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#12: Que máscara sustentou seu desenvolvimento?

Sou preta, sou branca
Sagrada, profana
Sou puta, sou santa
Mulher

Sou gay
Hétero, bi
Dandara
Mulher de zumbi

Pirata, maldita
Maluca, mucama
Índia, rainha, cigana
Mulher

Ana Canãs, Mulher


São muitas as categorias e etiquetas. Aprendemos algumas de forma bem clara, outras depreendemos de forma sutil.

As dicotomias, crenças, categorizações e arquétipos em torno do que é ser mulher estão com a gente, lado a lado, nos nossos referenciais e na construção da nossa sexualidade e das mulheres ao nosso redor.

1. Mulher e mãe, santa e puta

Tudo começa com a cisão básica entre os dois lugares do feminino: mulher (sexuada) e mãe (assexuada). De um lado, um ser inteiro, desejante. Com identidade, opinião, sexualidade. Um sujeito. Do outro, uma quase santidade, a exemplo de Maria, mãe de Jesus, que se quer teve relações sexuais para engravidar e representa uma figura casta e pura.

Historicamente, estamos esmagadas entre a hipersexualização e a santificação.

Os lugares de santa e puta são simplistas, apaziguadores, lugares arquetípicos.  

Ditam muito dos nossos comportamentos e de uma sociedade patriarcal.

2. Incompleta, frágil e duvidosa

A base da crença está na história religiosa de Adão, Eva e Lilith, na mitologia judaico-cristã. A figura de Lilith aparece no antigo testamento, adaptação do Torá.

Deus cria um homem, Adão, e uma mulher, Lilith, ao mesmo tempo e da mesma essência. Lilith, contudo, tem uma postura voraz com relação às suas posições, é forte e decidida (o Torá ressalta questões sexuais). Adão quer dominar essa mulher, mas ela não aceita e vai embora. Deus, então, conversa com ela e pede que obedeça Adão, que é seu marido. Lilith segue dona de si, e passa a ser vista como algo mal, que nega a Deus. A serpente.

Depois vem então Eva, feita da costela de Adão, parte do todo. Não é inteira, não é perfeita, e nasceu para ser subordinada.

Além disso, Eva é seduzida pela serpente. É fraca, se deixa envolver.

Daí vem o castigo de toda uma humanidade: aos homens, o trabalho duro. Às mulheres, a dor do parto e a submissão.

Dessa história nasce a dicotomia dos tipos de mulher, que também compreende modos como percebemos o feminino: Eva é melhor, pois é submissa, mas mesmo assim tem de ser vigiada.

Não importa de somos ou não religiosas. A história é sutil em sociedades de berço cristão e se perpetua silenciosamente.

3. Mulher pra sair (e pra comer), e mulher pra casar. A esposa e a amante.

Das crenças-base acima, um mundo de categorias se desenrola no mundo atual.

A mulher pra sair e se divertir, e a pra casar e constituir família é um desdobramento da visão polarizada de mulher e mãe, santa e puta, que nos afeta desde sempre.

Essas visões patriarcais determinam o modo como a gente se vê no mundo e vê outras mulheres, nossos comportamentos e muito de como expressamos ou reprimimos nossa sexualidade: se uma das missões da mulher no mundo é a família e a maternidade, precisamos nos encaixar pra chegar lá. Muitas vezes, se encaixar significa, entre outras coisas, reprimir desejos e ocupar um espaço de passividade sexual ampla.

4. Referenciais de beleza e padrões estéticos

Também, temos toda uma gama de categorizações ligadas às nossas representações externas. A magrela, a gordinha. A princesinha delicada, a desajeitada, que foge do estereótipo do que é percebido como feminino. A CDF, gênio, inteligente. A engraçada, parceira dos meninos. A gostosa, a sexy. A bissexual. A lésbica. E por aí em diante.

Desde pequenas, lidamos com várias dessas classificações. As mais relevantes são aquelas ligadas à aparência física. Somos ensinadas, cada vez mais cedo e de diversas formas, muitas delas silenciosas e travestidamente coerentes, que seu maior valor está na beleza. Que é necessário manter uma rotina intensa de atividades físicas e dietas rigorosas. Que manter-se magra e comer bem são sinônimos. Que ser desejável (dentro dos padrões de beleza) é crucial para navegar bem no mundo. Continuamos recebendo essas mensagens ao longo de nossas vidas, repetidas vezes, sem nem nos darmos conta.

Esses referenciais estéticos também influenciam o modo como vemos nossos corpos e nos conectamos a eles, como interagimos com eles e desenvolvemos nossas sexualidades a partir daí.

Prática sugerida: que categoria de mulher te sustentou/sustenta?

Pensando nos 4 pontos acima, a ideia da prática é refletirmos um pouco sobre os arquétipos, tipos, categorias, classificações - ou como quisermos chamar - de mulher que caminharam conosco durante a nossa formação e caminham com a gente até hoje.

Quais delas nos influenciaram? Com quais nos identificavamos ou desindentificavamos? Como isso se transformou ao longo do tempo?

E por fim, o mais importante: como essas crenças influenciaram a nossa sexualidade?

Se puder, compartilha suas reflexões com as outras mulheres no fórum, nesse tópico aqui. Vamos juntas, lembrando que somos muito mais amplas que categorias dualísticas, antitéticas.

Somos mulheres, seres inteiros.


Todas as nossas experiências, dúvidas e angústias estão sendo compartilhadas no fórum - Trilha #2: Sexualidade | Olhando pra construções internas profundas - e assim, juntas, deixamos esse caminho mais fácil.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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