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Nossos corpos (ainda) são campos de batalha

Certa vez ouvi uma frase que nunca mais esqueci: “Eu sei que ela é mulher porque o Estado está tentando regular seu corpo”. Já nem lembro mais quem era a “ela” em questão, mas a mensagem não poderia ser mais verdadeira. Não há uma época da qual consiga me lembrar em que nosso corpo não foi o palco das disputas políticas e onde as regras sociais se condensavam.

Agora não é diferente. Continuamos a travar inúmeras batalhas pelo nosso próprio corpo, mas uma em particular me chamou a atenção essa semana: a proibição dos burquinis em várias cidades francesas. O traje está no centro da tensão religiosa em uma França apavorada pelo terrorismo e é tido como o símbolo máximo de um modo de vida retrógrado e patriarcal que seria incompatível com os valores ocidentais, pretensamente libertários para as mulheres. Por isso, foi proibido, sob pena de multa para quem infringisse a lei.

Não demorou e o absurdo da proibição começou a ficar bem evidente: policiais exigiam que as mulheres se despissem nas praias francesas. Estavam usando roupas demais. Em Nice, um caso ganhou repercussão quando fotos mostraram quatro policiais armados abordando uma mulher de meia idade e exigindo que ela tirasse o burquini. “O Estado regulando o corpo da mulher” não poderia ter ficado mais literal.

O país que tem a liberdade como um dos pilares e que sempre se gabou de ser o terreno fértil das ideias e da razão simplesmente proíbe que mulheres de uma religião expressem sua fé porque parte do princípio que todas elas são oprimidas e sem poder de escolha, automaticamente subjugadas só por serem muçulmanas - o que uma conversa rápida mostra que não é verdade.

A França está sob ataque de um grupo minoritário de fé islâmica e sua primeira resposta foi oprimir e regular todas as mulheres da religião, mostrando não só intolerância como um completo desconhecimento do modo de vida de um grupo expressivo de sua população. Nós somos sempre as primeiras a ser atingidas, estamos no meio de um fogo cruzado.

Agora, na França, usamos roupa demais (“É uma provocação”, como disse o ex-presidente Nicolas Sarkozy). Aqui no Brasil, usamos roupa de menos (e por isso causamos nosso estupro). Usamos muita maquiagem, muito decote, pouco recato. Não fechamos as pernas, devemos tomar a pílula, não pode abortar. A cartilha de regulações impostas a nós varia.

O que não muda é que ser mulher, em qualquer lugar do mundo, é resistir.

PS: No dia 26 de agosto a justiça francesa derrubou a proibição do burquini em um município na região de Nice, o que pode ser um precedente para outros municípios. A proibição do traje foi considerada ilegal e sem argumentos.

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