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#10 Nossas relações com os outros: estamos cultivando relações de qualidade?

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Quando mapeamos pilares importantes das nossas vidas pra essa trilha, pilares que precisam ser revistos a cada novo ciclo, as relações com os outros surgiu em primeiro lugar. Família, amigos, colegas de trabalho, filhos, parceiro/a. Todas.

Elas ocupam grande parte das nossas vidas, nossa energia e nossas mentes. E não é à toa: elas precisam ser cultivadas com cuidado e são o chão de tudo: tiram ou trazem felicidade.

Aos poucos, fui aprendendo que esse cuidado não significa, necessariamente, mimo. Nem servir, prover, estar presente. Pode ser tudo isso, também. Mas cuidado, por uma perspectiva ampla e compassiva, tem mais a ver com um olhar generoso pra nós e pros outros dentro das relações. Um olhar de impulsionamento mútuo e liberdade.

Esse texto e a prática ao final dele é pra aproveitarmos esse começo de ano pra rever nossas relações.

Que tipo de relação estamos cultivando? Qual a qualidade delas? Como elas podem melhorar? Dá pé?

Quando parei pra pensar nisso profundamente, notei que a maior parte das minhas relações não me impulsionavam, não me ajudavam a ser melhor.

Aí o porque:

1. Relações de apego, controle e aprisionamento

É difícil assumir, mas a maior parte das relações que estabelecemos não nos ajudam a ser felizes de verdade.

O exemplo mais óbvio é o de muitos casais, independentemente do formato da relação (monogâmica ou não monogâmica). É comum desenvolvermos ciúme, apego e querermos exercer controle sobre o nosso parceiro(a). E podemos fazer isso de várias formas. São milhares os meios de cercear, restringir ou podar alguém.

Proibir de viajar com os amigos, desmotivar a aceitar uma proposta de trabalho em outra cidade, diminuir com pequenas críticas todos os dias ou manipular com palavras doces para que o outro se afaste daquele amigo que não gostamos.

Quando dizemos que amamos, dizemos também que queremos a felicidade do outro. Mas na maioria das vezes isso não é inteiramente verdade. Queremos a felicidade do outro de forma condicionada e oportuna. Queremos que o companheiro/a seja feliz, contanto que essa felicidade não confronte a nossa, não nos traga nenhum desconforto ou incômodo. Traduzindo, é mais ou menos assim:

"Quero que você seja feliz, amor, contanto que: perto de mim, longe daquele seu amigo/a, sem trocar muita ideia com aquela colega de trabalho, sem conversar com nenhum/a ex e sem, de forma alguma, fazer aquela viagem dos seus sonhos para os Estados Unidos, de 5 meses."

E a lista de poréns poderia seguir eternamente.

Outro exemplo bom, que também tem a ver com apego e controle, é o da solidificação do outro, como se a pessoa ao lado - amigo, mãe ou parceiro/a - fosse algo estanque, que não muda nem evolui. Ou como se tivesse uma só identidade, fosse algo simples de entender, chapado, 2D. O amigo do colégio segue sendo aquele cara. A mãe é a mãe. O companheiro/a, aos poucos, vai virando aquele cara/aquela mina que a gente já sabe exatamente quem é.

Um dia um amigo meu, que tinha acabado de se assumir gay, disse que tinha sido mais fácil contar pros amigos recentes do teatro do que pra nós, amigos antigos do colégio. É isso.

É comum passarmos anos nos relacionando com pessoas que nos estreitam e aprisionam, de diversas maneiras. Nos restringem à caixinhas e nos mantêm parados ao invés de nos ajudar a evoluir, mudar. E fazemos o mesmo com elas também, de formas escancaradas ou mais sutis.

Fazemos isso frequentemente com quem conhecemos de longa data, irmãos, companheiros de anos, amigos de infância. É como se, de certa forma, congelássemos a pessoa no tempo junto com algumas das suas características - sem parar pra pensar que ela amadurece o tempo todo, assim como nós.

"O Fabinho? Ah, aquele menino eu conheço há anos. Ele é lento pra resolver as coisas, mesmo."
"Eu te conheço, Carol. Você é ansiosa demais, sempre foi."
"Ele é igualzinho ao pai, teimoso e intolerante."

Deixamos de ver a pessoa inteira, os movimentos dela no mundo, as transformações diárias. Solidificamos o irmão que já não vemos mais tanto ou a amiga da época da faculdade, colocamos num determinado espaço, com uma certa "etiqueta". Gastamos pouco tempo em investigar de verdade, com perguntas curiosas e abertura, quem essa pessoa é agora, no presente. Para quem sofre o "congelamento", fica difícil realmente se expressar, contar novidades, descobertas, pontos de vista frescos.

Relações assim - se não terminam - seguem superficiais ou geram bastante sofrimento.

O que fazer, então?

Quando amamos, vem junto um baita apego. É normal.

O impulso natural, quando estamos apaixonados e começando uma relação, é, por exemplo, querer mapear a pessoa, pra conhecer exatamente quem está do outro lado e ter aquela sensação de segurança e controle da situação. A gente quer também saber das coisas, ter certezas. Mas isso não é possível. Qualquer sensação de controle é fictícia.

Sabemos só do presente. E conseguimos enxergar apenas frações da pessoa ao lado, que está em continuo movimento, mudança, que é uma pessoa inteira e complexa, como nós.

Quanto antes aceitarmos que as coisas mudam (inclusive nossos parceiros e parceiras), são impermanentes e fluídas, mais qualidade de presença teremos nas nossas relações - porque o que importa é a construção do agora.

Isso não tem a ver com ser inconsequente ou não fazer planos, não pensar no futuro, pelo contrário. Tem a ver com fazer tudo isso de forma leve, com soltura, abertura pra possíveis bifurcações e mudanças de curso.

Pensa assim: é como segurar um copo. Se seguramos com firmeza e leveza, sem agarrar, se o copo se quebra, nos machucamos menos. Se seguramos com muita força e tensionamento, se o copo se quebra, com certeza nos machucaremos mais.

Quando há leveza e soltura, há menos sofrimento e mais resiliência.

Outra coisa importante é cultivar uma visão rica e curiosa pras pessoas ao lado. Sigo com o exemplo do/a parceiro/a, porque as relações românticas são as que trazem o apego à tona de forma mais escancarada e brutal.

Ao invés de congelarmos a pessoa com nossas percepções e julgamentos, precisamos exercitar, mesmo dentro de uma rotina diária, um olhar fresco pro outro, de certo estranhamento, até. Um olhar que nos ajude a ver o/a parceiro/a como uma pessoa inteira, complexa e interessante, fluída, mutante: quem é você? o que se passa na sua cabeça? quais são seus desejos, vontades e anseios? 

Por último, temos que ser uma catapulta na vida das pessoas que amamos.

Amor genuíno tem a ver com apoiar, impulsionar, não cercear e controlar. Ou seja, sabendo que o outro é alguém inteiro, além de seu/sua namorado/a, parceiro(a), esposo/a ou pai/mãe dos seus filhos, como você pode ser meio pra que ele/ela alcance a felicidade genuína e realize coisas bonitas no mundo?

E vice-versa.

Pode parecer amplo, difícil de por em prática, mas não. É uma virada de chave, uma escolha de que olhar praticar, de que pessoa ser. Vai por mim, dá pé.

2. Relações de pouca escuta e troca genuína

É comum, na correria do dia a dia - cada um no seu quadrado, com sua vida - estarmos pouco disponíveis pras nossas relações. Tem que estar tudo agendado, combinado e articulado. O dia, o jantar, o horário do encontro. Encavalamos compromissos, vivemos sempre no celular. É raro estarmos com alguém, realmente presentes e interessados, dedicando aquele tempo junto pra estar junto de verdade.

Também, encontramos as pessoas num déficit de energia e atenção. É como se duas pessoas estivessem devendo dinheiro ao banco e se encontrassem na esperança de que a outra emprestasse uma grana. É como eu vejo a nossa qualidade de presença nos encontros: costumamos falar bastante da gente, dos nossos problemas, numa avalanche desvairada. Queremos atenção, estamos carentes. Nossa presença é ruim, estamos distraídos e ansiosos. Não sabemos ouvir direito. Quando a gente se encontra, todo mundo quer, ninguém tem pra oferecer. É natural que seja caótico e escasso.

Também, esquecemos que as pessoas ao nosso redor são a nossa maior fonte de conhecimento, que podemos aprender com elas. Estamos, habitualmente, numa postura de fazer e resolver coisas, de convencer pessoas, de trabalhar e atacar metas, e não num local de relaxamento, de aprendizes.

Então, encontramos as pessoas e esquecemos que podemos aprender com elas. E que isso é a coisa mais bonita que um encontro pode proporcionar: troca genuína. Não tem a ver só com conhecimento - a troca real aprofunda vínculos e nos motiva. 

O que fazer, então?

Antes dos encontros com pessoas importantes, fazer meditação ou qualquer prática que traga relaxamento e melhore nosso foco e nossa qualidade de presença já é um bom começo. Assim, quando estivermos ali, com outro, estaremos ali de verdade - e não conectados com outros assuntos fora dali ou com os nossos próprios problemas e questões.

Também, podemos cuidar pra estabelecer relações de aprendizado e troca constantes. Uma dica é parar sempre pra pensar qual foi a última vez que você aprendeu algo com alguém a sua volta. Não importa se é um amigo, a vó ou o/a namorado/a. Se foi uma receita nova de pão, a história de um bairro de São Paulo, francês básico ou dicas de decoração pra casa nova. Sem julgamento de conteúdo. O importante é se conectar, aprender, ensinar.

Esse ponto está dentro do que falamos acima, sobre um olhar fresco e curioso pras pessoas ao redor. Um olhar de possibilidades e que nos coloca num espaço de aprendiz: o que posso aprender com essa pessoa? O que tenho pra oferecer pra ela?

São duas perguntas importantes que mantém as relações com um brilho simples e bonito.

3. Prática: tira teima das relações

Essa prática é uma provocação. Já sabe. Começa tirando um tempinho pra você, em um lugar confortável e silencioso. Depois, medite de 5 a 10 minutos, com foco no relaxamento e na respiração, pra aquietar a mente. Se não quiser meditar, pare um pouquinho e, sentada, faça 10 respirações profundas, soltando todo o ar ao final de cada uma.

Em seguida, pense e numere as 3 relações mais importantes/ativas na sua vida hoje.

Agora, é hora de trucar cada uma. Uma por uma, responda sim ou não pra essas perguntas:

1. Essa relação me liberta ou me aprisiona? Por que?

2. Essa relação me impulsiona ou paralisa? Por que?

3. Nessa relação há troca, há aprendizado? Há escuta empática e uma boa comunicação? Por que?

Em seguida, hora de te trucar. Faça as mesmas perguntas pensando se você é agente de motivação, libertação e aprendizado nessas relações, e se você cuida da sua escuta e da sua comunicação.

Pois é, tudo tem dois lados. 

Te espero no fórum.

Seguimos juntas, por relações mais saudáveis.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

 

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