desde muito cedo e fez uma lista que ressalta marcas que tratam animais como objetos.

- A Camila Haddad boicota eletrônicos. Olha muito pra questão da obsolescência programada e pra empresas que tratam as coisas como descartáveis. Fez a lista de boicotes e ações nesse sentido aqui.

Para as três o feminismo é uma questão muito forte. Em todas as listas aparecem boicotes à marcas que reforçam prisões estéticas femininas e padrões machistas de comportamento.

Pronto.

E aí? No que você acredita? O que quer catapultar? O que quer que deixe de acontecer?

Hora de fazer a sua lista e parar de agir aleatoriamente.


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Texto publicado originalmente no Medium da autora. Ilustração de Thiago Garcia.


Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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