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#1 Saúde: um breve olhar histórico para nosso corpo

A garota foi despertada de seu sonho. Ela estava, de fato, em um estado da mais aguda e difícil tensão. Falar, sem raciocinar, que ela tinha pensado algo sobre o corpo, sobre as paixões, as quais são inadequadas para uma mulher expressar. O que os homens, seu raciocínio disse-lhe, dirão de uma mulher que fala a verdade sobre suas paixões, isso a despertou de seu estado artístico de consciência. (Virgínia Woolf)

O que há de tão misterioso e inadequado no corpo feminino que dificulta nossas explanações a respeito do tema? Publicamente, falamos pouco sobre ele. Mas a verdade é que, às vezes, nem com as pessoas mais íntimas do nosso convívio nos sentimos confortáveis para conversar com abertura e honestidade sobre o assunto. Se olharmos para trás, é possível traçar como, historicamente, se construiu essa narrativa distante entre nós e nossos corpos? Por que sabemos pouco sobre ele e por que o pouco que sabemos não tem profundidade suficiente? 

 Ilustração da artista Laura Berger

Ilustração da artista Laura Berger

Há milênios, na Grécia e na Roma, éramos consideradas o corpo incompleto. Para eles, homens e mulheres eram iguais, com a diferença que a falta de “calor” fazia com que o "pênis da mulher" não saísse para fora do corpo. Dizia-se que tínhamos o pênis internamente — no nosso canal vaginal. As comparações não paravam por aí: útero era o escroto; os ovários, testículos. Havia muito no corpo feminino que não se sabia e ainda há, hoje, muito que não se quer saber.

Éramos um corpo superficialmente conhecido. Nesse cenário, o surgimento do movimento burguês traz novas significações para o feminino. Passamos, como mulheres, a carregar a tarefa da construção moral e religiosa dos filhos do sistema. Mudamos, ali, de um corpo superficialmente conhecido para um corpo sem reconhecimento e protagonismo algum — uma mera ferramenta de manutenção do estado de poder. Nem o orgasmo da mulher — que em tempos outros tinha sido considerado fundamental na hora de gerar um novo ser — passa a ser validado. É daí, aliás, que advém também a clássica separação entre a mulher de casa, dada à procriação, e a mulher da rua, fonte de prazer carnal para os homens. 

A mulher é matéria, o homem é o verbo

Hoje, corpos femininos e o que neles habitam seguem — embora com grilhões mais sutis, menos explícitos — sendo vistos como esse repositório oco. E o pior: nós mesmas fomos colocadas à margem do conhecimento desse território íntimo. Fomos lesadas no que tange nossos direitos a informações. Quando chegamos à fase adulta, o que sabemos, para além daquilo que nos ensinaram vagamente na escola? 

A reprodução, característica tomada como escolha natural da mulher, foi observada cientificamente e traçou a base para justificar a diferenciação entre os sexos e seus papéis sociais. De um lado, o homem e os desafios do mundo público. Do outro, nós, relegadas à reprodução da família. Nossa saúde gira em torno do eixo reprodutor. Somos férteis? Estamos aptas à reprodução. Passamos a ser estudadas como esse corpo incompleto de outrora. Temos para nós a ginecologia, uma medicina aplicada às nossas distinções em relação aos homens. A medicina do homem, no entanto, é a ciência da humanidade, dada a causas maiores que englobem aprendizados dos povos, das civilizações.

A ciência da mulher não: é aquela que descreve e justifica a diferença sexual.

A antropóloga Emily Martin, em seu livro "A mulher no corpo: uma análise cultural da reprodução", debruçou-se em estudos e entrevistas para entender a ciência como sistema cultural. Da imersão, vieram à tona metáforas médicas sobre o corpo feminino, particularmente sobre a menstruação, a menopausa e o parto, ressaltando os pressupostos culturais que consumam as ideias científicas sobre tais fenômenos. Ainda descreve que se antes do processo de industrialização o corpo era visto como um sistema de entradas e saídas que buscava a manutenção do seu equilíbrio, agora é uma metáfora de um pequeno negócio. É nesse cenário que nosso corpo como ferramenta de reprodução ganha validação. É preciso controlar esse “estabelecimento”.

Nossos processos naturais e cíclicos são vistos, pela ciência, como falhas de (re)produção. 

Martin contribuiu enormemente na problematização dos pressupostos que fundamentam a forma como médicos, e as próprias mulheres, olham para os processos reprodutivos. Sugeriu, como opção à negatividade com que alguns dos nossos ciclos eram vistos, que passássemos a considerar a menstruação, por exemplo, como um tipo de produção alternativa do ciclo feminino — que pode produzir bebês, que pode só fornecer o sangue menstrual ou que pode, ainda, como na menopausa, não dar vazão a esse fluido. Sem distinções hierárquicas entre os processos. Na prática, é abraçar nossos ciclos como são, com suas peculiaridades e potências, entendendo que nenhum deles tem mais valor que o outro. 

Se pensarmos nos atuais consultórios médicos, na forma mecânica com que somos atendidas, nas tecnologias obstétricas para o controle e padronização da gestação, na prescrição compulsória de pílulas anticoncepcionais, entre outras questões que surgem, veremos que 31 anos após a publicação de seu livro, os pensamentos e questionamentos de Emily Martin seguem atualíssimos e necessários.

 Ilustração de Laura Berger

Ilustração de Laura Berger

Halana Faria, ginecologista e obstetra, decidiu cuidar de outras mulheres em sua inteireza e complexidade, além de ajudar as pacientes no caminho de autoconhecimento. Para ela, somos infantilizadas em relações paternalistas com profissionais de saúde. Também somos lançadas em rotinas desnecessárias em busca dos “desvios” da nossa saúde — o que, segundo Halana, serve para justificar nossa posição na sociedade. Há uma construção de gênero pela medicina e uma articulação desse fenômeno com a medicalização.

Como forma de resistência, a médica traz, em seu blog, dois ótimos textos que apontam caminhos mais benéficos — e autônomos — para que sigamos nesse processo de protagonismo dos nossos corpos e saúde:

Pequeno manual de insubordinação a consultas ginecológicas e Rotinas ginecológicas? Mulheres, tomem as rédeas de seus corpos e sua saúde!

 

 

 

Não basta dizer que as representações que recaem sobre nossos corpos são socialmente construídas. Disso já sabemos. É necessário que destrinchemos os processos e que entendamos quais atores estavam envolvidos e por que. É assim que, informadas, conseguiremos escolher as ferramentas com as quais resistiremos.

Por que, afinal, quantas de nós já não nos sentimos inadequadas? Quantas outras já não foram violentadas em consultórios médicos e tiveram seus direitos esquecidos? Quantos preconceitos, humilhações ou privações ainda teremos de passar por sermos o que somos: mulheres? Nosso corpo é nosso e nele habita um mundo de potencialidades. Essa é uma jornada que começa hoje. Muitas de nós ainda estão dando os primeiros passos, outras já estão mais à frente no caminho. Em comum temos o fato de que queremos encontrar o equilíbrio e vivenciar experiências menos duras, mais acolhedoras e possíveis sobre a saúde feminina. Juntas.

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Para seguir em rede:

Indicamos o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que desenvolve desde 1981 um trabalho com especial foco na atenção primária à saúde das mulheres, a partir de uma perspectiva feminista e humanizada. Desde sua origem, o Coletivo se estruturou a partir de um consultório próprio e particular e ao longo de suas três décadas desenvolveu diversos projetos a partir de financiamentos de organizações internacionais e nacionais, assim como através de convênios com os governos.

Para se aprofundar no assunto:

Manual de Ginecologia Natural para Mulheres, de Rita Nissim

Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici

A Medicalização do Corpo Feminino, de Elisabeth Meloni Vieira

Witches, Midwives and Nurses: A History of Women Healers, de Barbara Ehrenreich


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Na Comum, é editora-chefe, participante e caseira.
 


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