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Mãe e mulher: a liberdade que Os Outros não te deixam ter

Eu sou mãe.

Há 13 anos eu sou mãe, quase 14.

Isso não me define. Nunca me definiu. Antes e depois da minha filha nascer eu sou a Clara, escritora, pé na porta, bocuda, eu. 

Mas parece que, mesmo que isso seja apenas uma parte nossa, passa a nos definir para essa parcela da sociedade conhecida como: Os Outros.

Os Outros, desde antes de eu virar mãe, já achavam que podiam dar pitaco. Pitaco durante a gravidez, pitaco em como seria o parto, pitaco sobre meu corpo, sobre como eu deveria tratá-lo para que não "estragasse", pitaco em como tratar o bebê, pitacos, pitacos por todos os lados. Queria um real por pitaco recebido. Não teria passado perrengue na vida se pagassem uma moedinha por pitaco dado. Não deem pitacos não solicitados, pessoas. Isso é muito chato e invasivo.

Até o homem com quem me relacionava à época, também conhecido como Pai da Minha Filha, passou a me tratar diferente. Eu não era mais a Clara, a mulher Clara. Eu era a Mãe da Filha Dele, não mais uma mulher com desejos, necessidades, particularidades. Depois isso aconteceu novamente outra vez: virei Mãe do Futuro Filho de Um Outro Homem, tendo, assim, que mudar todas as minhas atitudes e virar um ser sagrado e imaculado, mas quando vi aquilo acontecendo de novo já decidi que não ia mais ser mãe de filho de mais ninguém. Melhor decisão da minha vida. 

E nunca acaba. Claro, a gente nunca deixa de ser mãe, né?

Só que, quando viramos mães, também não deixamos de ser mulheres. E mulher é o que? Isso mesmo, gente. Gente! E gente tem suas angústias, seus desejos, seus sonhos, planos, fobias, loucuras, limites. Mãe é gente, já parou pra pensar? Mãe não é um ser abnegado oriundo da luz e feito para atender Seus Lindos Filhinhos. Mãe tem corpo, mãe deseja, se apaixona, sofre, chora. Mãe transa, dança, sua. Mãe usa shortinho, mãe pode dançar Rihanna, mãe sai e dá gostosas sarradas. Oh! Sim! Mães saem, têm vida própria. A tal "mãe solteira", esse termo tão esquisito, que trata a maternidade junto com estado civil, tem direito a uma vida sem julgamentos daquela já citada parcela da sociedade, Os Outros. Uma coisa é uma coisa... Outra coisa é bem outra coisa. 

É muito louco ver a reação dos homens diante das mulheres que são mães. Mesmo alguns que são, eles mesmos, pais, se assustam e pensam que queremos já constituir família.

Queridos, às vezes a gente só quer transar.

Assim como vocês.

Às vezes a gente se apaixona também, mas isso não significa que queremos que sejam padrastos, viu? Essa é uma relação muito delicada e o negócio é entre o cara e a mina. Os filhos vêm depois, se vierem. Eu mesma não saio apresentando a minha pra qualquer um. E pra eu ter confiança em alguém pra criar a minha filha junto, rapaz, o caminho vai ser longo, muito longo. Não é como se a gente viesse com um brinde. E não é como se quiséssemos "novos pais". Nada disso. Parem.

Falar e escrever sobre sexo é outro problema. "Mas e a sua filha?!", as pessoas perguntam. "O que ela acha?!", as pessoas perguntam. Bom, minha filha é uma adolescente bem consciente e ela acha que a mãe dela é solteira e pode fazer o que bem entender de sua vida, assim como todas as outras pessoas deveriam achar. Aliás, ninguém tinha que achar nada, né? Alguém cobra discrição de homem solteiro? Alguém pergunta o que os filhos ou as filhas deles acham? Não, não perguntam. Porque homem pode tudo, ou quase tudo. Só não pode mexer na masculinidade de cristal, é claro. 

Então eu quero deixar um recado para as mães. Todas as mães, sejam elas solteiras ou casadas: não tenham medo de ser quem vocês são. Mães casadas, não tenham medo de deixar seus filhos com o marido, não tenha medo da cara feia dele no sofá quando você voltar pra casa depois de uma noite com suas amigas. Você pode. Você merece. Faz mal pra cabeça, pro corpo, pra vida se confinar dentro de casa, isolada do mundo, das amigas, de tudo.

Mãe solteira, colega, se o pai da sua cria for um escroto e você não confiar nele, eu sinto muito por você e sinto muito a sua dor. Fico muito feliz quando vejo casais separados que conseguem criar seus filhos numa boa, sem rusgas e nem muito conflitos, mas sabemos que essa não é a realidade de muitas de nós e que toda a responsa de formar uma pessoa consciente acaba sendo nossa. Fico sempre pensando em como podemos nos ajudar, porque é muito fácil pra quem está de fora achar que a mãe "deveria ter escolhido melhor" e muitas vezes nos vemos desamparadas. Tenho muitas ideias, mas nenhuma efetiva e nenhuma colocada em prática ainda, então só posso deixar aqui um abraço bem forte e dizer que eu entendo, que só nós sabemos o que passamos e que se ao menos nos dermos o direito de sentir e conversar entre nós, de saber que não sentimos isso sozinhas, já ajuda um pouquinho.

Estamos juntas. Mesmo sem estar fisicamente, mesmo que a gente nem se conheça, estamos juntas, e juntas podemos conseguir ao menos um acolhimentozinho em forma de texto-abraço. 


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Clara Averbuck é escritora e uma das criadoras do site Lugar de Mulher. Em 2015 lançou o livro Toureando o Diabo, em parceira com a ilustradora Eva Uviedo.

Clara Averbuck

Gatos, esmaltes vermelhos, livros velhos, sapatos lindos e partículas subatômicas.

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