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#11: Como foi a construção do seu desejo?

Antes de falar de sexo, vamos falar de vida. Você já assistiu àquele programa Pequenas Misses? A série, como o nome não esconde, fala sobre crianças levadas a concursos de beleza. Elas não sabem muito bem quem são ainda, não sabem o que são padrões de beleza, mas já lutam para se encaixar neles.

Nessa idade, antes dos 7 anos, a gente ainda não sabe bem quem é a gente e quem são os outros. A gente ainda tá construindo nossa independência, nossa segurança e aprendendo a entender o mundo. Essas meninas são levadas a esses concursos porque a mãe (e o pai) têm um sonho. Muitas vezes a mãe passou pela mesma coisa. Outras o pai acha que toda aquela “feminilidade” vai fazer bem à criança. O fato é que essa menina está tendo sua autoestima, seus padrões de beleza e sua relação com o mundo construída em cima da aprovação do outro. E não é uma escolha dela.

Se a gente levar esse mesmo raciocínio para as outras áreas da vida, da nossa vida, vai começar a notar como o mundo de fora influencia o mundo de dentro. A gente é ensinada o que é bonito. Não só em relação às pessoas, mas também em relação a arte, a música, ao mundo... De fora para dentro.

O mundo fora de nós segue diversas regras não verbalizadas. É um mundo machista, então características ditas masculinas são incentivadas enquanto as ditas femininas são criticadas; é um mundo racista, então a beleza de uma pessoa negra é questionada o tempo inteiro; é um mundo LGBTfóbico, então a heterossexualidade se torna compulsória, assim como a maternidade para as mulheres e a agressividade para os homens, o que inconscientemente colocaria as pessoas nos lugares a que pertencem.

Tudo isso está em nós. A gente não quis isso, não construímos isso e não tivemos escolha quando esses padrões estavam sendo construídos. E é exatamente por isso que eles são tão fortes: eles nos pegam quando a gente não tem nenhuma defesa.

Se na fase em que estávamos criando nossa autoconfiança nos disseram, mesmo sem palavras, que deveríamos seguir certos padrões para sermos respeitadas ou merecermos algo bom, como poderíamos rebater isso?

A parte boa nisso tudo é que tudo que é construído pode ser desconstruído.

E se a gente se esforçar consegue mudar toda essa programação que está na nossa cabeça. E é aí que entra a sexualidade e a construção do desejo.

Observe como são as pessoas com quem você se relacionou até hoje. O que elas têm em comum? Pode ser algo físico, pode ser um traço de personalidade, pode até ser que todos tenham problemas com a mãe e você sente que pode ajudar a melhorar as coisas. Todos esses mecanismos são inconscientes, mas a gente consegue traçar um fio condutor. E esse fio condutor nos diz muitas coisas sobre nós mesmas.

Nós incorporamos comportamentos alheios o tempo todo e nem pensamos nisso. Vemos beleza no que as pessoas ao nosso redor veem, damos como atraente o que as pessoas ao nosso redor dão e nosso desejo é uma soma disso. É claro que depois de um tempo as relações se constroem e outras coisas aparecem, mas temos que olhar para o antes.

O que toda essa construção nos impediu de viver? Como essa construção atinge as pessoas que não fazem parte de quem, de acordo com o imaginário popular, merece ser feliz? Como essa construção guiou e ainda guia nossa vida?

O desejo é construído como todo o resto, mas a possibilidade de nos libertar dessas amarras é um experiência que dói, mas se torna deliciosa assim que sentimos a liberdade.


Todas as nossas experiências, dúvidas e angústias estão sendo compartilhadas no fórum - Trilha #2: Sexualidade | Olhando pra construções internas profundas - e assim, juntas, deixamos esse caminho mais fácil.


Carol Patrocinio é jornalista e divide seu tempo entre escrever para diversas publicações sobre assuntos relacionados ao mundo feminino e ao feminismo, como o Ondda, seu canal no Medium, vídeos no Youtube e consultorias para negócios que querem falar com as mulheres.

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