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Nós, mulheres, precisamos olhar pra nossa sexualidade

A sexualidade vai muito, mas muito além do sexo.

Ela fala sobre a maneira como nos relacionamos com outras pessoas, sobre como nos colocamos no mundo. Fala sobre nós em diversos sentidos. E fala, também, sobre prazer - que é um ponto complicado pra nós, mulheres, na sociedade em que vivemos.

Mas a gente evita olhar pra isso tudo. Falamos de sexualidade de forma reducionista, falando sobre sexo. Falamos superficialmente, com uma amiga ou outra, na mesa de bar. Falamos só nos momentos de crise, quando a água bate na bunda.

É hora da gente entender que a nossa sexualidade importa, e que ela tem consequências enormes nas nossas vidas como um todo. Que precisamos olhar pra ela com curiosidade, profundidade e cuidado.

1. Vivemos uma sexualidade que não é nossa

Nós, mulheres, tivemos e temos nossos corpos controlados através da nossa sexualidade. Não temos a liberdade pra entender quem somos sexualmente falando, não somos incentivadas a explorar e conhecer os nossos corpos. Como resultado desse processo, muitas de nós, hoje, vive uma falsa liberdade sexual, que fala mais sobre dar prazer ao outro e ocupar um novo papel social do que buscar o que faz sentido pra nós mesmas, o que nos dá prazer.

2. Estamos esmagadas entre os estereótipos de santa e puta

Historicamente, também fomos esmagadas entre a santificação e a hipersexualização.

Fomos condenadas, desde sempre, a pagar pelo erro de Eva: a primeira mulher que levou Adão ao pecado, tirou da humanidade a possibilidade de gozar da inocência e do paraíso. A história bíblica da criação já mostra que mulheres são transgressoras, não confiáveis e, portanto, devem ser sempre controladas.

Esse pensamento misógino está por aí, em inúmeros escritos religiosos, e se perpetuou através da Igreja e silenciosamente na nossa cultura:

"Das leis do Estado e da Igreja, com frequência bastante duras, à vigilância inquieta de pais, irmãos, tios, tutores e à coerção informal, mas forte, de velhos costumes misóginos, tudo confluía para o mesmo objetivo: abafar a sexualidade feminina que, ao rebentar as amarras, ameaçava o equilíbrio doméstico, a segurança do grupo social e a própria ordem das instituições civis e eclesiásticas. A toda-poderosa Igreja exercia forte pressão sobre o adestramento da sexualidade feminina. O fundamento escolhido para justificar a repressão da mulher era simples: o homem era superior e portanto cabia a ele exercer autoridade."
- História das mulheres no Brasil - Sexualidade feminina na colônia.

As mulheres que não seguiam o estereótipo, o bom modelo, o comportamento que se esperava da sexualidade, eram bruxas ou putas. Era comum a associação entre feitiçaria e sexualidade: a luxúria era impura e causava perturbação social, era o mal de todos os males e devia sofrer repressão e extermínio.

Carregamos os símbolos de santa e puta conosco.

São significados coletivos, perpetuados por homens e mulheres e que marcam experiências e indivíduos. Eles dizem de estereótipos, de formas de se comportar. Enquanto um está ligado a sermos silenciosas e recatadas, não exercitarmos o corpo ou a sexualidade, a uma ideia quase idealizada de um ser angelical, o outro está conectado a uma mulher que lida com suas formas, desejos e tem uma boa relação com o erotismo.

Temos que entender como transitar entre essas definições e como e ressignificá-las individualmente, pra quem sabe provocar uma transformação coletiva pras próximas gerações.

3. Nem só por amor, nem só por transar

- Homem transa por instinto, mulher por amor.
- Homem é bicho.
- Mulher prefere chocolate a sexo.

Diz a lenda que mulher é diferente de homem. Mulher quer um parceiro só, tranquilidade, compromisso. Quer criar seus filhotes e cuidar do ninho com afeto e dedicação. Sexo vem sempre com amor, tipo um combo mágico. Já homem não. Homem é bicho, poligâmico. Conquistador e dominador por instinto.

Vou pular séculos e séculos de história (e também toda a carga religiosa sobre a mulher, esse ser "puro e angelical") e vou direto pra Freud, que dizia que a mulher tem, por natureza, um "instinto sexual mais fraco", uma "capacidade erótica inferior".

Na mesma linha, o bestseller americano do final dos anos 60, "Everything you always wanted to know about sex", de David Reuben, pregava a seguinte lei: "uma mulher, antes de ter relação sexual com um homem, precisa se relacionar socialmente com ele."

Não precisa de muito (basta estar vivo) pra sacar que essa é uma grande falácia do mundo patriarcal. O grande problema é que a gente cresce ouvindo essas groselhas - muitas delas vestidas de determinismo biológico.

Não somos ensinadas a explorar a nossa sexualidade nem a tratar o desejo como algo comum e saudável. A maioria de nós passa pra vida adulta achando que tudo o que é sexual é proibido, inclusive nosso próprio corpo.

Sobre isso, um trecho do livro fabuloso do Daniel Bergner - "O que realmente as mulheres querem" - que traz uma série de pesquisas e entrevistas com cientistas, historiadores, psicólogos e mulheres sobre sexualidade feminina (recomendo demais da conta):

"O papel do aprendizado social, do condicionamento, não é muito considerado pelos líderes de psicologia da evolução. Se promiscuidade fosse considerada normal em garotas adolescentes e não em garotos, se fosse louvável nas garotas e condenável pros garotos, se as meninas ao invés dos meninos fossem incentivadas a colecionar números na agenda, como a vida das mulheres seria diferente?"

E aí que passamos por várias situações de sofrimento até cair a ficha: somos sim seres (super) sexuais - apesar de nos dizerem o contrário a vida toda - e temos que nos entender com isso.

Do outro lado, liberdade sexual não tem a ver com transar por transar, transar com qualquer pessoa, se atravessar e se atropelar. 

Precisamos aprender a conhecer e viver nossa sexualidade independente dos polos.

4. Uma imersão pra gente olhar juntas pra essas questões todas

Estamos explorando o assunto sexualidade há 1 mês na parte fechada pra assinantes, através de textos, vídeos, hangouts e trocas no fórum online.

A trilha segue até o começo de dezembro - mas a cereja do bolo é a nossa imersão de dois dias - 3 e 4 de dezembro - em São Paulo. Vai acontecer no Pacaembu, na Casa de Trocas, com guia das pscicólogas e terapeutas corporais Renata Pazos e Maria Leonice, e vai misturar práticas e conversas importantes pra nós.

A ideia é que a gente possa se ver, se conectar e falar sobre o assunto de um jeito carinhoso e profundo.

Se quer saber mais da imersão e se inscrever, vem aqui. E convida as mulheres que te vierem na mente, quem você acha que vai se beneficiar desse encontro.

É hora da gente começar um processo de libertação, de cultivar nosso próprio centro e entender nosso desejo pra então conseguirmos nos relacionar com o outro com contorno e clareza.

Vamos juntas. 


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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