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Não importa quem cai, as mulheres estão perdendo

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Cunha caiu, pelo menos como Presidente da Câmara. Agora nós ficamos na expectativa de que o atual inimigo n°1 das mulheres brasileiras tenha seu mandato cassado. Uma coisa é certa: ele não vai desistir fácil. Mas se a gente parar pra pensar a verdade é que tanto faz se ele vai cair ou não, nós mulheres já estamos perdendo.

Não é que não seja importante ver um criminoso que mandava e desmandava ser punido. É sim. Mas infelizmente Cunha deixa uma semente plantada e crescendo em solo muito fértil. E essa planta, minas, é venenosa. As bancadas conservadoras aumentaram seu poder e influência de maneira assombrosa de 2014 para cá e os defensores dos Direitos Humanos estão penando para conseguir barrar os avanços. Embora nas ruas tenhamos mais adesão do que nunca, isso não está refletido no Congresso ou no Planalto.

E é por isso que não me iludo com a queda de Cunha. Nosso sistema político se demonstrou tão corrupto, sujo, conservador e atrasado que repele quem não quer jogar o jogo. Atualmente é preciso muita coragem, sangue frio e estratégia para conseguir fazer frente aos desafios que nos são apresentados.

Depois da guerra nuclear só restaram as baratas.

Cunha cai, mas deixa uma legião de seguidores. Políticos que entenderam que por aqui se joga sujo e que pouco importam as contradições vistas pelo público. O importante é fazer alianças, ter pessoas que dependam de você, ter a mídia do seu lado. A condução da operação Lava-jato e o impeachment sem fundamento demonstram que pouco importa o povo que te elegeu desde que você tenha bases e aliados fortes entre os peixes grandes.

Nos últimos meses, todos testemunhamos a baixaria e a falta de limites de Cunha, com suas mil manobras para aprovar ou barrar o que queria. Passamos a comemorar as migalhas e brechas em sua atuação quando deveríamos estar muito, muito a frente. Nós comemoramos que uma votação para restringir o direito ao aborto foi adiada, quando deveríamos estar lutando por sua completa legalização.

O Brasil regrediu do Congresso para dentro, apesar de ter efervescido do lado de fora.

A meu ver, as mulheres e os movimentos sociais em geral sofreram baques institucionais que vão demorar para ser revertidos. Os conservadores são mais numeroso do que nunca e contam com muito apoio popular (que indica que a tendência pode se manter nas próximas eleições). Com ou sem Cunha, vamos agonizar nas grandes esferas do poder e usar de toda nossa artilharia para não regredir. Nesse momento, estamos perdendo a batalha.

O lado bom é que não perdemos a guerra - e nem perderemos - porque o que está em jogo é a nossa cidadania, nossos direitos, nossa vida. Há muitos aspectos cruciais de nossas vidas que podem ser perdidas com o avanço conservador, o que significa que temos motivo para continuar lutando. Respira fundo, levanta e anda, porque são nos momentos difíceis como esse que se torna mais importante fortalecer nossas redes, dar apoio umas as outras e estudar, aprender e compartilhar. Em momentos de trevas, quando percebemos que (quase) não há ninguém nos representando, iniciativas como a Comum ficam ainda mais importantes para que a gente se empodere e mostre que não estamos de brincadeira. Que não é contra uma, é contra todas. Ser mulher no Brasil é uma batalha constante.


Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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