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Beleza feita em casa: autonomia e empoderamento

O entendimento do que é belo, o consumo de cosméticos e até a autoconfiança das mulheres no Brasil ainda são bastante pautados pelas celebridades das novelas globais e pela influência das blogueiras. A beleza (ou a falta dela) é definida pelos produtos usados por mulheres que correspondem a um padrão que não gera identificação com a realidade da maioria. Muitas vezes as inserções na mídia que parecem tão legítimas são fruto de um esforço muito grande da indústria em estabelecer desejos e vontades, com o único objetivo de incentivar o consumismo.

Dentro desse cenário, algumas mulheres resolvem assumir uma beleza mais natural e trocar uma prateleira inteira de cosméticos por produtos feitos em casa, muitas vezes com ingredientes da própria cozinha. Além disso, a falta de confiança no mercado tradicional faz com que elas prefiram pequenas marcas artesanais em vez de grandes indústrias. Óleos vegetais, extratos de flores e plantas são apenas algumas das opções.

A nova rotina traz autonomia, um relacionamento mais sensível com o próprio corpo e maior alinhamento com questões sociais e ambientais. Esse comportamento lowsumer compreende fazer os próprios cosméticos, repensar o consumo, diminuir a produção de lixo, resgatar conhecimentos esquecidos, escolher de forma consciente e não permitir a influência da mídia na aceitação da sua própria beleza.

Autonomia nas escolhas

É no cuidado com os cabelos que a beleza natural encontra o empoderamento da mulher com mais frequência. A reprodução do senso comum, que cultua o “liso e loiro”, tem sido rejeitada por mulheres que optam por aceitar as características genuínas dos seus fios e passam a cuidar deles com produtos naturais.

Os métodos para mudança permanente do formato capilar começaram a aparecer no início do século XX, primeiro com o objetivo de criar ondas e, a partir de 1959, com técnicas para promover o alisamento. Sessenta anos depois, dizer não a esses procedimentos é sinônimo de liberdade e aceitação de si mesma.

Quem faz parte deste movimento de libertação da chapinha tem narrativas parecidas, que em geral começam antes dos dez anos de idade com a sensação de inadequação na escola. Os métodos de alisamento são muito cansativos e essas mulheres se sentem reféns, tendo que repetir o tratamento periodicamente. Reverter o processo também não é nada fácil. Para que a identidade crespa ou cacheada delas reapareça, é necessário um período de transição, em que o cabelo vai crescendo e a parte com química é cortada. A ideia é realmente começar do zero. Este novo caminho pode ser totalmente livre de ingredientes químicos tóxicos. A técnica No Poo sugere a lavagem sem shampoo. Bicarbonato de sódio e vinagre migram da cozinha para o banheiro, onde ganham nova função.

A história da ilustradora Paola Saliby é sobre cabelos e aceitação. Diagnosticada com alopécia androgenética (ou calvície por causas genéticas), ainda em tratamento hormonal, Paola raspou os cabelos. Ela criou o blog Bald Hair Day para abraçar mulheres que passam pela mesma situação e mostrar que essa condição existe.

“Quando decidi raspar o cabelo, parei de lutar contra o que é natural no meu corpo. Quando eu digo que raspar a cabeça é libertador não é só por ser mais prático, mas também por ter me feito enxergar outras coisas importantes sobre mim que estavam escondidas. Isso refletiu na maneira como vejo outras pessoas também, com menos julgamento e mais empatia.”

Hoje, no lugar de tomar remédios, ela prefere cuidar da alimentação. Também substituiu os produtos de beleza, como shampoo, sabonete e cremes, por opções veganas ou com certificação orgânica. “Em breve quero experimentar fazer meus próprios cosméticos, mas não com o desejo de curar minha queda.”

Mas não é só quem passa por mudanças radicais que experimenta a autonomia nos cuidados pessoais. Questionar a indústria dos cosméticos é uma atitude feminista. Ao boicotar marcas que insistem em padrões estéticos específicos, as mulheres comunicam à indústria que não se sentem representadas pelas alegações do setor de marketing.

Na impossibilidade de fazer tudo em casa, optar por comprar de pequenas marcas também pode trazer independência para outras pessoas. Distribuir o dinheiro entre pessoas reais, e não grandes empresas que pertencem a grandes corporações, diminui a desigualdade social.

Quanto menos elos a cadeia de produção tem, mais justa tende a ser a distribuição.

Caminhos conscientes

Aprender a fazer o que só se imaginava possível comprar é dar um passo para longe das expectativas do mercado. Evita os excessos, é saudável e proporciona o resgate de sabedorias de gerações anteriores ou de culturas que valorizam a natureza. Segundo Denise Bernuzzi de Santana, autora do livro História da Beleza no Brasil, antigamente a beleza se fazia com quase nada:

“Para melhorar o aspecto da face, as receitas caseiras abarcavam desde pastas feitas com pepino, morango e alface, até o uso de ‘pós de arroz falsificados’. As sardas podiam ser tratadas lavando diariamente o rosto com a água que limpava o arroz.”

Adina Grigore escreveu o livro Skin Cleanse, onde conta os incômodos que inspiraram a criação de sua marca de beleza natural, a S.W.Basics. Os produtos levam no máximo cinco ingredientes, todos fáceis de encontrar em qualquer cozinha. Recentemente a marca lançou uma linha D.I.Y. (faça você mesma) com ingredientes puros para que seus consumidores possam ter a mesma experiência que a idealizadora ao testar receitas e ingredientes puros na pele.

Investir em matérias-primas mais nobres e extraídas de forma sustentável não implica em um orçamento diferente do que se estava acostumado. Acontece uma troca de moeda, paga-se pela qualidade e não pela marca, embalagem ou celebridade estampada na publicidade. Deixa de existir o ciclo vicioso do novo, a busca pelo último lançamento nas prateleiras das farmácias. O conhecimento vai sendo adquirido por experimentações em um ritmo lento e suave. Aproveita-se melhor o tempo, com uma atividade prazerosa que é totalmente revertida em benefícios.

Deixar de participar do ciclo consumista proposto pelas marcas de beleza também é uma atitude sustentável. Quanto menos produtos, menos impacto ambiental e menos descarte. Em um inocente banho, são incontáveis as substâncias sintéticas que escorrem pelo ralo. Um exemplo são as microesferas plásticas, pequenas esferas encontradas em sabonetes, pastas de dente e esfoliantes. Elas não são retidas pelos sistemas de tratamento de esgoto e acabam indo parar no oceano. Junto com outros pedaços de plástico são engolidas por animais marinhos, causando danos irreversíveis.

Uma rotina possível

Quem procurar essa mudança vai passar por uma fase de aprendizado, para entender suas opções e fazer escolhas melhores. Se obter informações relevantes da embalagem de um alimento é um desafio, na embalagem de um cosmético é ainda mais difícil. A busca frustrada pela transparência faz com que seja necessário aprender a ler rótulos, entender certificações e desvendar nomes estranhos, como Sodium Laureth Sulfate ou Methylparaben, em produtos cujos componentes são prioritariamente sintéticos. Nessa etapa, vale procurar por nomes e ingredientes que se pareçam com o que encontramos na natureza (como extratos de flores ou óleos vegetais), listas de ingredientes concisas e certificações orgânicas ou naturais.

A ideia de selecionar apenas os produtos saudáveis para uso pessoal não é exatamente nova. Em 1999, o Greenpeace lançou um guia chamado “Cosmetox”, onde classificou produtos de beleza e higiene de acordo com as substâncias tóxicas que continham. Trabalho parecido pode ser encontrado no site da organização não-governamental Environmental Working Group, em que se pode consultar fórmulas e componentes cosméticos.

Assim como a indústria do embelezamento convencional, a beleza natural trata de alimentação, cosmética, saúde e atividade física. Sentir-se bem é cuidar de dentro para fora: consumir comida fresca, ingerir bastante água e colocar o corpo e a mente em movimento.

Não existem regras na beleza natural, muito menos respostas 100% claras. É preciso criar os próprios critérios e segui-los o tempo todo. As possibilidades envolvem produtos não testados em animais, receitas veganas ou fórmulas totalmente naturais.

São opções individuais que fazem parte de um movimento maior que prioriza o bem-estar e a saúde, ressignifica a vaidade e compreende que nossas escolhas têm impacto na sociedade e no meio ambiente.


Um convite: encontro de Beleza Natural com a Fê Canna, em São Paulo

Pra falar mais sobre o assunto e botar a mão na massa, a gente puxou um encontro prático com a Fê Canna, autora desse texto, dia 11 de junho, sábado, na Vila Madalena, SP. Assinantes da Comum tem desconto. :) Mais informações e link de inscrição aqui.


Texto publicado originalmente no Ponto Eletrônico.


Fernanda Canna acredita no poder transformador da informação. Tenta viver uma vida alinhada com seus valores, é vegetariana, consome alimentos orgânicos e faz seus próprios cosméticos. Fundou a Canna, marca de bolsas veganas, e criou a Jornada Beleza do Bem, pra ajudar quem deseja fazer escolhas melhores em relação a sua rotina de beleza. Também é colunista de estilo de vida consciente e escreve uma newsletter sobre semanal sobre o tema.

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