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Desconstruir para construir

Quando eu era mais nova, acho que com uns 14 anos, me negava a depilar as pernas, lembro de falar para uma amiga no colégio "os meninos não raspam, porque eu vou raspar?". Tinha plena confiança do que falava e me sentia segura na minha posição, mas em algum momento, que não lembro quando foi, eu mudei e passei a raspar as pernas. Com uns 20 anos eu achava um horror mulheres que não depilavam, pra mim eram relaxadas, descuidadas e sujas.

O Facebook tem agora aquela função de mostrar nossas memórias e dias desses subiu um post meu do passado em que estava HORRORIZADA com a "nova moda" de mulheres que não depilavam as axilas. E eu ainda aleguei que era questão de higiene, mas como pode, gente? Mulher de suvaco peludo? Nossa, que horror.

Fiquei com um misto de vergonha e alívio. Vergonha por já ter tido esse pensamento, mas alívio por ter mudado, afinal, ter pelos é normal, não importa se em homem ou mulher e não tem absolutamente relação alguma com higiene. Além disso, é escolha de cada um se quer ou não mantê-los, eu não tenho nada com isso e nem você.

Fazendo uma retrospectiva, fiquei pensando que grande parte do meu aprendizado pode ser comparado a um muro, que protege, mas também afasta. E eu usei um monte de tijolos que me deram, não questionei, apenas peguei e fui subindo ele com tijolos dos outros, com pensamentos alheios.

Desconstruir um muro é tão difícil quanto mudar ideias que nos foram imputadas por anos, requer derrubar décadas de pensamentos arraigados, requer brigar consigo mesma diversas vezes, requer humildade em perceber que errou e o mais difícil, requer paciência consigo mesma, porque eu falho e muitas vezes sem perceber, repito discursos que não são meus.

Eu estou desconstruindo meu muro, mas não quero subir outro diferente, eu não quero mais a proteção dele. Agora eu estou empenhada em ter um jardim, nele quero que floresçam ideias e pessoas de todos os tipos, quero amor, quero compreensão, quero aceitação, o conforto da grama, quero árvores, passarinhos e quero também abelhas para polinização.

Eu decidi que troco a proteção morta e imutável de um muro, pela disciplina em cuidar de um jardim vivo e em constante processo de transformação. Eu troco a falsa garantia de pensamentos cimentados há décadas, por sementes que não sei ao certo no que vão dar. Eu troco as minhas antigas certezas, por todas as minhas atuais dúvidas, porque pela primeira vez eu consigo me ver sem o cerco dos tijolos e eu gosto do que vejo, gosto de me ver mais livre, sem chapisco de cimento no meu coração.


Milla Puppo gosta de Harry Potter e Gilmore Girls e aprendeu a andar de bicicleta e usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Escreve no seu blog sobre vários assuntos.

Milla Pupo

Gosto de Harry Potter e Gilmore Girls, aprendi a andar de bicicleta e a usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Tenho um biquíni da mulher maravilha e já fiquei internada num hospital de guerra no Vietnã, pode não parecer, mas eu sou coerente, aliás o suficiente para dizer que não, aqui não tem mil e uma noites de amor com você.
 

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