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#3 A solidão da mulher negra: nossos afetos estão condicionados

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Eu não quero escrever esse texto. Como uma mulher negra, de 31 anos, lésbica, me incomoda a retraumatização que ele traz, me incomoda estar sempre confinada em ser minha raça, e não um indivíduo com tão mais pra falar do que ser uma mulher negra. Esse texto nasce desse lugar de desconforto. Ele começa agora.

“Mãe, se eu fosse branca, eu seria bonita, você não acha?”. Eu perguntei à minha mãe em algum dia durante o começo da minha adolescência. Numa outra situação, muitos anos depois, ela me contou que, no dia do seu casamento, o irmão do meu pai veio até ele e disse: “Nadou, nadou e morreu na praia. Foi casar com uma pretinha?”

“A pretinha, não”, disse um amigo para outro, ao me ver passar num bar. Eu tinha 24 anos, igual a minha mãe quando casou.

A verdade é que as histórias das mulheres negras se repetem: ninguém queria sair comigo, ninguém me achava bonita. Eu era a inteligente, a amiga da mais bonita, a esforçada, a que não serve pra casar, eu era a preterida.

Eu me relacionei com homens por grande parte da minha vida adulta. Até o dia em que me apaixonei por uma mulher e resolvi que iria fazer parte de mais uma minoria. Agora, eu era uma mulher nortista negra lésbica. Nesse processo, foi muito duro descobrir que o desejo também tem cor para as mulheres. O desejo continua sendo branco, alto, magro e feminino. Se for classe média, mais fácil.

Eu também faço parte dessa construção. Eu também tenho de desconstruir meu olhar, questionar o meu desejo e perceber que, quando eu acho uma mulher negra, uma pessoa negra bonita, eu também me acho bonita.

Além disso, você que lê esse texto e é não negra, quando você questiona o seu desejo, você passa a questionar uma estrutura que foi criada por alguém e empurrada em você. Por que não existe gosto, mas a construção do que é belo. 

Paro para ler sobre lésbicas negras. Reencontro a história de Luana Barbosa, mulher negra, periférica, “masculina”, que foi agredida pela polícia, na frente de seu filho, e morreu cinco dias depois, vítima de traumatismo craniano. Lembro de uma conhecida que não consegue emprego por ser uma mulher negra e masculina. Lembro do medo que senti quando um motorista de táxi soltou palavras ameaçadoras para mim e a mulher negra que eu estava me relacionando.

A história da mulher negra é sempre permeada pela agressividade. Longe do amor. Rodeada por sub-empregos, menor taxa de atendimentos hospitalares. A mulher negra é a que menos recebe anestesia nos hospitais, a maior taxa de assassinato e agressões domésticas. A mulher negra também é a mais estuprada, a com maior número de distúrbios mentais e as mais encarceradas.

Somos vítimas de uma sociedade que nunca nos considerou indivíduos capazes de ser, sentir, amar. Que diz que somos fortes para silenciar as nossas dores, desde que nos tiraram a força da África.

Quando eu perguntei pra minha mãe se eu seria bonita se fosse branca, ela me respondeu com silêncio. Ela, que vivia com um homem que a lembrava o quão feios seus traços negróides eram e o quanto ele era feliz que alguns destes traços não tivessem passado para suas filhas, talvez também pensasse que seria bonita se fosse branca.

Eu venho criando meu movimento de resistência e aprendo a me amar, negra, a cada dia da minha vida, já que esse direito me foi negado pela sociedade que eu faço parte e me vê como mais um corpo descartável. É difícil desconstruir uma fundação que foi construída durante 31 anos, mas sigo tentando com ferramentas como meditação, comunicação não violenta e uma rede de apoio que me consola quando eu sinto que não estou forte.

No final das contas, estas ferramentas são as que me ajudam a criar maior autonomia nas minhas relações amorosas, com mulheres negras ou não negras. São estas as ferramentas que fazem me enxergar como um ser humano que, apesar de toda brutalidade de um sistema racista, merece dar e receber amor e respeito.

Eu não acho que esteja pronta, se é que existe estar pronta, mas já consigo entender que esse processo é um processo que acontece num ritmo e tempos que são meus. E, como diria Bel Hooks:

“...quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”.


Nossa sugestão de prática: 

Nossa trilha de Autonomia Afetiva se dividirá em três fases: olhando para trás, olhando para dentro e olhando para fora. Este texto faz parte da primeira etapa, que busca principalmente desconstruir estereótipos de gênero para que possamos, assim, tocar com cuidado nossa essência. Sem tantas amarras, máscaras e grilhões.

Um dos mais populares símbolos do povo akan, de Gana, é uma imagem do pássaro sakofa olhando para trás com um ovo no bico. É usado para lembrar às pessoas que para ir em frente com sabedoria precisamos entender nosso passado — e não perdê-lo de vista. Por isso esses conteúdos que estamos percorrendo juntas são tão relevantes.

Para esse texto fazer mais sentido, é importante que você se pergunte — de forma livre, sem tentar arquitetar muito uma resposta:

Quem são as pessoas que você acha bonita? Como são aquelas por quem você se apaixona? Em quem se inspira? 

Quando você olha para uma mulher negra, quais adjetivos vêm a sua mente? Beleza? Exoticidade? Força? São conceitos formulados ou você consegue enxergar para além dessas camadas? 

Veja se o seu conceito de beleza e valor são condicionados por uma ótica eurocêntrica, por exemplo, ou ainda por outros filtros. Caso seja, tente estender o olhar:

O que essas amarras me causam, objetivamente? Limitam minha convivência, meu olhar para o outro? Se não fossem esses estereótipos automáticos, conseguiria me relacionar de forma mais ampla? 

A ideia, aqui, é que possamos jogar luz em cima daquilo que consideramos ser nossos modelos mentais e pré-julgamentos automáticos, muitos deles, culturais. E que possamos também olhar com mais profundidade para o nosso gosto, nossas preferências, nossas escolhas, nosso desejo. Não para negá-los todos, mas para sabermos de onde vêm, de qual contexto fazem parte, se são realmente seus ou se são imposições sociais.

Vamos juntas nessa busca. Te espero no fórum para conversarmos mais sobre isso.


Joana Mendes é redatora há treze anos e já passou por grandes agências do País. Hoje é freela e tem dois gatos pretos. 

 

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