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"Eu tinha 8 anos e meu irmão vinha me tratando 'como uma prostituta'"

Em “Tigre, Tigre” (2011) a escritora americana Margaux Fragoso conta sobre a relação abusiva que viveu dos 7 aos 17 anos, sendo o seu algoz um homem 44 anos mais velho que ela. Ela era a filha única de um lar totalmente partido: sua mãe apresentava uma série de problemas mentais que não eram adequadamente tratados e o seu pai se mostrava profundamente ausente. Nesse cenário de absoluto abandono ela vai reconhecendo ao longo de sua obra os elementos que acabaram tornando-a uma presa fácil para o abusador, enquanto nos mostra suas estratégias de sobrevivência e de superação.

Há também um ponto que não é falado no livro, mas que foi comentado extensivamente pela autora em suas entrevistas e que é muito importante: sua mãe também foi abusada quando mais jovem, mas ao contrário da filha ela não teve a oportunidade de lidar seriamente com a questão. Para Fragoso o trauma não tratado prejudicou a capacidade de discernimento da mãe, impedindo que ela reagisse contra o que estava acontecendo e a protegesse. Compreendo muito bem o sentimento que ela exprime, até porque essa é exatamente a realidade que encaro nos dias atuais.

Sou filha de uma mãe que foi abusada pelo pai. Sou irmã de um irmão que foi abusado na infância e que posteriormente veio a me abusar também. Não é algo agradável de se admitir de forma alguma, mas a verdade é que, como a minha psicóloga diz, eu faço parte de uma rede de abusadores.

Uma rede em que seus integrantes sofrem abuso dentro dela ou fora e nunca são acolhidos como deveriam, o que os torna insensíveis ao abuso que outros sofreram ou sofrerão e em escalas maiores reprodutores desses mesmos abusos.

Ter consciência desse fato acabou mudando a minha vida em definitivo. Eu, que me sentia impotente perante a condição de vítima, me vi como uma possível abusadora e decidi agir. Pedi ajuda. Busquei tratamento. Hoje mesmo tenho mais uma sessão de terapia a cumprir. Sigo expondo o que vivi na esperança de me analisar e de me conscientizar de que posso e devo fazer diferente. É uma batalha diária que eu travo, mas essa foi a forma que encontrei de tornar o ato de continuar vivendo possível.

Confesso que também tenho a esperança de conscientizar outras pessoas, porque sei que a minha família não é a única a ter esse tipo de história em seu seio, longe disso. Infelizmente o abuso sexual dentro do ambiente doméstico não é apenas rotineiro, mas inclusive é extremamente negligenciado e ignorado. É um assunto sobre o qual não se fala, não se comenta. Parece existir um consenso de que se não tocamos no tema as tragédias que dele repercutem instantaneamente deixarão de existir. Eu gostaria muito de acreditar nisso, mas tenho plena consciência de que não é assim que as coisas funcionam, justamente porque por muito tempo vivi em uma casa onde o silêncio era a lei.

Eu tinha 8 anos na primeira vez que falei para a minha mãe o que estava acontecendo.

Contei que meu irmão vinha me tratando “como uma prostituta”, usando exatamente essas palavras, porque elas foram as únicas que me socorreram quando tentei explicar o que parecia até então inexplicável. Ela disse que tomaria providências, e a providência tomada foi contar ao meu pai e juntos os dois brigarem com o meu abusador, não buscando entender o que de fato estava por trás daquele comportamento absurdo. Àquela altura meu irmão já tinha sofrido abusos e os reproduzia comigo incessantemente, mas eles não souberam disso porque não procuraram apoio externo, não tentaram resolver a questão através do diálogo. A postura tomada foi de repreender e seguir silenciando, como se nada tivesse de fato acontecido na nossa família. Não funcionou.

Já adulta e apoiada pelo meu atual companheiro eu comecei a desbravar essas lembranças e seus desdobramentos na minha vida atual. Quando confidenciei a minha mãe que os abusos tinham continuado sua reação foi de choque, mas também de resistência. Incomoda a ela e ao meu pai (e creio que a família toda, na verdade) que eu fale sobre isso constantemente, principalmente em público. Acredito que sintam um misto de vergonha, culpa e medo. Pessoalmente eu compreendo que tenham essa sensação, mas francamente me recuso a aceitar e a me submeter! Enquanto eu senti vergonha, culpa e medo eu sofri calada e só perdi. Perdi a inocência, a pureza, a alegria e principalmente a minha paz. Eu não quero mais isso pra mim e nem para ninguém, então não posso silenciar nunca! Não podemos!

Enquanto calamos constrangidos e incomodados outras infâncias e adolescências vão se perdendo. Outros pais se omitem e se confundem no dever de proteger seus filhos. Outros familiares e conhecidos abusam, porque não há quem perceba, quem abrace, quem se importe. Enquanto fingimos que não estamos vendo redes de abusadores como a minha se fortalecem e continuam atacando, aos seus membros e a toda a sociedade. Sem o apoio necessário e direito a voz suas vítimas podem se tornar nossos algozes, mais cedo ou mais tarde. Não podemos ignorar e simplesmente deixar para lá ou para depois. É urgente que falemos disso já, ainda que nos assuste, ainda que seja extremamente triste e cansativo, porque esse é um problema de todos nós e as consequências somos justamente nós que estamos pagando!


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Andressa Faria de Almeida é escritora feminista, tricolor carioca e sua própria melhor amiga. Em última instância é tudo aquilo que se lê!

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