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O que os brinquedos que você dá pra uma criança contam pra ela sobre o mundo

O Dia das Crianças está chegando aí. E o que a gente faz? Sai comprando brinquedos para  a meninada. Geralmente, o instinto é comprar o que eles querem ganhar naquele ano: o que os coleguinhas têm, o que está na moda na escola e o que está nas propagandas da TV. Em último caso, pedimos aquela dica esperta para a moça da loja de brinquedos - que tem, inclusive, setores separados pra meninos e meninas - e ela conta quais são as últimas tendências dependendo da faixa etária da criança e do gênero, claro.

Mas precisamos lembrar que brinquedos não são só brinquedos, e que eles podem significar muito mais para uma criança que só umas horinhas de diversão. 

Brinquedos são ferramentas poderosas de desenvolvimento e reprodução de cultura. 

Esse texto traz pontos importantes pra gente observar na hora de dar pras crianças algo que, superficialmente, parece inofensivo e lúdico.

1. Brinquedos trazem recados importantes com eles

Para eles, arminhas, legos, super-heróis, quebra-cabeças, jogos de cartas e estratégias, bola, patins, skate e outros aparatos radicais. Todas essas coisas dizem pros pros meninos que eles podem desbravar, experimentar, lutar, criar, cair, levantar e tentar outra vez. Que eles podem e devem ser corajosos e destemidos. O mesmo recado - de que isso tudo é coisa de menino - chega nas meninas também.

Já elas ganham bonecas dos mais variados tipos e com os mais variados itens (mamadeiras, chupetas, papinha, fraldas e por aí vai), kit cozinha, kit costura, ferro de passar roupa, tear de fazer bijuteria, maletinha de maquiagem e salão de beleza. Essas coisas dizem para as meninas que elas têm duas missões básicas no mundo: a de serem bonitas e a de exercerem papéis de cuidado, ligados à maternidade e à tarefas domésticas, principalmente.

Brinquedos não são besteiras inocentes, desgrudadas de um contexto social. Eles contam histórias importantes pras crianças e simulam a vida. Fazem com que elas se projetem, sonhem a partir daquelas brincadeiras e exercitem papeis. É clara a influência disso em como elas vão entender o mundo, elaborar desejos e espelhar as possibilidades de futuro que as espera.

Princeless é uma série de quadrinhos criados por Jeremy Whitley sobre uma princesa negra, Adrienne, que questiona o mundo das princesas como ele é. Para baixar uma edição completa, clica na foto acima. :)

 

Da mesma forma, as narrativas contadas em filmes, jogos e livros são importantíssimas: histórias de princesas impecáveis que esperam passivamente para serem resgatadas por príncipes, para casarem e serem felizes para sempre trazem, entre vários outros, o recado poderoso de que meninas não têm autonomia para tomarem suas próprias decisões e resolverem seus próprios problemas: são os meninos que têm.

2. Proibir brinquedos e brincadeiras afirma estereótipos de gênero opressores

Assim como o que a gente incentiva que meninos e meninas façam, o que proibimos ou desincentivamos é igualmente relevante.

Do lado dos meninos, existe um medo enorme em deixar que eles brinquem com itens ou experimentem atividades que compõe um imaginário de um simbólico do feminino: não podem se quer tocar uma boneca, qualquer coisa que seja rosa, brincar de cozinhar ou de casinha, por exemplo. Com isso, ensinamos que essas coisas não são para eles (como se os homens não fossem ser pais ou não precisassem lidar com tarefas domésticas) e, num sentido amplo, que eles devem evitar tudo que possa eventualmente se relacionar ao estereótipo do que é feminino, inclusive o que é da ordem do afeto e dos sentimentos.

Ensinamos eles a se enrijecerem.

A máscara que você vive é um documentário americano lançado esse ano, que fala sobre masculinidade tóxica e como ajudamos a criar meninos reprimidos e violentos. Disponível no Netflix.

 

Do lado das meninas, reprimimos jogos muito livres e soltos, lutas, esportes radicais, ou qualquer coisa que envolva exposição ou risco de se machucar. Ensinamos que elas devem se preservar.

Nada novo aí. Somos nós, reproduzindo desde muito cedo, com as próprias crianças, a separação de dois tipos atividades que tanto nos oprime depois: as mulheres são responsáveis pelo cuidado com a casa e com os filhos (atividades historicamente não remuneradas) e os homens são responsáveis pelo trabalho externo (considerado produtivo e remunerado). É a base da hierarquia de gêneros e estrutura importante da desigualdade entre homens e mulheres.

Então, antes de segmentar as brincadeiras e brinquedos de meninos e meninas, temos que lembrar que meninos também vão ser pais e também precisam saber preparar o próprio alimento. Meninas também vão dirigir e é saudável que pratiquem esportes com a mesma autonomia dos meninos.

Os nãos que dizemos também contam histórias do que é ser homem e do que é ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal e de como a gente espera que essas crianças se comportem quando crescerem.

3. As crianças ganham as habilidades que elas exercitam

Não à toa temos mais homens nas ciências matemáticas. Nos EUA, eles representam 74% da força de trabalho em campos ligados à ciência, tecnologia, engenharia e matemática segundo a U.S. census bureau statistics, 2011. No Brasil, o número é parecido: 70% de homens nas áreas de exatas segundo o CNPq. Em paralelo, vemos muito mais mulheres nas áreas de cuidado, como professoras, enfermeiras, babás e cuidadoras, por exemplo.

Não é porque fazer contas é uma habilidade masculina e cuidar é uma habilidade feminina. É muito mais científico e menos simplista: desenvolvemos o que exercitamos, o que praticamos.

A nós, mulheres, tem sido dado o direito de praticar atividades de cuidado há séculos, enquanto aos homens muitas outras atividades intelectuais são permitidas.

As crianças vão desenvolver as habilidades que praticarem, que colocarem à prova. Por isso, é extremamente limitante que elas não possam navegar por diferentes áreas e possibilidades.

4. É saudável deixar a criança experimentar livremente

Pra libertar as crianças, precisamos trucar hábitos nossos. Olhar pra coisas corriqueiras - como os brinquedos que a gente compra e o que a gente estimula que as crianças façam - com um olhar mais questionador e profundo.

Precisamos também quebrar mitos em torno das nossas construções do que é ser homem e mulher. Precisamos estudar e entender questões ligadas à sexualidade, ao invés de só reproduzir crenças populares.

Meninos não vão "virar gays" porque brincam de boneca quando pequenos. Meninas não vão "virar lésbicas" porque dirigem carrinhos na infância. Está na hora de superarmos a ignorância e encararmos o assunto de frente, sem medos, tabus ou preconceitos.

(Aliás, é bom antes de tudo entender que identidade de gênero, orientação sexual e sexo são coisas totalmente diferentes. Esse vídeo explica isso. Clica!)

Crianças são seres inteiros e muito mais complexos que os estigmas de rosa e azul que inventamos pra elas. São únicos e têm interesses diversos.

Deixar que elas experimentem, provem, testem e transitem livremente por brincadeiras, esportes e experiências lúdicas faz com que essas crianças se desenvolvam inteiras, amadureçam, ganhem maior entendimento de onde estão seus reais interesses e direcionem suas habilidades. Maior a chance de serem jovens e adultos mais empáticos, esclarecidos e resilientes, nas próprias relações e profissões. 

Olhar para isso com carinho é o único jeito de educarmos, com comprometimento, para a liberdade e para a mudança.


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Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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