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1 em cada 3 brasileiros acha que mulher tem culpa por estupro. O que isso diz sobre nós?

Quando alguém rouba seu carro, quem é o culpado?
Quando alguém pixa o muro da sua casa, quem é o culpado?
Quando te dão o troco errado, quem é o culpado?

A gente tem muita clareza de culpa quando falamos de propriedade privada. O carro, a casa, o dinheiro. Tudo isso é meu e ninguém pode tocar sem que eu permita. A posse é um sentimento muito claro para nossa sociedade. É meu, eu consegui, só eu posso decidir o futuro disso.

Porém a posse oprime quem não tem oportunidade de ter. E aí existe o roubo, a violência, a agressividade. Quem não tem quer o que o outro tem. A gente escuta todos os dias que precisa ter isso e aquilo para ser feliz. Ninguém fala como chegar ali.

Mas e quando a polícia bate em um manifestantes, de quem é o erro?
Quando um morador de rua é agredido, de quem é o erro?
Quando uma mulher é agredida fisicamente em casa, de quem é o erro?
Quando uma mulher engravida e é abandonada pelo homem que participou do sexo, de quem é o erro?

Nós, enquanto sociedade, ainda não entendemos que pessoas não fazem parte da propriedade privada. Nem que vidas importam mais do que coisas. Nem que você não é dono da pessoa que está ao seu lado. Nem que quem está na rua não se torna propriedade pública.

Isso vem de longe. Um dia alguém resolveu que era hora de ter algo só dele. Aí cercou um cantinho de mato e colocou uma plaquinha. As outras pessoas foram no embalo. Mas no meio disso tudo estavam as relações interpessoais. Mulheres engravidam, mas não tem como você saber quem é o pai se ela não quiser falar. Pronto, alguém teve uma ideia, cerca esse cantinho de mulher e coloca uma plaquinha. Pra deixar mais bonito colocaram o nome de casamento.

Daí pra frente as coisas foram ficando cada vez mais feias. Os pais vendendo as filhas, as mulheres sem liberdades, os caras votando em nome delas... A democracia e todos os benefícios que esse rolê da propriedade privada deram aos caras não chegaram em nós.

Acelera a linha do tempo e vem pra 2016. Chegamos nesse belo Brasil cheio de avanço tecnológico, bonito por natureza e tal. Aí o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com o Datafolha, fazem uma pesquisa que tem o seguinte resultado:

um em cada três brasileiros concorda que a mulher vítima de estupro é, de alguma forma, responsável pela violência sexual sofrida

Ah, mas como eles chegaram nesse número? Simples. A pergunta foi: amorzinho, me fala se você concorda com essa frase aqui, ó.

"A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada"

Aí, 30% dos amorzinhos disseram: rapaz, concordo demais com isso! Pronto. Tá aí o resultado, sem mistério, tecnologia ou feitiçaria. Mas não para por aí: o número de gente que concordar com a frase aumenta de acordo com a idade (mais de 35 anos e idosos são um sucesso no preconceito, pelo jeito), entre as pessoas com menor grau de escolaridade e se vivem na região Norte do país (38%).

Outra pergunta teve a seguinte frase como isca:

"Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas"

Quer saber o resultado já ou prefere deitar em posição fetal antes? 37% dos entrevistados concordam com a afirmação. Tem diferença entre homens e mulheres? Tem, sim senhor. 10%. Eles com 42% e elas com 32%. O feminismo, amigas, ainda não foi muito longe.

Só que como quem tem vagina, tem medo, o número de mulheres que diz que sentem medo de ser estupradas é de 85% - entre os caras é 46%. Quanto mais nova a mulher é, mais medo tem. No norte chega a 87,5% e no nordeste nove em cada dez mulheres têm medo de se tornar estatística.

Tá, Carol, mas você ainda não falou o que isso diz sobre a gente...

Falei nas entrelinhas, né, mas aqui está com todas as letras: ainda tratamos as mulheres como no período feudal. As pessoas ainda enxergam cerquinhas ao nosso redor. Somos propriedade de alguém, mas nunca nossa, é claro.

E o que você faz quando quer uma propriedade que é do outro? Você toma para si.

Mulheres são desumanizadas, objetificadas e vistas como alguém que tem a obrigação de dar o que o outro quer. Seja amor, carinho, um copo d'água ou sexo. Somos ensinadas a servir. E enquanto nos ensinam isso dão um exemplo claro aos meninos: você está do outro lado do balcão.

Sabe aquela máxima de “eu to pagando”? Para mulheres ela tem o mesmo tom, mas não envolve nada além da vontade do outro. Nossos corpos são tidos como públicos – até que alguém coloque a plaquinha no nosso pescoço, ou a aliança no nosso dedo -, nossos desejos como inexistentes, nossa vontade como inaudível.

Somos bonecas infláveis que respiram. E enquanto não discutirmos gênero na escola, falarmos sobre educação sexual de qualidade e o feminismo não for disseminado verdadeiramente, esse números só vão subir.


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Carol Patrocinio é jornalista e divide seu tempo entre escrever para diversas publicações sobre assuntos relacionados ao mundo feminino e ao feminismo, como o Ondda, seu canal no Medium, vídeos no Youtube e consultorias para negócios que querem falar com as mulheres.

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