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“Não olha nem para atravessar a rua, vadia?”

[Carta aberta ao homem, branco, de meia idade, em um carro sedan, que me insultou  pelo simples motivo de eu ser mulher e estar atravessando a rua].

Moço, 

A rua que eu atravessava não tinha semáforo, e eu estava usando a faixa de pedestres. Pela lei, eu tinha a preferência. Estávamos em uma rua em frente ao metrô, portanto com alto tráfego de pessoas. Pelo bom senso, carros tem de diminuir a velocidade. Por qualquer ângulo que você queira olhar, eu não fiz nada de errado.

Se você achou, por algum motivo, que eu merecia um insulto, é só porque o mundo lhe diz que você, por ser homem e estar em um carro, tem mais direito à rua do que eu. Portanto era eu quem deveria parar, ficar atenta, dar preferência.

Mas será que você pensa mesmo assim?

Talvez você nunca tenha parado para olhar para isso. Talvez, por nadar em um oceano de privilégios, você nunca tenha se dado conta de que há outros seres humanos (e não humanos) que tem os mesmos direitos que você mas não gozam das mesmas oportunidades. Nunca parou para olhar que você não é a norma, não é a média, nem é o centro do mundo. 

Quando eu recebi seu insulto, passei reto e segui meu caminho. Por um milésimo de segundo, me senti envergonhada e humilhada. Mas logo depois pensei: por que eu deveria me envergonhar? Talvez porque o mundo me diz que você, por ser homem e estar em um carro, tem mais direito à rua do que eu. Portanto era eu quem deveria parar, ficar atenta, dar preferência.

Se eu fosse homem, o que você teria gritado? Vadio? Puto? Filho da puta (insultando instantaneamente a mãe vadia), ou viado (pressupondo que ser gay é um insulto) são respostas mais prováveis.

Não foi a primeira vez que eu ouvi algo do tipo, mas sei que na maior parte do tempo estou em uma posição de privilégio: sou branca, cisgênero, hetero, de classe alta, toda a minha rede de suporte é de classe média/alta, a cultura ocidental da qual faço parte é a hegemônica.

Um pouco antes de nossos caminhos se cruzarem, estava pensando justamente sobre isso: algumas pessoas tem uma vida muito mais difícil pelo simples motivo de habitarem o próprio corpo. E naquele milésimo de segundo, foi como se eu carregasse a dor e a humilhação de toda “minoria” que passa por isso de formas muito mais opressoras do que eu. E pensar sobre isso me entristeceu muito.

Imagino que nesse momento você siga a sua vida normalmente. Que nem se lembre desse acontecimento. Que talvez essa situação tenho ocorrido mais de uma vez com você. Quando você xinga um amigo de viado, comenta da mal comida do escritório, ou do neguinho folgado que te ultrapassou. Mas me pergunto: se você sentisse a dor que essas agressões provocam na pessoa a que se destinam, será que você as repetiria? Se você entendesse que está replicando uma estrutura de opressão que humilha, machuca e mata tanta gente (inclusive os homens brancos, heteros e ricos), será que você seguiria?

Eu escolho acreditar que não. 

Não acho que você tinha a intenção clara de me humilhar. Acho que, naquele momento, você acreditava mesmo que era eu que estava errada. Acreditava que “vadia” era um xingamento como qualquer outro, afinal, todo mundo xinga quando está nervoso. Que descarregar sua raiva não machucaria ninguém. E que, como você, em 10 segundos eu esqueceria esse fato e seguiria com a vida.

E eu segui. A diferença é que eu continuo habitando meu corpo e você o seu. Por isso eu ainda devo ouvir alguns “vadias” e suas variações, na rua, em casa, no trabalho, na televisão. Eu ainda vou ser avaliada pelo meu corpo e a minha beleza (ou falta dela). Eu ainda vou ter medo de andar sozinha à noite. Eu ainda vou ter minha competência questionada antes de me provar capaz. Eu ainda vou ter que escolher entre filhos e carreira. Eu ainda vou perder valor social na mesma medida que ganho rugas. Você não.

Por isso escrevo essa carta. E por isso escolho, todo dia, olhar para os meus privilégios e tentar, se não eliminá-los, ao menos não usá-los para reduzir/humilhar/subjugar. Espero que você faça o mesmo.

Seguimos.


Texto publicado originalmente no Blog do Cinese.


Camila Haddad é administradora, educadora e fundadora do Cinese, uma plataforma de aprendizagem colaborativa.

 

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