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Existe uma importância enorme nas fanfics e shippagens de casais LGBT, sabia?

Antes de tudo acho que é importante explicar esses termos:

Shippar vem da união de friendship e realtionship (amizade e relacionamento). Pode ser quando já existe um casal e os nomes são unidos ou quando as pessoas gostariam que existisse um casal, então você shippa aquelas duas pessoas.

Fanfic é uma história de ficção escrita por fãs que segue rumos diferentes dos que têm os personagens de filmes, séries, quadrinhos, videogames...

Agora preciso assumir que não entendia muito bem o sucesso que faziam os fóruns de shippagem e as fanfics em torno de casais de lésbicas de séries, reality shows, livros, filmes e afins. Eu via minhas amigas enlouquecendo com aquilo e ficava com cara de dúvida, afinal, eram só casais. Mas tem algo muito maior aí.

Eu, mulher bissexual, vinda de uma família extremamente aberta e com familiares LGBT, não tive dificuldades de lidar com minha orientação sexual. Um belo dia assumi que gostava também de ficar com meninas. Depois de algum tempo comecei a namorar uma garota e a apresentei em casa como sempre tinha feito com os garotos. Simples e direto. Exceção pura.

Depois de algum tempo passei a entender que essas histórias servem para cumprir um papel que a mídia não cumpre: mostrar diversidade. Ou como diz Shonda Rhimes, criadora de Grey's Anatomy e outras séries, normalizar a TV. Se pessoas não-brancas, não-hetero, não-cisgênero existem, porque as mídias tratam como se elas fossem invisíveis ou se apenas existissem de maneira coadjuvante?

Nos fórum, blogs, grupos e outros meios de troca de informações virtuais as pessoas conseguem se encontrar. Não importa se é uma narrativa que não existe, se são personagens criados por um autor ou se são pessoas do mundo real que não têm mais um relacionamento. O que importa é encontrar meios de se enxergar ali, se ver, saber que está tudo bem e não se sentir sozinho, excluído do mundo.

São nesses lugares que muitos adolescentes, jovens adultos e pessoas mais velhas encontram respostas. Ali nascem amizades, amores e descobre-se como lidar com a família. Esses grupos funcionam como uma espécie de terapia em grupo com a vantagem de poder manter o anonimato enquanto se sentir necessidade.

Nas palavras da Shonda, no discurso do Humans Righ Campaign:

“Recebo cartas e tuítes e pessoas me param na rua. Elas me contam tantam histórias incríveis. (…) Ou os adolescentes, cara, que me dizem que aprenderam a linguagem para falar com os pais sobre ser gay ou lésbica. As garotas adolescentes que encontraram uma comunidade de colegas e de apoio online por conta do relacionamento Callie-Arizona – Calzona.
(…)
Houve momentos em minha juventude em que escrever essas histórias na Shondaland literalmente salvou minha vida. E agora jovens me dizem que literalmente salva a vida deles.
(…)
E todas as vezes se resume a uma coisa.
Você não está sozinho.
Ninguém deveria estar sozinho”

É engraçado pensar que tudo que está na internet pode ter uma função muito além da que conseguimos enxergar. A habilidade de usar o que se tem a mão para criar um mundo mais complacente não nasceu na internet, é claro, mas ganhou proporções enormes.

Aqui na Comum existe algo assim: usamos a internet e o fórum para encontrar pessoas que nos olhem com generosidade e nos ajudem a encontrar caminhos possíveis, mas que ainda estão escondidos quando olhamos ao redor. Aqui falamos sobre a realidade, mas talvez só tenhamos isso à mão porque nos encontramos em algum momento e pudemos enxergar a verdade em nós.

Ninguém quer estar sozinho sem que isso seja uma escolha consciente. Ninguém quer ser invisível. Ninguém quer ser levado a acreditar que não há ninguém parecido com você, que sente como você, que se comporta como você.

E é aí que reside a importância das fanfics e shippagens: elas nos ajudam a lembrar que está tudo bem, que não estamos sozinhos, que nossa narrativa pode ter diversos caminhos e que eles podem ser muito mais positivos do que a gente imagina.


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Carol Patrocinio é jornalista e divide seu tempo entre escrever para diversas publicações sobre assuntos relacionados ao mundo feminino e ao feminismo, como o Ondda, seu canal no Medium, vídeos no Youtube e consultorias para negócios que querem falar com as mulheres.

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