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Sou dessas que não desperdiçam orgasmos

Dar ou não dar, eis a questão.

Você tá na porta da sua casa, acabou de voltar muito bem acompanhada da balada. Vocês estão num amasso nervoso dentro do carro, você está morrendo de tesão mas ao mesmo tempo presa em seu conflito interno se chama o cara para entrar e terminar o que começaram, ou se segue os sete mandamentos de como conquistar um cara em dez passos e deixa o convite para depois do quarto encontro, porque “fazendo assim ele não vai me achar uma vadia, não é mesmo?”.

Se você se identificou com a situação descrita, esse texto é pra você.

Sempre me pergunto: o que aflige tanto as mulheres? Por que temos que praticamente “fingir” que não gostamos de sexo? Por que ainda é tabu a mulher dizer que adora sexo tanto quanto o homem?

Apesar da liberdade sexual que conquistamos nos últimos 50 anos com a criação da pílula anticoncepcional e a entrada feminina no mercado de trabalho, ainda vivemos sob os resquícios de uma ótica machista. Nos foi ensinado, durante séculos, que só havia dois papéis para a mulher: o da casa e o da rua.

Em casa, só entrava o sexo para procriação, aquele de luz apagada e no qual a mulher é apenas um instrumento da masturbação masculina.

Já a rua era o local das mulheres que dizem sim ao prazer – as tais oferecidas. Chamar a mulher liberada de puta é um vestígio desse maniqueísmo obsoleto. Os nomes mudaram, mas o tratamento para quem transa com vários caras não: o “maçaneta” dos anos 50 evoluiu para o “piranha” que atualmente virou “periguete”. Transforma-se o adjetivo, o preconceito não.

O papel de homem e mulher no sexo sempre teve regras. Fazia parte do jogo de sedução a recusa dela e a insistência dele. Apesar de hoje essa dança de acasalamento sincronizada não fazer mais sentido, quantos manuais já foram escritos em revistas femininas ditando os 10 passos que devemos seguir religiosamente para transformar o paquera em um namoro sério? E quantos desses tem como regra número um postergar o sexo? Essas revistas tem uma visão tão equivocada e retrógrada que até a sessão destinada a tratar do assunto se chama “amor e sexo”, como se para as mulheres os dois sempre estivessem atrelados um ao outro e não pudessem existir independentes. E tudo isso em vão, já que se o cara não quiser algo mais sério com você, não vai ser o sexo  logo de cara (ou a ausência dele) que vai mudar isso – a não ser é claro que ele seja um machista, mas nesse caso a gente até agradece descobrir isso para se livrar logo do mané.

Aliás, até a ciência comprova que o sexo mais ajuda a engatilhar do que a espantar um possível relacionamento. Estudiosos norte-americanos perceberam que quando transamos nosso corpo libera ocitocina, um hormônio que ajuda a criar laços emocionais com o parceiro. Ou seja, o velho conselho para você “resistir à tentação ou ele vai pular fora na manhã seguinte” é uma furada, perda de tempo.

Então pra quê se prender a esses manuais de conduta pré-estabelecidos que tentam padronizar todos os tipos de relacionamento? Por que tantas mulheres continuam escutando-os e adiando o prazer quando poderiam tê-lo aqui e agora? E que tipo de comportamento incentivamos com isso? O de que se a mulher deu na primeira é porque não vale nada?

A Charlotte de Sex and the City que me perdoe, mas ao negar nosso próprio prazer também contribuimos para reafirmar e fortalecer o estereótipo da “mulher fácil x mulher difícil”, da “mulher pra casar x mulher pra se divertir”, de que se você afirma que gosta de sexo, você não presta.

Acredito que uma boa parte das mulheres ainda não foca a atenção em si mesma. Fica mais encanada imaginando o que os outros vão pensar e vão dizer, ao invés de preocupar-se com o que ela quer para ela mesma. Mas acredito também que cada vez mais mulheres pulam essa barreira de hipocrisia que separa a mulher-de-casa x mulher-da-rua. Afinal, desejo não tem local nem hora certa para surgir.

Sou dessas que, se sentir vontade, transam logo no primeiro encontro. E se você sente algum incômodo com essa afirmação, acho que na real o problema não está em mim, mas sim em você. Se toda mulher é meio Leila Diniz eu acredito na máxima da musa de que “quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”.


Texto originalmente publicado em Delírios Comprimidos.


Laís Montagnana, nem puta, nem santa. Amante de bons drinks, bons discos, noites quentes e mesas de bar na calçada. Escritora, feminista e encontrável em Delirios Comprimidos e no @laizicaa.

Laís Montagnana

Nem puta, nem santa. Amante de bons drinks, bons discos, noites quentes e mesas de bar na calçada. Escritora, feminista e encontrável em www.deliriosemcomprimidos.com e @laizicaa.

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