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Não é porque ela está no tinder que está disponível pra você

Passei um tempo em alguns aplicativos como o tinder, happn e okcupid. Eu e vários amigos e amigas. 

De repente, comecei a receber milhares de solicitações de amizade de homens no facebook.

Sempre recebi vários pedidos de pessoas desconhecidas, por conta do meu trabalho com web, (com a comunidade do Cinese, da Comum e escrevendo). E aceitava a grande maioria, era parte da minha política de trabalho. Mas, do nada, o volume passou a ser enorme. E eu não entendia bem o porquê.

Aí, além das solicitações, algo bastante incômodo começou a acontecer. Passei a ser bombardeada por mensagens como essas:

Além das mensagens no facebook, comecei a receber emails. Direct no instagram. SMS, whatsapp (acreditem). Vira e mexe, de todo o meio de comunicação possível surgia algum cara achando que podia fazer aquilo. Que era ok invadir meu espaço pra me xavecar só porque viu meu perfil lá, no tinder.

Bateu um desespero breve: era a rede catapultando a mesma lógica de assédio das ruas.

Vi amigas passando pelo mesmo. E não, não é que a gente é incrível e todo mundo quer sair com a gente. São só os homens reproduzindo, nessas ferramentas e na web, o mesmo padrão de comportamento machista da vida real: te vi, quero falar com você e vou fazer isso, independente da sua vontade.

O espaço da paquera está limitado ao aplicativo. Se você curtiu no tinder, mas não rolou combinação, se você mandou charme no happn ou mensagem no okcupid e nada aconteceu, o recado é o seguinte: a menina não quer interagir com você naquele momento. Simples assim.

Sair desses espaços e buscar a moça nas redes (ou pessoalmente) e enviar mensagens insistentes é ultrapassar limites. É invadir. É reproduzir a mesma cultura de assediar na rua. De um jeito ou de outro, o espaço dela não está sendo respeitado.

Indo um pouco mais longe, é perpetuar a lógica de que, se a mulher está lá, no aplicativo, está necessariamente disponível. E claro, pode ser sua, a qualquer momento.

Estamos cansadas de passar por isso em bares, baladas e espaços públicos, quando estamos sozinhas ou com outras amigas — ou seja, sem nenhuma presença masculina. Mulher sem um homem na rua é mulher sem dono, é um corpo disponível, no sentido amplo da palavra. Está à mercê do destino. Pode ser olhada de cima a baixo, assediada e desrespeitada. Pode ser do que vier primeiro. É obrigada a dar atenção pra qualquer cara que mexe com ela, se não, está sendo mal educada, é mal amada:

"O que você tá fazendo sozinha aqui, linda?"
"Cadê seu namorado? Não acredito que você não tem um!"
"Se eu fosse seu namorado não te deixava sair sozinha assim."
"Tô falando com você, olha aqui pra mim. Ou você tem namorado?"

(Que mulher nunca ouviu isso?)

Quantos textos, campanhas, hashtags e tedtalks vão ser necessários pra gente entender que o machista comum não é o estuprador, é o cara normal, que manda mensagens indignadas pra menina no facebook porque ela não correspondeu aos chamados dele no tinder?

Desrespeito (e machismo) não é só violentar, passar a mão na rua e puxar o cabelo na balada — é não enxergar linhas tênues que separam o seu espaço, a sua vontade, do espaço e da vontade dela.


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Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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