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O que fazer para ajudar quem está num relacionamento abusivo

Todo mundo já esteve ou conhece alguém que esteve num relacionamento abusivo. Esse tipo de relacionamento acaba acontecendo mais na esfera amorosa — ou a gente tem a impressão de que acaba acontecendo mais porque falamos muito mais sobre esses. Muita gente fantástica já escreveu (ou publicou vídeos, como é o caso desse aqui da diva Jout Jout) material que ajuda a identificar um relacionamento abusivo, então já temos essa super mão na roda.

Mas depois de publicar meu primeiro texto, que fala sobre relações humanas, eu recebi uma série de mensagens que me deixaram perturbada — todas de pessoas que estavam em relações abusivas, fossem elas amorosas, familiares, enfim. Muita gente me trouxe histórias bastante sombrias envolvendo expulsão de casa, chantagens, agressões (físicas e emocionais) e muito sofrimento na mão de pessoas que diziam amá-las.

Quis fazer algo por essas pessoas que entraram em contato comigo. Como alguém que já esteve num relacionamento abusivo, infelizmente eu já passei por situações parecidas. O que me ajudou, na época, foi descobrir mais gente com as mesmas experiências que eu. Então, escrevo isso na esperança de ajudar quem esteja precisando também. Esse texto foi elaborado com a ajuda de muita gente que se dispôs a falar comigo sobre seus relacionamentos abusivos e o que colaborou para a libertação delas.

O que segue adiante não tem, assim como nenhum dos meus textos nunca teve, pretensão de ser uma verdade absoluta ou um manual de instruções. É apenas um conjunto de reflexões que, com sorte, irá cair nas mãos de quem precisa.

Ele tem duas partes, servindo pra você (1) que acha que tem um relacionamento abusivo na sua vida ou que já percebeu que a sua relação com alguém anda cheirando mal; e pra você (2), que tem um conhecido que pode estar passando por isso.

Primeira parte: o que fazer se você [acha que] está em um relacionamento abusivo

1. Procure ajuda

Mesmo. Pode parecer clichê, mas procure ajuda. Quando passei por essa situação pela primeira vez tinha uns 15 anos. Eu não sentia que as pessoas ao meu redor fossem compreender o que estava acontecendo e achava que aquilo só acontecia comigo (daí a importância de conhecer quem passou pela mesma coisa), então eu procurei ajuda de uma psicóloga. Mas pode ser quem você quiser: uma pessoa da família, uma amiga, um namorado (ou namorada), uma terapeuta.

Muitas vezes, pessoas que constroem relações abusivas negligenciam afeto como forma de controlar a vítima. Então cerque-se de pessoas que você sabe que gostam de você e estão dispostas a te oferecer desde abraços até uma cama pra passar a noite. Pessoas que te fazem sentir amada. Construa com essas pessoas uma grande almofada de carinho pra você cair em cima quando for necessário. Elas vão te amparar.

2. Fale com suas amigas. Ouça o que elas têm a dizer

Sequência do item 1, mas essa é bastante importante porque a confirmação de um relacionamento abusivo acontece quando seu algoz tenta eliminar seu contato com elas. Ou com a sua família. Ou com ambos. Então, se a pessoa tentar te impedir de fazer isso, falar que suas amigas não prestam, que sua família não te ama e você deveria ficar longe delas… é o carimbo no seu atestado de Preciso Sair Dessa. Mas é importante também que você ouça o que elas têm a dizer. Geralmente, quando as suas amigas questionam alguma relação sua… é porque elas estão certas. Na dúvida, passe pela check list da Jout Jout.

3. Elimine os gatilhos de crise

Os relacionamentos abusivos geralmente se propagam por anos a fio, instaurando dinâmicas de poder muito fortes e isolando a vítima. Mas alguns possuem gatilhos para crises que geram discussões, estresse e agressões. Para explicar esse ponto, vou precisar de um exemplo: vamos supor por um momento que você tem um relacionamento abusivo com o seu namorado, o Francis. Ele adora sair com os amigos pro happy hour na sexta-feira e sempre volta bêbado. Francis chega tropeçando na casa toda, reclamando que não tem comida pronta, vocês brigam, isso vira pretexto pra ele falar o quão imprestável e ridícula você é e que você não passa de uma vagabunda que ele teve a bondade de amar.

Eliminar o gatilho de crise nesse caso seria não estar em casa quando ele chegar. Vá dormir na casa da sua mãe toda sexta-feira. Essa é uma medida de contenção de danos, embora também ajude a estabelecer o seu espaço pessoal como um espaço livre dessa dinâmica abusiva. Você precisa focar na sua sanidade mental e em se manter longe de conflitos. Isso vai ajudar a manter a sua calma e a sua perspectiva no lugar.

4. Perceba os ciclos

Relações abusivas também costumam ter ciclos. Retomando o exemplo acima, o Francis iria te pedir milhões de desculpas, dizer que errou, que te ama mais do que tudo e te levar pra um jantar romântico — pra depois fazer tudo igual, de novo. Perceber como e quando esse tipo de dinâmica se instaura é muito importante pra conseguir se proteger.

5. Lembra daquilo que você adorava?

A gente frequentemente muda sem perceber quando está num relacionamento abusivo; acaba ficando perdida e meio desnorteada sem conseguir identificar quem é. De repente, do mais absoluto nada, você não lembra mais o que fazia no seu tempo livre. Quem você era antes do Francis? Ou então, se seu relacionamento abusivo for com uma pessoa do seu convívio diário, por que você é tão mais feliz longe de casa? Por que você odeia voltar? Por que o seu sonho é mudar de cidade pra nunca mais ter que lidar com certas coisas?

Tente se conectar às coisas que te deixam feliz. Pode ser um hobby: jardinagem, fotografia, colecionar chás da China. Pode ser qualquer coisa que te faça sentir aquela ligação com você mesma. Conheci pessoas que se beneficiaram muito dessa prática quando estiveram em relações disfuncionais, incluindo algumas que transformaram sua dor em arte.

6. Procure alguém que tenha passado pela mesma situação

Essa foi a parte que mais me ajudou: empatia. É muito mais fácil quando você tem amigos e familiares compreensivos e simpáticos à sua situação, mas melhor ainda é achar quem já passou por isso. A internet é maravilhosa nesse caso. Quem já foi vítima de pessoas muito manipuladoras pode te acalmar, te dar soluções e te ajudar de formas que você nem imagina.

E tem uma última coisa: quando você perceber o ciclo, conseguir quebrá-lo ou confrontar seu agressor pra sair dessa relação, não aceite chantagens emocionais. Não, você não vai ficar sozinha para sempre (e não existe problema em estar sozinha). Não, ele não vai se matar se você for embora. Não, você não é uma pessoa difícil de amar que jogou fora sua última chance.

No rompimento vai doer sim, mas vai passar. Tem gente que só percebe relações abusivas anos depois que elas terminaram, olhando pras cicatrizes ou percebendo traumas. É normal. Respeite o seu tempo de superar.

Segunda parte: o que fazer se você conhece alguém num relacionamento abusivo

1. Ofereça ajuda

É a imediata resposta pro item 1 de quem está numa relação abusiva. Ofereça todo tipo de ajuda que você puder. Não raro, pessoas em relacionamentos abusivos vão dizer que não precisam, que tá tudo bem. Mas faça-se disponível, sempre. Às vezes a gente acha que isso tudo é apenas uma fase ruim de uma relação e que faz parte, vai passar, mas não percebe o quão anormais essas situações são. Nem todo mundo que está num relacionamento abusivo tem consciência disso (na verdade, são bem poucas as pessoas que percebem). E aí, você que está do lado de fora, tem que cutucar a bolha dessa pessoa e dizer “ei, pode me dar a mão, eu te ajudo!”. Nos casos mais simples, isso significa um ombro amigo pra chorar ou desabafar. Mas esteja ciente de que a situação pode ser bem complexa e pode ser legal oferecer sua casa como abrigo. Pode ser que você precise ligar para a polícia. A minha ex-vizinha se dispôs a depor na justiça ao meu favor, quando foi necessário. Ou seja, essas coisas podem ficar bem feias, e para pessoas fragilizadas, toda ajuda é útil. Esteja disposto a dar amor, acima de tudo.

2. Não deixe essa pessoa sozinha

É frequente que pessoas nesse tipo de relação se deparem com transtornos como ansiedade e depressão, ou com uso de drogas (álcool e Rivotril inclusos). Isso pode ser uma condição prévia delas ou pode ter sido desenvolvido por causa dessa relação tóxica. O grande problema é que, dessa maneira, se tornam vítimas muito mais fáceis de isolar e conter, o que é perigoso para elas. Às vezes é impossível estar sempre fisicamente perto da pessoa, mas o mais importante é se fazer presente. Responda às mensagens às duas da manhã, porque às vezes elas são silenciosos pedidos de ajuda disfarçados de “nossa, insônia, né?”. Depressão e relações abusivas são uma combinação perigosíssima. Você se sente impotente por excelência, sozinho por sua culpa e negligenciado porque merece.

3. Tenha paciência

Como raramente as pessoas sabem que estão nesse tipo de relação, é comum que elas rejeitem o que você diz e até se afastem — lembre-se que os algozes podem ser extremamente manipuladores. Mas fique perto. Deixe claro que, por mais que ela discorde de você, você estará lá pro que ela precisar. Fale de outros assuntos, se necessário nem mencione a relação. Mas faça ela saber que é querida e que a vida também existe fora daquele relacionamento tóxico (você não precisa dizer isso na cara dela. Ela vai perceber). Essa parte é muito importante se você está lidando com uma vítima que depende financeiramente do seu algoz (por exemplo, alguém que está em uma relação parental abusiva) e/ou que não tem possibilidade de se distanciar dessa relação, quiçá rompê-la.

4. Coloque essa pessoa em contato com alguém na mesma posição do algoz

Não na posição de ser horrível, obviamente. Mas vamos supor que essa sua amiga tem uma relação abusiva com o pai dela. Leve ela pra sua casa num domingo, pra almoçar com o seu pai. Seu pai aqui vai exercer a função de pessoa que está na mesma posição que o algoz, porém mantendo uma relação funcional com você, que está na posição dela. É como colocar óculos nessa sua amiga: ela vai perceber como é uma relação tranquila, do mesmo tipo que ela tem. E isso pode ser importante pra que ela consiga perceber o que há de errado na relação dela. Dá até pra trocar uma ideia com o pai antes pra que ele entenda a situação.

5. Esqueça determinadas convenções

Sabe aquele papo de que briga de marido e mulher não se mete a colher? Que família é sagrada e vem acima de tudo? Esquece. Esquece tudo isso. Quem está num relacionamento abusivo não pode continuar miserável por causa de convenções sociais. E se você parar pra pensar, elas só servem pra proteger o agressor. Meta-se.

6. Avise outras amigas e familiares

Mas tenha bom senso. Não fique espalhando pra todo mundo coisas que às vezes a vítima confidenciou só pra você. Se, por exemplo, ela tem uma relação tóxica com a mãe, contar para o pai pode não ser uma boa ideia. Pergunte pra uma amiga bem próxima se ela já notou algo esquisito. Provavelmente (e dependendo da gravidade da situação) essas pessoas também já estão preocupadas com a sua amiga e é bom que elas executem os passos anteriores também.

7. Nunca culpe a vítima

Nunca, JAMAIS diga que a pessoa está nessa situação porque quer. Que ela não termina com o Francis porque é besta. Que ela não fez por onde. Que ela depende do pai e portanto deve permanecer calada. Nunquinha. Você não sabe o que se passou nesse relacionamento abusivo — pode haver violência física, sexual, estupro, ameaças à vida dessa pessoa. E se o algoz fez seu papel direitinho, a vítima provavelmente já está se achando uma merdinha de pessoa. Ela não precisa de você piorando essa impressão. Ela precisa de acolhimento e empatia. Mas se você estiver se perguntando por que as pessoas não terminam essas relações assim que percebem algo errado, eu recomendo esse TED aqui (embora ele fale especificamente sobre o cenário de violência doméstica).

Não é fácil ajudar uma pessoa nessa situação e às vezes é indispensável dar tempo ao tempo. Pode ser que a pessoa nem se toque do fato de que estava num relacionamento abusivo até terminá-lo. Pode ser que ela perceba só muito tempo depois. Mas ter por perto pessoas que te amam, nessas horas, é um potente catalisador desses processos.

Agradeço do fundo do coração a todas as pessoas que compartilharam comigo as suas histórias de relacionamentos abusivos e a todos que me ajudaram a sair do meu ❤

Texto publicado originalmente no Medium


Débora Nisenbaum é formada em publicidade, mas ainda não sabe o que fazer com isso. Atualmente é colaboradora na Ovelha

 

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