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#11 Nossa relação com o trabalho: redefinindo sucesso e propósito

 não quero cair na rotina

não quero ser escravizado por máquinas, burocracias, tédio e feiura

não quero me tornar um imbecil, um robô, um peão

não quero me tornar um fragmento de pessoa

quero fazer o meu próprio trabalho

quero viver com (relativa) simplicidade

quero lidar com pessoas, não com máscaras

as pessoas importam, a natureza importa, a beleza importa, a inteireza importa

quero ser capaz de me importar

Good work, E. F. Schumacher, 1970


Quando pensamos em trabalho, trazemos conosco uma definição carregada de símbolos.

Ela vem vinculada a significados importantes, que preenchem e sobrecarregam a noção de trabalho como entendemos hoje - e arrastam resquícios de como as gerações dos nossos pais e avós entendiam.

Percebi, depois de muitas crises, que pra conseguir repensar trabalho, ressignificar ele, eu precisava me fazer perguntas importantes e trucar todos os significados que vinham junto, atrelados.

Nesse processo, dei de frente com minhas definições (e as do mundo) de sucesso, produtividade, além da minha construção identitária restritiva conectada à profissão. E descobri que esse era o jeito: tirar as pedras do caminho pra depois ver o que sobrava. O que ficasse, aí sim, seria o essencial, importante pra mim.

Essa é a intenção desse texto. Te ajudar a descobrir o que é trabalho pra você hoje, e como você precisa ou gostaria que fosse pra ser feliz.

Vamos lá.

1. Nossa construção de sucesso

Pros nossos avós, sucesso era medido por meio de conquistas profissionais tangíveis em carreiras tradicionais, como direito e medicina. Tinha muito a ver com conhecimento acumulado, reconhecimento acadêmico. Tinha também conexão com a vida "moral e ética" da pessoa: se era um bom cidadão/cidadã, bom marido/mulher, bom pai ou mãe. Todo mundo conhecia todo mundo e a avaliação da pessoa se dava de forma integrada com outras áreas da vida.

Muitas vezes, também, trabalho era meio de subsistência. Não havia tempo nem espaço pra preocupações ligadas ao sentido do emprego ou satisfação pessoal. O importante era ganhar o dinheiro do mês e sustentar uma família.

Muitos dos nossos pais já passaram a entender a carreira, a profissão, como parte do mosaico da realização pessoal. A ideia de "emprego vitalício" - hoje uma relíquia ultrapassada do século XX - começou a apresentar sinais de morte. Contudo, escolher a profissão certa, uma universidade reconhecida, um bom emprego e a partir daí subir na escala corporativa e ter acúmulos materiais passou a integrar o pacote.

Hoje, além de tudo isso, a difusão da prosperidade material passou a trazer pra equação (muitas vezes, nem sempre) a necessidade de sentido, propósito naquilo que fazemos. Uma integração ética do trabalho com o que queremos pra nossa vida e acreditamos que faz sentido pro mundo.

E é isso que muita gente não entende. Que hoje, muitos de nós troca dinheiro por sentido na vida.

Trabalho não é mais só um trabalho e nosso sucesso está, também, conectado com o impacto daquilo que geramos através do nosso tempo e suor.

Ficou mais bonito, mas também mais complexo.

Porque além de estar conectado a um propósito maior, a impacto positivo, a realização interna, sucesso ainda está intrinsecamente ligado a todos os outros itens das gerações anteriores a nós: conhecimento, academia, cargo, patrimônio, reconhecimento público, entre outras coisas.

Então, pra desvendar esse novelo, o primeiro passo é refletirmos de verdade sobre a nossa própria construção de sucesso.

Pare um pouco pra responder essas perguntas:

O que é sucesso, pra mim?

Tem a ver com poder? E que tipo de poder? Posses, saberes, reconhecimento, projeção? Reconhecimento de quem? Tente ir cada vez mais fundo. Não se contente com a primeira resposta. Vá trucando uma por uma. Olhe para si, mas também olhe para como você enxerga, avalia e valida as pessoas profissionalmente. Você dá credibilidade pra que tipo de profissional? Tem a ver com um cargo de alto escalão? Tem a ver com dinheiro? Tem a ver com a universidade que frequentou e os títulos que possui? Observe tudo isso atentamente.

O que é sucesso pros meus familiares, pessoas próximas e que foram referência pra mim?

Aqui, tente mapear como as pessoas que, direta ou indiretamente influenciaram na sua formação definem sucesso. Isso pode te dar insights importantes, porque costumamos reproduzir muito do que essas pessoas, principalmente pai e mãe, trazem pra mesa no dia a dia de casa.

Ao final, tente resumir tudo em uma frase que comece com "sucesso pra mim tem a ver com".

Revelar é o primeiro passo pra desmantelar uma visão antiga e criar uma nova, se necessário.

2. Nossa visão sobre produtividade

No sistema do capital em que vivemos, atividade entendida como produtiva é aquela remunerada, realizada no mercado e fora de casa. Todo o resto é periférico e menos importante.

Essa visão estreita e capitalista do que é produtivo nos afeta diretamente, em vários aspectos: no direcionamento do nosso tempo, em escolhas diárias de onde colocaremos nossa energia, na divisão do trabalho doméstico e também no direcionamento dos nossos caminhos profissionais.

Minha avó dizia pra minha mãe - que queria ser bailarina depois de anos dedicados à dança - que ballet não era profissão. E é comum nós mesmos acharmos, lá no fundo, que cozinhar, cantar ou fazer arte não são carreiras respeitáveis ou rentáveis. Tudo isso tem a ver com uma ideia antiga e restrita do que é ou não produtivo.

Pra nós, mulheres, tem ainda questão da maternidade. Também, pra homens e mulheres, tem o dilema do tempo em casa, dedicado às tarefas domésticas. O mundo enxerga esse tempo, a energia colocada dentro de casa e na família, na atenção à saúde, ao corpo e à alimentação - e daí em diante - como algo não produtivo pelo viés econômico. 

E aí, acabamos, por essa lógica, presos a um ciclo que se retroalimenta. Só trabalhamos, não temos tempo pra cuidar de todo o resto, terceirizamos a vida privada e temos que trabalhar cada vez mais pra pagar todos esses serviços. Arlie Russell Hochschild, professora da Universidade da Califórnia, resume o fenômeno assim:

A vida moderna nos tornou mais ansiosos, isolados e sem tempo. Para enfrentar esse contexto, trabalhamos mais tempo e mais intensamente para financiar serviços extras. Isso nos deixa ainda menos tempo para passar com nossa família, vizinhos e amigos. Com isso, temos menos chance de recorrer a eles (e eles a nós) para pedir ajuda. Assim, recorremos ao mercado. E o mercado atende sorrindo as nossas novas necessidades.

Precisamos, principalmente nós, mulheres, repensar esse conceito de produtividade atrelado ao capital. Sem isso, seguiremos apertadas a conceitos antigos e restritos de trabalho.

3. O fim das identidades profissionais apertadas

É comum vermos pessoas se confundindo com a própria profissão. Jeitos de vestir, falar, estilo de vida, hobbies, um mundo todo afetado pela profissão que escolhemos e as pessoas com quem convivemos no dia a dia do trabalho.

Mas o caminho deveria ser o oposto.

Pela primeira vez na experiência humana, temos a oportunidade de modelar nosso trabalho para que se ajuste à maneira como vivemos em vez de ajustar nossas vidas ao trabalho. Seríamos loucos de perdêssemos essa chance.
Charles Handy

A internet revolucionou as possibilidades de profissões e empregos. Não trabalhamos mais em um só lugar, e se trabalhamos, estamos ou podemos estar conectados com o mundo todo, com milhares de possibilidades, realidades e fluxos de informação. O emprego, o local de trabalho e os colegas de profissão não são mais a única realidade possível e a maior contribuição pro nosso desenvolvimento como pessoas.

Temos milhares de oportunidades de florescer e integrar quem somos ao que fazemos.

4. Clarear a visão pra superar o medo

A grande pergunta, nesse mar de oportunidades e novos paradigmas de trabalho é a seguinte:

Como encontrar um trabalho que me gere prosperidade e me traga sentido?

Essa pergunta não vai ser respondida de uma hora pra outra. Talvez leve meses, anos. Roman Krznaric diz, em trecho do livro Como encontrar o trabalho da sua vida, publicado pela School of LIfe:

Nas minhas aulas, frequentemente ouço as pessoas se lamentando por estarem "ainda à procura de sua vocação" e invejando os que "encontraram sua verdadeira vocação". O que elas parecem estar procurando é uma carreira que ofereça um sentido abrangente de missão ou propósito. A busca, no entanto, quase certamente será mal sucedida. Não porque não existam vocações. Mas porque temos que perceber que a vocação não é algo que encontramos, mas sim que cultivamos - e na qual nos transformamos.

Um primeiro passo é olharmos de frente, com consciência, pra antigos conceitos que nos perseguem, como propus aqui. Depois, com a visão menos turva, tentar entender o que, no momento, é mais relevante pra nossa vida, pontos cruciais que compõe a nossa felicidade, e como o nosso trabalho pode se adequar a isso.

Pra mim, tempo de qualidade em casa e das pessoas que eu amo é importantíssimo. Fazer as coisas sem pressa - acordar, meditar, me exercitar, preparar meu alimento - também. Entendi que só vou ser feliz se meu trabalho conseguir compor essa equação.

Às vezes, dá uma dúvida danada, eu sei. Mas calma. Vai devagar, que dá pé. É só não abrir mão do que realmente importa. Nunca. E não esquecer que existe um mar de possibilidades fora do seu espectro de visão, é só lançar um olhar curioso e criativo pra fora da caixa.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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