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Feche os olhos e enxergue o que importa

Quando criança eu tinha pé chato e vivia caindo. Para quem não sabe, a ausência dos arcos nos pés causa desequilíbrio, o que quase sempre resulta em quedas. Então na época minha mãe me levou ao médico e ele me indicou bota ortopédica, mas ela não queria que eu usasse, não era "feminina" e ela tinha medo que eu sofresse bullying por usar calçados "masculinos", então me colocou para fazer balé, o médico garantiu que assim eu conseguiria ter as curvas nos pés e iria parar de cair. Eu odiava fazer balé, mas tenho os pés curvadinhos hoje.

Olhando pra trás, tenho a impressão de que eu nunca gostei de esportes ou qualquer atividade física.

Usei todos os tipos de desculpas para não fazer e fugi sempre que pude. No colégio consegui usar uma tendinite como impeditivo para não participar das aulas de educação física. Em vez de ficar na quadra correndo, eu ficava sentada, lendo.

Às vezes fico tentando entender na minha história essa relutância de mobilidade corporal e como isso refletiu na minha própria vida, em ter medo de me mover, medo de machucar, medo de não conseguir, medo de me expor. Medo. Medo. Medo.

Fico pensando em como eu aprendi que meu corpo não era bom, em como eu desaprendi a usá-lo e como está sendo o processo de reconhece-lo como meu amigo. É um processo lento, mas impressionante.

Nesse projeto de autoconhecimento resolvi fazer yoga e está sendo incrível. Na primeira aula eu tive taquicardia só de pensar que teria que usar o vestiário e ficar pelada na frente de todo mundo. Passado esse susto, veio o pânico de ser a única gorda lá e o medo (ele de novo) de que fosse motivo de piada. Eu passei pelas etapas, cada uma por vez e estou fazendo yoga há quatro meses.

Já descobri algumas coisas, por exemplo, que minhas glândulas sudoríparas são trabalhadoras ferrenhas! Minha nossa como que eu posso suar tanto? Como? Ainda hoje eu fico abismada ao ver muitas pessoas na aula inteiras, sequinhas, cabelo todo arrumado.

Esses dias tinha uma moça usando sutiã strappy na aula! Ela entrou e pensei "meu deus, será que esse sutiã fica no lugar?" e ficou! Ela entrou e saiu do mesmo jeito, achei sensacional. Mas eu não sou assim, me basta olhar a moça, saber que ela é daquele jeito e que tudo bem eu sair da aula como quem lutou boxe no meio de um furacão.

É meu corpo, eu sou assim, essa sou eu.

Eu descobri também que não tenho muita força nos braços, isso me deixou meio tristonha uns dias, desanimada, porque eu vejo muitas pessoas lá fazendo as posturas super bem e eu nem sempre consigo. Mas eu vou seguindo, respeitando meu corpo, meu tempo, me aceitando.

Esta semana, teve uma postura que me deu trabalho, eu não conseguia me equilibrar de jeito nenhum. Ela era aparentemente simples, eu fazia como indicado pela professora e buscava um ponto para fixar meu olhar para tentar me equilibrar, mas nada. Não conseguia, ficava sempre pendendo para os lados, quase caindo.

A professora me disse para tentar fechar os olhos, porque muitas vezes acreditamos que o equilíbrio vem do que o olhar alcança, mas que na verdade ele vem de dentro, vem da gente.

Temos o péssimo hábito de nos comparar, de olhar para o lado e buscar reconhecimento no outro.

Eu ainda faço isso, infelizmente, mas hoje já sei que o equilíbrio pode até começar em ter arcos perfeitos nos pés, mas ele só ganha força na outra extremidade do corpo. Ele acontece quando consigo ser meu próprio ponto de equilíbrio, é o que venho aprendendo, é o que meu corpo tem me ensinado.


Milla Puppo gosta de Harry Potter e Gilmore Girls e aprendeu a andar de bicicleta e usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Escreve no seu blog sobre vários assuntos.  

Milla Pupo

Gosto de Harry Potter e Gilmore Girls, aprendi a andar de bicicleta e a usar roupas coloridas depois dos 30 anos. Tenho um biquíni da mulher maravilha e já fiquei internada num hospital de guerra no Vietnã, pode não parecer, mas eu sou coerente, aliás o suficiente para dizer que não, aqui não tem mil e uma noites de amor com você.
 

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