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No meu peito só cabem pássaros

Seja sempre jovem, constantemente dócil. Sexy, sem ser vulgar. Jamais gorda. Não deixe o sutiã aparecer, mas não saia de casa sem. Não poste foto de biquini ou com copo de bebida na mão. Não mande nudes. Se mandar, comporte-se — ninguém casa com mulher que tem foto nua rolando nos grupos de WhatsApp. Descubra o modelo de jeans ideal para seu tipo de corpo. Tenha amigas, mas fique com um pé atrás: mulheres são sorrateiras e competitivas. Não seja masculina. Não corte o cabelo joãozinho. Não seja bi. Seja inteligente. 

Questionadora? Nem ouse. Não vale a pena pensar além da conta. 

“Esse corpo não te pertence”, é o que tentam nos dizer. Querem que sejamos condutores elétricos e ocos de correntes que trazem construções sociais que perpassam décadas, mas que em cada tempo ganham novas roupagens. Mudam-se as regras conforme muda a música que mais convém ao patriarcado, mas as consequências permanecem as mesmas: somos objetificadas. Sofremos preconceito e violência por nossa aparência física e nosso comportamento social. 

Não sou nem de longe a primeira a levantar a questão. Naomi Wolf, em seu O mito da beleza, nos idos de 90, já colocava as cartas na mesa e exigia a declaração de alforria para nossos corpos tão cheios de potência. É a ditadura da beleza, diz ela, umas das trincheiras ainda por derrubar quando falamos de igualdade de gênero.

Mas a quem interessa que não consigamos, despidas de imposições, nos olhar amorosamente no espelho? 

Sob a ordem patriarcal, são essas construções os principais mecanismos de controle social para que nós, mulheres, continuemos desempenhando o mesmo papel histórico, o de coadjuvantes. E o motivo é óbvio: manipulando nossa imagem, temos nossa resistência psicológica e material profundamente abaladas. É necessário preservar o domínio masculino intacto e impor culturalmente um padrão físico às mulheres é uma forma de fazê-las competir de modo não natural — enquanto os homens assistem de camarote o circo pegar fogo. 

Cada nova geração tem de combater sua própria versão do mito da beleza. A sufragista Lucy Stone, em 1855, sentia-se aprisionada: "É muito pouco para mim ter o direito de votar, de possuir propriedade etc, se não posso manter o meu corpo e os seus usos, como direito meu”. Virgínia Woolf, oitenta anos depois, escreveu que ainda haveria de passar décadas antes que nós, mulheres, pudéssemos dizer a verdade sobre a pele que habitamos.

Não podemos. Somos amordaçadas sutilmente assim que chegamos ao mundo.

Nascemos e lá vêm os brincos como a primeira mutilação a nos marcar e diferenciar: somos mulheres. Quando criança, somos afastadas da sexualidade. Não se encoste, não se roce, não se conheça. E as pressões se fazem visíveis mesmo na tenra infância. Tantas e tão pesadas para carregarmos sozinhas. Use vestidos rodados e sapatinhos de princesa. Goste de bonecas (brancas). Aprenda a idealizar o amor com os contos de fadas da Disney. Ganhe o kit recatada e do lar: loucinha, ferro de passar roupa e vassourinha saindo a R$ 59 na loja de departamentos mais perto de você. Disponível nas cores rosa e lilás. 

Crescemos e as pressões não diminuem.

Na adolescência, passamos a comparar o desenvolvimento dos nossos corpos com o de nossas amigas, ora mais lento, ora mais rápido, e começamos ali a caminhar acompanhadas de uma insatisfação constante: não somos a mais desejada da escola, os peitos não cresceram como você gostaria, a colega de classe se sobressai. As espinhas e o aparelho te fazem impopular, não importa quão inteligente, querida ou forte você seja. Para a mulher, é a beleza a carta de admissão social que vale e a que, muitas vezes, continua valendo mesmo depois de tantas qualidades expressas. 

Já adultas, carregamos o fardo de procriar. Nossos corpos viram possíveis depósitos a carregar o futuro da humanidade.

Não que tenhamos grande importância no processo. Só geramos e parimos. Continuamos secundarias na tomada de rédeas do caminhar do mundo. Isso tudo mantendo a cintura minúscula, as coxas torneadas, as estrias longe do corpo.

Depois, começamos a envelhecer. E o que era para ser um processo lindo em que as marcas do tempo se aprochegam a nos contar histórias, vira um terrorismo psicológico que nos deixa a mercê da solidão: já não servimos para quase nada. 

Acontece que o mito da beleza não é sobre nós, mulheres. É sobre os homens e suas instituições de poder.

É sobre um manual que vai além da aparência e prescreve comportamentos que temos de ter. O padrão nos coloca sempre sob os olhos de um referencial externo. Alimenta uma competitividade com outras mulheres fazendo com que nos afastemos e que, assim, sejamos mais vulneráveis. 

Querem nossos corpos como túmulos. Querem que enterremos neles toda a liberdade a que podem dar vazão. Não cederemos. Que comecemos nossa revolução por nós mesmas. Que amemos nossos corpos, com suas marcas, lembranças, cicatrizes, formatos distintos e tão únicos. Que a gente não veja na outra uma inimiga, senão uma companheira nessa jornada tão árdua que é ser mulher. 

Corpo meu, mando eu. E cada célula de mim, a partir de hoje, inicia uma pequena revolução. Por mim e por você, irmã.  

Sim, isso são peitos. Os meus. E neles só cabem pássaros. 


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo, coordenadora de projetos com propósito e cientista poética. Certa feita, enamorou-se pela palavra inefável. Desde então, também mantém uma lista de pequenas coisinhas indizíveis. 

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