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Por que o relacionamento entre em homem adulto e uma adolescente é errado, apesar de permitido por lei?

Abuso não é apenas apanhar em casa. Não é apenas ser estuprada. Não é só ter sua liberdade cooptada por outra pessoa. Abuso também é ter suas decisões questionadas e feitas por outra pessoa. É acreditar que você tem o mesmo poder que o outro em uma relação sem que isso seja verdade. É estar em desvantagem em relação ao outro, quanto a vivência e experiências, e isso ser usado contra você.

Aos 16 anos eu trabalhava. E no trabalho conheci um homem incrível. Nos apaixonamos e passamos a nos relacionar. Tudo era lindo. Ele me buscava no colégio, a gente passava muito tempo juntos, discutíamos literatura, filosofia e música. Nos dávamos bem e ele sempre respeitou meu corpo e meus limites — e a lei dizia que esse relacionamento era totalmente aceitável, afinal eu tinha mais de 14 anos e isso me torna madura para resolver se quero transar ou não com outra pessoa (o que é uma mentira sem fim).

Olhando para trás sei que ele não tinha intenção nenhuma de me colocar em um relacionamento abusivo. Sei também que se alguém dissesse que aquele era um relacionamento abusivo eu iria rir. Mas hoje sei que abusos não são apenas os que podem ser vistos. Eu era submissa a ele. O amava como uma adolescente ama. Queria viver coisas que uma adolescente quer. Sofria por coisas que apenas uma adolescente sofre. E não queria que ele pensasse que eu era apenas uma garota de 16 anos, queria parecer adulta, então engolia muita coisa “de criança”. O abuso estava apenas nos 14 anos a mais e a experiência de vida que isso trouxe a ele. Apenas saber de certas coisas já abre uma vantagem incrível nessa corrida que é se relacionar.

Ele nunca me proibiu de sair com meus amigos, mas se recusava a ir junto. Eu escolhia ficar. Ele nunca me disse que eu deveria ouvir certo tipo de música ou assistir certos tipos de filme, mas eu queria seguir o que ele achava interessante. Ele nunca disse que eu deveria mudar meu jeito de vestir, mas eu ficava ligada sempre que ele elogiava o visual de outra mulher. Eu faria alguma dessas coisas hoje? Não. Ele queria que eu agisse daquela forma? Talvez não. Mas isso acontece sem a gente querer. Simplesmente porque aos 16 anos você não tem a mesma cabeça do que aos 30. E isso é, sim, uma vantagem.

Naquele momento eu nem imaginaria nada disso. Assim como mulheres que sofrem diversos tipos de relacionamentos abusivos não notam que estão em um. Mulheres que escrevem sobre violência e lutam contra o feminicídio também são vítimas de relacionamentos abusivos. E você não consegue olhar para si mesma e se encaixar no problema. Você não consegue e não quer. E é por isso que é tão importante questionar tudo o que é aceito como totalmente normal.

É importante a gente questionar relacionamentos com grande diferença de idade. Ninguém pode dizer que uma mulher está sofrendo, apenas ela. O meu relacionamento da adolescência se encaixa em milhares de aspectos do relacionamento abusivo, mas eu saí dali bem e forte. Segui minha vida sem nenhuma marca — outros relacionamentos com caras da minha idade me deixaram muito mais doente do que esse. Porém hoje eu enxergo que não estávamos na mesma página e não tínhamos o mesmo poder de decisão e escolha no relacionamento. Tenho um carinho muito grande por esse homem e o admiro profissionalmente até hoje. Aprendi muito com ele. Mas isso poderia ter sido feito como amigos, poderia ter acontecido de milhares de maneiras e nós dois erramos em cruzar esse limite.

Mulheres não têm o costume de conversar sobre certos assuntos. Não contamos coisas íntimas de verdade. Não comparamos nossas vivências. Enterramos tudo dentro de nós e tratamos nossas dúvidas como se não existissem. Seguir o roteiro de revistas femininas, então, nos dá a falsa impressão de que está tudo sempre bem. De que temos que ser gratas porque um homem nos deu atenção e quer cuidar de nós. É só trocando, questionando e problematizando que vamos salvar milhares de meninas de relacionamentos abusivos do tipo que deixam marcas no corpo e mudam trajetórias de vida.

Temos que falar sobre isso. Temos que lembrar que é uma menina amando um homem adulto e toda a diferença que os dois têm na maneira de experienciar as coisas. Não sou eu quem tem que achar que um relacionamento é abusivo. Apenas quem está nele pode dizer. O meu papel é dividir minha história, dar ferramentas para que outras jovens mulheres na mesma situação a comparem com suas vidas e meçam suas experiências.

Mulheres em situações abusivas não estão de mãos atadas para sair dessas relações, mas quando você é enfraquecida por quem ama passa a acreditar que você é realmente fraca e precisa daquela pessoa. Temos o poder de agir, mas simplesmente não conseguimos.

Um dia, lá aos 16 anos, a mãe de uma amiga perguntou a ela: “Quem é aquela garota de cabelo raspado que acabou de entrar no carro de um homem mais velho?”. Minha amiga respondeu que era eu e a mãe passou a pensar duas vezes antes de deixá-la sair comigo. Hoje eu entendo a preocupação, eu realmente estava entrando em um buraco que não gostaria que minha filha entrasse. Por sorte saí bem, mas poderia ter sido totalmente diferente.


Carol Patrocinio é jornalista, feminista e gosta de olhar as coisas por um ângulo diferente. Acredita que o amor muda o mundo, mas que a raiva é o combustível mais potente da revolução. É co-fundadora da Comum, mãe e oferece consultoria para negócios que querem fugir de esteriótipos de gênero.

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