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Homofobia: massacres invisíveis

A humanidade sofre uma perda irreparável a cada vida humana que termina. Quando ela é arrancada por outro ser humano, a perda é ainda maior. E quando uma única pessoa se desumaniza a ponto de acabar com dezenas de vidas, como foi em Orlando no dia 12 de junho?

O que aconteceu nos EUA foi, sem dúvida, um massacre. Uma tragédia. Mas infelizmente não é tão isolado quanto queremos acreditar. Embora os ataques em massa de fato sejam raros, todos os dias perdemos incontáveis vidas LGBT para a intolerância. Nos EUA, no Brasil, no mundo.

Por aqui podemos não ter (felizmente!) um atirador intolerante em uma boate, mas o terreno está cada dia mais fértil para ações do tipo. Sem querer excluir as especificidades do ataque de Orlando, mas o Brasil também assiste à radicalização da direita e um crescimento explícito da intolerância. Muito disso, é verdade, é consequência do próprio avanço da cidadania e do orgulho LGBT, que abriga cada vez menos pessoas em seu armário. No entanto, a resposta que as lésbicas, bissexuais, gays e trans* desse país recebem por assumir sua identidade é o medo cotidiano de um ataque.

Ataques homofóbicos não nascem do dia para a noite. Assim como um estupro coletivo, eles não saem de uma mente louca e descolada da realidade e completamente sem sentimentos.

Ataques à minorias sociais são altamente legitimados no nosso cotidiano e, no caso do Brasil, no nosso Congresso. Nossa micro e macropolítica são aliadas e ajudam a construir uma sociedade doente e assassina.

Vamos lembrar que somos um povo que elegeu Marco Feliciano, Coronel Telhada, João Campos, Jair Bolsonaro (esse foi o deputado mais votado do Rio de Janeiro em 2014). São pessoas que dedicam suas vidas públicas à intolerância e que, além de barrarem o avanço institucional de diversas populações, passam o recado que não tem problema odiar alguém por uma determinada característica. Pelo contrário, isso te faz alguém “de bem”, mesmo que você destile uma quantidade nada saudável de ódio.

Precisamos parar de achar que nossas pequenas atitudes são inofensivas. Não representar LGBTs, estereotipar, fazer deles os personagens descartáveis, dizer que são aceitáveis “se não derem pinta”, usar sua identidade como piada ou ofensa, ver o desrespeito e não fazer nada. São todas ações que ajudam a construir uma sociedade hostil para milhões de pessoas e que, em cadeia, legitimam crimes.

E muitos crimes: só em 2015, 318 LGBTS foram mortos no Brasil tendo como causa a sua identidade. Cabem muitos Orlandos nesse número e isso é extremamente vergonhoso. Se, enquanto sociedade, falhamos em salvar 49 vidas no domingo, que pelo menos as honremos para repensar nossas pequenas atitudes e para garantir que, se depender de nós, nenhuma outra pessoa terá que sofrer por existir.


Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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