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O que o futuro nos reserva após o golpe?

Imagem: Fotos Públicas / Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Imagem: Fotos Públicas / Marcelo Camargo/ Agência Brasil

“A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta. Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.”

O trecho acima é parte do discurso de Dilma Rousseff após a oficialização da cassação de seu mandato pelo Senado, dia 31 de agosto. De lá para cá, o novo (e agora oficial) governo já legalizou as mesmas pedaladas que tiraram Dilma do poder, retirou a urgência de medidas anti-corrupção, voltou a apoiar a reforma previdenciária, a terceirização irrestrita e a flexibilização na CLT.

Os protestos contra Temer são enormes, mas a repressão policial é ainda maior.  A arbitrariedade toma conta de maneira cada vez mais explícita e o Estado de exceção já virou regra.

É jovem perdendo a visão de um olho, bomba dentro do metrô, ataque a manifestação pacífica, atropelamento proposital de manifestante. É 2016 com um gosto amargo de 1964.

Se não fizermos nada o futuro que nos aguarda é obscuro. Mas o que fazer frente a um sistema tão poderoso? Como vencer uma massa conservadora que ganha cada vez mais força e apoio popular? Como lidar quando até o apoio a democracia diminuiu? (Foi de 54% para 32% da população, como demonstra esta pesquisa) De onde tirar força para continuar lutando contra o governo e suas medidas conservadoras?

Eu não sei. Começo a me assustar de verdade com as notícias (e com a falta delas em assuntos igualmente importantes). Me assusta ver a arbitrariedade, as demissões políticas, a falta de representatividade, o descaso com o povo e com o voto e, acima de tudo, como isso vem sendo feito às claras, sem medo nenhum de punição. São tempos sombrios, não resta dúvida.

As perspectivas não são nada animadoras: todas as medidas sinalizadas por Temer fazem parte de uma agenda conservadora e eleições gerais antes de 2018 parecem ainda um sonho sem conexão com a realidade. Não tem apoio popular suficiente e, ainda mais importante, não encontra aliados de peso no nosso Congresso. Nem poderia, já que ali se concretizou o golpe. Nosso legislativo tirou Dilma do poder, empossou Temer e corre o sério risco de livrar Eduardo Cunha da cassação.

A gente já sabe para onde a coisa vai se não fizer nada, e essa é minha maior motivação para gritar. Em tempos como esse é que nossa luta se faz tão necessária e poderosa. Muito longe de assinar embaixo o governo Dilma - que foi marcado por retrocessos -, faço minhas as palavras dela em seu discurso de despedida. O golpe é machista, homofóbico, racista e classista, e não dá para não fazer oposição a um governo que se ergue com essas bases.

Como em tantos outros momentos da História, eles comemoram a batalha vencida e torcem para que a guerra acabe ali quando na verdade ela está só começando. O futuro caminha para ser sombrio, sim, mas de muita, muita luta. Simplesmente porque não dá para não lutar. Simplesmente porque lutar é o que nós mulheres fazemos de melhor.


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Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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