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As vontades de amor em tempos de matches

Imagem: Marion Fayolle

Imagem: Marion Fayolle

Marquei no relógio. Vou passar 5 minutos chorando por ele. Só isso. Depois paro, seco o rosto, vou seguir em frente. Tenho feito isso agora. Dá certo. Ajuda, também, eu saber que não é por ele que eu estou chorando. Ele é só um cara. Eu choro pelo amor que vem e vai embora, eu choro pelo amor que morreu há pouco tempo, eu choro pelo amor que talvez nasça, eu choro pelo amor que ainda não nasceu mas eu já sei que vai morrer, eu choro porque tenho um medo terrível e uma grande vontade e porque não aprendi a estar tão vulnerável quanto o amor quer que eu esteja. Eu choro também porque ainda não posso chorar por amor. Ele é só um cara. Eu gostaria que ele fosse o amor. Mas ele é só um cara.

Ele é só um cara entre outros caras. Passa uma semana e esqueci. Outro cara. Passa uma semana. Não sei se ele fica. Eu quase não conheço ele, mas gostaria que ele ficasse. Sinto essa pontada de uma perda que poderia ser minha, mas ainda não chegou a ser (como se eu visse alguém perdendo a perna e sentisse, por empatia, a dor na minha própria perna, que segue intacta). Eu sinto essa perda de um futuro hipotético, e é ela que me dói. 10 minutos. Vou chorar aqui, rapidinho, vai passar. É claro que não é por ele que eu estou chorando, eu mal conheço ele, não faria sentido nenhum. Eu choro porque poderia ter sido. Mas não foi, não é, eu acho que não vai ser. Poderia ter sido, quem sabe. Algo me diz que teria sido bonito.

Mas ele é só um cara. Passa uma semana e esqueci. Outro cara. Não sei se dá certo. Ele está em Y, eu estou em Z, ainda que ele beije a minha boca e eu esqueça. Desapegado. Dessincronizados. Não sei se dá certo. Sinto uma grande angústia por não compreendê-lo e não prevê-lo e não decifrá-lo. Sinto uma grande angústia e começo a pensar no fim, não sei se quero que termine, mas também não quero que continue. 15 minutos. Vou chorar um pouco e estou livre.

Chega um momento em que me pego querendo logo atear fogo a essa aleatoriedade que é estar vivo entre seres vivos. E conhecer alguém e se depositar em alguém e se frustrar com alguém e se recompor… para conhecer outro alguém — e lá vamos nós de novo, mais uma vez, e outra vez, um cansaço, meu deus, que cansaço, esse ciclo não termina nunca, parece que faz anos que estou presa nessa roda gigante, começo a ficar enjoada, eu quero descer, mas ela não para. Estou tão cansada que vou chorar um pouquinho, marquei, 20 minutos. Ele é só um cara, eu sei, mas não é por nenhum ele que estou chorando. De repente, fecho os olhos e enxergo um amontoado de caras, todos esses rostos incompreensíveis que deixei passar — por escolha ou por falta dela. Todos esses rostos que amei um pouquinho ou desejei violentamente, todos esses rostos que, por algum tempo, me fizeram pensar que era aquele rosto que eu gostaria de ver para sempre. Ou não. Ou ver só por uma noite inteira, bem perto do meu, respirando no meu ouvido (também é bom, desejar é uma forma de amar, de querer por perto). Fecho os olhos e sou olhada por todos esses rostos incompreensíveis que tampouco me compreenderam ou me alcançaram ou que eu fui incapaz de amar — e agora já são 30 minutos, 50 minutos, uma hora inteira de um choro antigo que parece ter se desprendido de algum lugar, como acontece uma vez a cada alguns anos.

Mas, de repente, esse amontoado de caras também me diz que é assim mesmo. Faz parte. Ou será que você não lembra daquela vez que estava apaixonada e depois percebeu que vocês não teriam dado certo mesmo, ele era de direita e odiava feminismo? Será que não lembra daquele romance do qual você saiu mais atropelada que criança em aniversário de Guanabara, mas, meses depois, foi perceber o quanto aquela história tinha te transformado? Faz parte, eles dizem. Nem tudo é feito pra durar. Ou pra dar certo. Às vezes, é isso, é só isso. É o que tem pra agora. Em algum outro momento, talvez vocês se reencontrem. Talvez, não. Talvez os erros de agora façam algum sentido amanhã. Talvez o desencontro leve a um encontro novo amanhã. A um reencontro depois de amanhã. Quem pode prever?

Nós, não. O que se pode prever a gente conta na ausência de dedos. Marquei no relógio: 60 minutos, meu limite ultrapassado pra compensar nos próximos caras. Nada de chorinhos catárticos por 1 mês. Por agora, me afasto do rosto vermelho, dos soluços de criança ressentida. Vou retomando o fôlego, reabrindo um riso calmo, me permitindo saltar pra entrega de quem deixa nas mãos da vida e confia que ela (mais do que eu) vai saber escolher quem deixar pra trás. A entrega de quem sabe que a roda gigante não para mesmo, então só o que se pode fazer é aproveitar a vista. Abro o Tinder. Uma cerveja qualquer dia, pode ser? Claro, que dia? It’s a match. Você e um desconhecido podem, quem sabe, mudar a vida um do outro.


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Texto publicado originalmente no Medium da autora.


Maíra Ferreira nasceu em 1990, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Graduada em Letras pela UFRJ, publicou o livro de poemas "A primeira morte" pela editora Oficina Raquel e também trabalha como revisora. Escreve sobre feminismo, vida e outros desesperos no Medium e manda cartinhas pela newsletter Estilhaços diários.

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