`

Sobre a possibilidade de dizer sim e não na hora do sexo

Ficou com o cara, foi super legal, viu estrelas, arco-íris, borboletas multicoloridas, unicórnios e o pote ouro, mas chegou em casa super arrependida, afinal, quanta liberdade, ele nunca mais vai querer te encontrar, você se comportou exatamente como “aquele tipo de menina” que a sua avó quando vê balança a cabeça em negativa. “Todos irão pensar as piores coisas de você”.

Tá! Estou escrevendo esse texto pra você, é, você sabe, estou falando diretamente contigo. Então vamos lá, preste muita atenção:

Antes de continuar devo perguntar e você me prometa refletir antes de continuar:

( ) Você curtiu mesmo, se sentiu livre, te deu vontade de mais, teve um momento no qual foi movida totalmente pelo seu prazer.

( ) Se sentiu de alguma forma invadida e fez por algum prazer que em nada tem relacionado com o seu próprio?

Se você assinalar a primeira opção, espera só mais um pouquinho, mas se você se identificou mais com a segunda continue comigo, mas descarte a parte das borboletas e o pote de ouro, o texto serve para você também, mas bem lá na frente, ok?

Tenho vergonha de coisas que me causam arrepios

É minha cara e milhões de mulheres se envergonham de sentir. O “dom” do prazer nos foi historicamente negado e até mesmo roubado, mas isso não significa que somos incapazes de senti-lo. Muito pelo contrário, temos um corpo e com ele podemos fazer tudo. Entretanto, desde pequenas somos educadas a esconder qualquer traço de sexualidade, nos convenceram que devemos ser sempre neutras. Nossas mães, nossas avós – e todas as que vieram antes delas – passaram a vida inteira acreditando ser o prazer irmão gêmeo do pecado, algo imoral, indecente, coisa de “moça torta que nunca se endireita”, ato mal visto aos olhos de “Deus” – que coitado leva a culpa por um monte de coisa de errada que existe no mundo.

Sendo assim, não é de se estranhar certo arrependimento depois de um sessão intensa de liberdade – aquele momentinho que uma voz muito familiar te assopra no ouvido todos os velhos discursos sobre o bom comportamento feminino. Discurso que incluiu a passividade, generosidade e obviamente a castidade, como elementos cruciais da conduta da “mulher decente”.

Como fugir desse sentimento de culpa se desde cedo fomos ensinadas a julgar certos comportamentos, a apontar o dedo pra garota de saia curta, que permite ter a mão de alguém depositada em suas coxas? Não é tarefa fácil, mesmo em um sociedade que se diz tão libertária, mas se mostra ainda tão puritana e machista. A verdade é que levamos a nossa tataravó quando vamos para cama com alguém e você deve saber que na época dela as coisas eram ainda mais complicadas para nós.

A história vem lá de trás e por isso é tão delicada, muitos dizem que a mulher já conquistou tudo: o direito de voto, o direito a possuir uma carreira, a escolha de ter ou não filhos. Dizem que nos emancipamos, porém ainda não nos deram passe livre para usarmos o nosso corpo.

Proclamaram teorias, nos dizem ser menos propensas a cedermos ao desejo, contam histórias estranhas nas quais os homens possuem algumas necessidades, nos pedem compreensão, colocam a culpam no tal do DNA, prezam tanto a nossa racionalidade, mas na hora de se discutir sexo nos equiparam aos animais. Realmente não dá para entender.

Por isso convido você a pensar comigo. Você, mulher, que passou o último final de semana totalmente derramada em suas culpas . Olhe para cada uma das suas ações – não só aquelas que você possui na cama – várias obrigações, milhões de responsabilidades, uma vida inteira lotada de decisões, porquê quando você decide escolher se permitir a ter prazer isso é errado?

Se você sabe que é isso o que você quer, que não faz mal, não mata, não é crime, te faz bem, te faz feliz e é bom. Qual sentido existe quando nos dizem para nunca ceder, nos ensinam a usar sexo como arma de poder, como objeto de troca de amor, quando sexo está apenas relacionado a uma vontade, que claro deve ser consciente e responsável , de entrar em contato com outro corpo? Somos obrigados a responder por todas as nossas ações então vamos parar de deixarem dizer o que é certo ou errado na relação com o nosso próprio corpo?!

Combinado?!

Tenho vergonha do que não me causa arrepios

Chegou em casa e bateu aquele puta arrependimento? A verdade é que você não queria, teve vergonha de não querer e deixou as coisas acontecerem, saírem totalmente do seu controle. É, acontece, mas isso acontece pelo mesmo motivo já mencionado. Não nos deixam ser donas do nosso próprio corpo e acabamos por acreditar que ele não sendo nosso, ele está para servir ao prazer alheio.

É, não nos ensinam muito bem. Nos tiram a capacidade de conhecer o nosso corpo, nos lotam de proibições e vergonhas e assim acabamos nos submetendo a vontade do outro, por achar ser essa a nossa obrigação. Você não estava a fim de nada disso, mas ele estava e as coisas aconteceram totalmente independentes de você.

Escute o seu corpo. As coisas têm que depender somente das suas decisões, não deixe ninguém dizer como é melhor usá-lo, você sabe, certamente sabe. E mesmo que ache que a sua resposta não é a mais apropriada, acredite em mim, ela é!

O momento em que abdicamos do nosso corpo é o momento exato no qual nos negamos à capacidade do prazer. E como já disse, o merecemos. Somos responsáveis por nós mesmas lembra? Somos as mesmas mulheres que diariamente encaramos a vida e não vamos deixar de sermos dignas de nós mesmas caso nos permitamos a dizer mais não e mais sim!

Precisamos encontrar a nossa expressão sexual, mas isso não se faz do nada, é necessário nos permitirmos, entender a diferença entre os que nos delegaram desde sempre e o que merecemos desde sempre, mesmo que nos digam não.


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Nina Franco é jornalista e acredita que falar sobre mulheres vai muito além dos manuais de tendências e maquiagens. Em 2015 escreveu o Ebook "Sexualidade Feminina, uma história em construção". Hoje se dedica a pesquisa na área de antropologia, sexualidade e gênero. 

Área de login
Bem-vinda, (First Name)!

Esqueceu a senha? Mostrar
Entrar
Acessar área logada
Meu perfil Não é usuária? Cadastre-se Sair