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Quando ser mãe nos oprime (ou o mito do amor materno revisto)

“O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não existe.”
Élisabeth Badinter em O mito do amor materno.

Quando eu era criança, a ideia de ser mãe me era muito simpática. Gostava de brincar com bonecas e me alegrava ao ajudar as mulheres adultas a cuidar dos seus bebês. Todos diziam que eu tinha um instinto materno aflorado. Mas a ideia de ter meus próprios filhos me parecia assustadora. Questionava na minha inocência infantil esse paradoxo: como eu poderia ter instinto materno se a possibilidade de ser mãe me era tão assustadora? Fato é que todos os discursos ao meu redor assinalavam a maternidade como uma experiência inata e obrigatória, sem a qual eu nunca obteria o título de mulher definitivamente.

Anos se passaram, hoje de fato sou mãe e me sinto feliz e realizada com as vidas que ajudei a trazer ao mundo. Mas as meninas que não o fizeram teriam perdido o direito a patente de mulher. E pior, as que embarcaram na “ordenação celestial” e tornaram-se mães e em meio as dificuldades, dores, desconstruções e limitações diárias, não se identificaram com a função e são explicitamente infelizes?

Também perderam a patente.

O mito do amor materno é um fenômeno que depositam sobre nossos ombros nem sempre dispostas e preparadas para carregar tamanho peso.

O preço que pagamos em qualquer escolha é alto. Mas nos dizem que é “lindo”, “nobre”, “divino”, “honroso”. E todo esse arsenal de elogios esconde um sórdido jogo de manipulação social, econômico e psicológico.

 Se é tão sublime a maternidade porque todas as portas sutilmente se fecham para as mães? Se uma mulher se torna tão especial após assumir o legado de portadora da continuidade da vida, por que é rejeitada e desvalorizada pelos homens, incluindo seu parceiro amoroso, após a maternidade? Se nos torna seres tão dignos de honrarias, porque os empregos, a diversão, a sexualidade, entre outras coisas nos é negada após o parto? A coisa não melhora quando escolhemos (ou simplesmente não podemos) não ter filhos. Somos tidas como irresponsáveis, egoístas, nosso gênero é questionado e representamos uma ameaça à família e mais especificamente ao ser geneticamente masculino.

A maternidade deve ser uma escolha, consciente e conveniente. Escolho ser mãe porque quero experimentar outras formas de amar. E que esse amor não tenha o peso impositivo da incondicionalidade. Uma vez mãe, eu posso ou não amar meu filho. E esse amor terá os limites que coincidem com meus interesses. Ponto.

Ou ainda, não quero ser mãe e não serei menos mulher que qualquer outra que o seja. Tenho condições de amar mas não de arcar com as responsabilidades inerentes ao posto. Qualquer coisa contrária a esse pensamento ou escolha é uma forma de controle, sórdida porque se vale de armas emocionais para se estabelecer. E o emocional se descontrola. Quantas mulheres sentem culpa diante de um filho com o qual não se identifica limitando ou anulando a possibilidade de uma construção de sentimentos.

E é baixa, porque não é sutil, uma vez que todos os olhos sociais, masculinos ou não estão voltados para essa decisão única, pessoal e intransferível. E o julgamento se dá nesse nível, onde se estabelece inclusive um sistema de valores nas relações entre mulheres: você não é tão valiosa quanto eu, porque não é mãe ou não é capaz de amar (incondicionalmente) seu filho.


Texto publicado originalmente no Imprensa Feminista.


Joice Berth é arquiteta e urbanista, tem 39 anos, e pesquisa questões raciais e ligadas ao feminismo. É colunista do site Justificando.com e da Imprensa Feminista, além de escrever para o site Nó de oito.

Joice Berth

Arquiteta e urbanista, 39 anos, pesquisadora sobre questões raciais e feminismo. Colunista do site Justificando.com e da Imprensa Feminista, escrevo também para o site Nó de oito.

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